Outono Há dias em que acreditamos que... Marcilene Dumont Brasil_...

Outono


Há dias em que acreditamos
que nada se move,
que o cinza se instala
e o vento só traz despedidas.


Mas o outono sussurra
que a mudança não chega de repente:
ela começa em pigmentos,
em tons que ardem nos olhos —
laranjas, vermelhos, amarelos,
um fogo silencioso antes da queda.


As folhas cedem devagar,
soltam-se em coragem,
aceitam o chão
como quem aceita o próprio destino.


A árvore, nua,
não é fraqueza —
é força em repouso,
guardando em silêncio
a seiva da próxima primavera.


Assim somos nós:
precisamos perder camadas,
despir memórias,
para que o novo encontre espaço.


Resiliência não é resistência:
é confiança na passagem,
é coragem no cair,
é força no recomeçar.


O outono nos ensina:
a beleza também está
no processo da despedida.