É perigoso o resto do mundo acabar e... Alessandro Teodoro

É perigoso o resto do mundo acabar e sobrar só o Brasil… Para cada maluco aparece um maluco e meio.
E talvez o mais inquietante não seja a quantidade de “malucos”, mas a naturalidade com que nos acostumamos a eles.
Aqui, o absurdo já não pede licença — ele entra, se espalha pelo chão ou senta no sofá, opina sobre tudo e ainda ganha plateia.
O exagero vira folclore, o delírio vira narrativa, e, quando percebemos, já estamos rindo do que antes deveria causar silêncio.
O Brasil tem essa estranha capacidade de transformar tensão em piada, crise em meme, tragédia em comentário espirituoso.
É um mecanismo de defesa, sem dúvida — mas também pode ser uma anestesia muito perigosa.
Porque quando tudo parece ridículo demais para ser levado a sério, a gente corre o risco de não levar mais nada a sério.
E nesse terreno fértil, onde o improvável brota fácil, cada voz dissonante encontra eco.
Não importa o quão desconectada da realidade ela seja — sempre haverá alguém disposto a amplificá-la, a reinventá-la, a levá-la um passo além.
Um maluco nunca anda só; ele é sempre o início de uma pequena multidão ainda em formação.
Talvez o verdadeiro risco não seja “sobrar só o Brasil”, mas sobrar um Brasil que já não estranha mais o que deveria estranhar.
Um país onde o espanto foi substituído pela ironia permanente, e a crítica deu lugar ao entretenimento.
Porque, no fim, quando tudo vira espetáculo, até o caos encontra aplauso.
E aí, o problema já não é quantos “malucos” existem — é quantos de nós ainda conseguem reconhecer que algo saiu do lugar.
