A retórica contemporânea insiste em... Aerton Luiz Lopes Lima
A retórica contemporânea insiste em sustentar a existência de valores como empatia, colaboração e desenvolvimento humano no ambiente produtivo.
Entretanto, tal proposição não resiste a uma análise minimamente rigorosa.
Se esses princípios fossem operacionais — e não meramente discursivos —, seria esperado observar um comportamento sistêmico orientado à formação de indivíduos. Ou seja: investimento deliberado na construção de competências.
O que se verifica, contudo, é o oposto.
O sistema demanda experiência prévia como condição de entrada, ao mesmo tempo em que se exime da responsabilidade de produzi-la.
A expressão recorrente — “contrata-se com experiência” — não é apenas um critério seletivo. É, na prática, a formalização de uma contradição estrutural.
Do ponto de vista lógico, o problema pode ser descrito de forma simples:
* Experiência é um produto de prática
* Prática exige oportunidade
* Oportunidade é negada na ausência de experiência
Tem-se, portanto, um ciclo fechado e autoexcludente.
Não se trata de falha acidental, mas de uma consequência previsível de um modelo orientado por eficiência imediata. Treinar implica custo: tempo, recurso e risco. Selecionar alguém “pronto” representa, no curto prazo, uma solução mais conveniente.
Essa escolha, entretanto, ignora uma variável essencial: sustentabilidade do próprio sistema.
Ao abdicar da formação, o sistema passa a depender exclusivamente de um estoque de profissionais já qualificados — estoque este que não é renovado na mesma proporção em que é consumido.
O argumento frequentemente utilizado — o de que “não compensa treinar, pois o indivíduo pode sair” — revela uma tentativa de racionalização de um problema distinto. A evasão de talentos não invalida o investimento em formação; indica, antes, falhas nos mecanismos de retenção.
Logo, a decisão de não ensinar não elimina o risco — apenas desloca o problema para o futuro.
O resultado é um ciclo previsível:
1. Exige-se experiência
2. Reduz-se a formação
3. Diminui-se a entrada de novos qualificados
4. Aumenta-se a escassez
5. Intensifica-se a exigência inicial
Esse sistema, ao longo do tempo, converge para a própria limitação.
Síntese
Não há escassez intrínseca de capacidade humana.
Há, sim, restrição deliberada de acesso aos meios que permitem desenvolvê-la.
Um sistema que condiciona a entrada àquilo que ele mesmo se recusa a fornecer não é apenas incoerente — é estruturalmente insustentável.
