Pessoalmente, acho que a religião... Alexandre Sefardi
Pessoalmente, acho que a religião exerce um papel de aio. Aio era aquele escravo romano que pegava crianças na creche, levava pra casa, pegava de casa e levava pra creche. Em outras palavras, a religião é uma medicina para algo humano, mas está absolutamente longe de ser o ideal divino do desenvolvimento da espiritualidade de qualquer pessoa.
Eu diria o seguinte: a religião nunca me seduziu, nunca me fascinou. Ao contrário, eu entendi que a religião era apenas um meio sofrível que poderia me oferecer um espaço de convívio com a esperança, um convívio mais próximo, mais identificável com gente que estava na mesma caminhada confessada que eu estava. Mas os conflitos que eu tive – e tenho – com a religião são grandes. A grande fascinação exercida na minha vida foi a percepção de que não cabia em projeto religioso nenhum. D'us é maior do que todas essas construções religiosas que estão aí. Eu percebi e devo isso a duas coisas: em primeiro lugar, aos escritos e nossos sabios; além disso, a uma bagagem histórica. Foi muito útil ter sido roqueiro, foi muito útil todo aquele processo de questionar instituições.
Juntar a rebelião roqueira com o ensinamento dos nossos sábios cria no coração um desejo enorme de conhecer a D'us, de amar o Emunah visível de Deus nesse mundo, que é a Torá, e a consciência constante de manter uma relação de permanente tensão com a religião. Ou seja, é uma relação de love and hate, eu te amo e eu te odeio.
E fica o tempo todo, porque no dia em que você apenas odiar, corre o risco de perder a comunhão com milhões de pessoas que estão conscientemente andando na direção que você diz estar andando. E no dia que você amar radicalmente e totalmente, você corre o risco de ser domesticado por uma espiritualidade pequena que rouba de você a percepção de sua irmandade fraterna – extremamente maior do que a religião.
