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“Quando a base fala da sua realidade... Fernando Kabral

“Quando a base fala da sua realidade concreta” 🌙

De fato, tem dias em que a gente amanhece meio estranho. E hoje foi um desses dias para mim.

Mas foi justamente nesta casa política, onde sempre conversamos de forma natural e respeitosa, que compartilhei uma fala simples, como tantas outras que já tivemos aqui. O que me causou surpresa foi a interpretação que surgiu depois, a partir de uma frase isolada, de um caso pontual, que não corresponde ao espírito das nossas conversas.

Deixa eu explicar o contexto daquela fala, porque ele importa.

Durante o governo Bolsonaro, eu recebia 600 reais por mês do Bolsa Família como beneficiário unipessoal. Esse dinheiro me sustentava, e também me permitia fazer meu trabalho de militância na base, participar de atos políticos, produzir conteúdo, me deslocar, sem depender de partido nem de liderança nenhuma. Era minha autonomia.

Quando o governo do presidente Lula assumiu, meu benefício foi suspenso. Fui ao CRAS 09 do Rio Doce, aqui em Olinda, entender o que havia acontecido. Me informaram que uma visita do Ministério havia constatado que eu teria família e filhos, o que me descaracterizaria como unipessoal. O problema é que isso não é verdade. Moro há 12 anos no mesmo kitnet, sozinho. E nunca ninguém esteve aqui para constatar coisa nenhuma. Foi um erro de cadastro, não é culpa do governo, não foi intenção de ninguém, mas foi um erro concreto que gerou uma consequência real na minha vida.

Desde então fiz atualizações, mais atualizações, voltei ao CRAS, os próprios funcionários vieram pessoalmente à minha casa, tomaram café, viram com os próprios olhos como eu vivo. E até hoje, quase quatro anos depois, sigo sem receber o benefício, vivendo com cerca de 30% de um salário mínimo, em situação de vulnerabilidade real.

Foi sobre isso que eu estava falando de manhã. Não estava avaliando o governo Lula como um todo. Estava narrando um caso pontual, burocrático, que afeta diretamente minha vida. Quando disse que financeiramente vivia melhor no período anterior, estava descrevendo uma realidade concreta. Eu recebia um benefício que hoje não recebo mais, por um erro que ainda não foi corrigido, apesar de todas as tentativas.

Reconheço que minha fala gerou interpretações que não correspondem ao que disse. Mas o que me preocupou foi perceber como a reação mostrou um certo distanciamento da realidade de quem está na base.

Sou filiado ao Partido dos Trabalhadores há mais de 40 anos. ✊
E nunca deixei o partido em nenhum momento da minha vida. Meu primeiro voto presidencial foi em Lula, em 1989, e participei daquela campanha como fiscal. Desde então sigo na caminhada, sempre no mesmo lado.

Vivi os dois mundos da militância. No mundo analógico, fiz panfletagem de porta em porta nas favelas, nas praças, nos supermercados. Em São Paulo, na região da Saúde e da Jabaquara. Em Curitiba, na Boca Maldita. E na realidade difícil do terceiro e quarto distrito de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde muitas vezes a esquerda quase não chega, e quem disputa o território são as facções e o fundamentalismo religioso.

No mundo digital, sigo fazendo o mesmo trabalho de base, hoje por quase 8 horas diárias, produzindo conteúdo de forma artesanal em mais de 150 grupos entre WhatsApp e Telegram, dialogando com a população e defendendo o projeto democrático popular que sempre construímos juntos. Hoje sigo em Olinda mantendo essa mesma caminhada. 📱

O que me preocupa é perceber que quando a base fala da sua realidade concreta, muitas vezes essa fala é interpretada como crítica política. Isso acaba afastando quem está no cotidiano da favela, da comunidade, dos becos, justamente onde se ganham corações e mentes.

E isso não é algo exclusivo deste espaço. É um fenômeno que acontece dentro do campo político de esquerda de forma mais ampla. Cria-se uma atmosfera tão elitizada, uma linha de pensamento tão consolidada, que o fato vivido e narrado pela base deixa de ser escutado pelo que é. Ele passa a ser filtrado, interpretado, enquadrado. E muitas vezes o que a pessoa disse simplesmente desaparece nesse processo. Como se a experiência concreta de quem vive a realidade não existisse por si mesma.

Precisamos ter cuidado para não perder a escuta da base periférica, que enfrenta o dia a dia com muitas limitações materiais. A realidade construída na experiência concreta do povo precisa ser parte central da nossa forma de fazer política.

Ninguém aqui está negando os avanços dos governos do presidente Lula, muito menos eu. Sabemos o tamanho da reconstrução que está sendo feita depois de tantos desmontes. Mas a base precisa ser escutada quando fala da sua realidade, inclusive quando essa realidade é difícil de ouvir.

Compartilhei minha fala justamente por considerar este Comitê um espaço de confiança e acolhimento. Minha vida é transparente e não tenho nada a esconder de ninguém. Por isso me causou preocupação ver uma interpretação que desconsidera completamente essa caminhada de décadas, e a realidade concreta de quem está na luta todo dia.

Sigo do mesmo lado de sempre. 🤝
E é exatamente por isso que precisamos continuar nos escutando.

7 de abril de 2026.