O mais trágico da Polarização não... Alessandro Teodoro

O mais trágico da Polarização não foi revelar a face medonha dos Cheios de Certezas, mas Espalhá-los
tão estrategicamente para tropeçarmos neles aonde quer que formos.
Eles estão por quase todos os lugares…
Nas reuniões e confraternizações familiares e profissionais, nas praças e esquinas, nas mesas de jantar, nos grupos de mensagens, nas filas de espera e até nos comentários mais triviais.
Não chegam mais como exceção ruidosa, mas como regra silenciosa — aquela presença que não escuta, apenas aguarda sua vez de afirmar.
E afirmar, para eles, não é um gesto de construção, mas de encerramento: como se cada frase pudesse ser um ponto final definitivo num mundo que, por natureza, só sabe falar em reticências — e que não pode ignorar ser habitado por mais de oito bilhões de pessoas.
O problema nunca foi a divergência.
É ela que precede e oportuniza qualquer debate.
O atrito, quando honesto, ilumina.
O choque de ideias pode literalmente expandir horizontes, revelar nuances, produzir algo novo.
Mas os Cheios de Certezas e Verdades não se interessam por horizontes — eles carregam e preferem paredes e trincheiras.
Onde poderiam existir pontes, erguem-se fronteiras invisíveis, delimitando territórios onde só ecoa aquilo que já pensam ou acreditam pensar.
E talvez o mais inquietante seja que essa distribuição não parece aleatória.
É como se cada espaço humano tivesse sido cuidadosamente ocupado por uma certeza inflexível, garantindo que o desconforto nunca nos abandone.
Não há mais refúgio no diálogo leve, na dúvida compartilhada, no “talvez” dito sem medo e sem culpa.
A dúvida, aliás, virou fraqueza.
Pensar em voz alta tornou-se quase um risco.
Nesse cenário, o cansaço se instala.
Não o cansaço físico, mas o cansaço de existir entre verdades fabricadas.
Um desgaste que vem da necessidade constante de filtrar palavras, de medir silêncios, de escolher batalhas que muito raramente valem o preço.
Porque discutir com quem não admite a menor possibilidade de estar errado não é debate — é desgaste com roteiro previsível.
Ainda assim, há uma escolha muito honesta e silenciosa que resiste: a de não se tornar só mais um Cheio de Certezas.
A de preservar o incômodo da dúvida, o espaço do outro, a coragem de dizer “não sei”.
Pode parecer pouco diante do barulho dominante, mas talvez seja justamente aí que mora uma forma discreta de lucidez.
No fim, o que a Polarização realmente espalhou não foram apenas posições opostas, mas a tentação de abandonar a beleza da complexidade.
E resistir a isso, hoje, talvez seja um dos gestos mais difíceis — e mais necessários — que ainda podemos fazer.
