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Talvez a justiça se reinventasse, se... Alessandro Teodoro

Talvez a justiça se reinventasse, se conseguíssemos eliminar o maior sustentáculo dos criminosos e corruptos: o jeitinho brasileiro. Não aquele “jeitinho” roman... Frase de Alessandro Teodoro.

Talvez a justiça se reinventasse, se conseguíssemos eliminar o maior sustentáculo dos criminosos e corruptos: o jeitinho brasileiro.

Não aquele “jeitinho” romantizado das pequenas adaptações do cotidiano, mas a cultura silenciosa que normaliza atalhos, flexibiliza princípios e transforma conveniência em regra.

É muito curioso como muitos dos que clamam por punições mais severas — redução da maioridade, prisão perpétua e até pena de morte — convivem, sem incômodo, com práticas que alimentam exatamente o sistema que dizem condenar.

Vivemos uma contradição descaradamente confortável.

Indignamo-nos com a corrupção nos grandes palcos, mas toleramos — e por vezes praticamos — pequenas corrupções privadas: furar filas, subornar regras, justificar vantagens indevidas, fechar os olhos quando nos convém.

Criamos, assim, um terreno fértil onde a ética deixa de ser um valor e passa a ser uma escolha situacional.

O problema é que o crime muito raramente nasce grande.

Ele se constrói na permissividade, cresce na conivência e se fortalece na impunidade cotidiana.

O medonho “jeitinho brasileiro” não é apenas um traço cultural inofensivo; em sua face mais nociva, é o elo invisível entre o cidadão comum e as estruturas que sustentam a desigualdade e a injustiça.

Enquanto exigimos rigor do sistema, seguimos flexíveis conosco.

Queremos leis duras, desde que não nos endureçam.

Desejamos justiça exemplar, desde que não nos alcance.

Mas Justiça não se sustenta apenas em códigos penais — ela se constrói, sobretudo, em consciência coletiva.

Talvez o verdadeiro ponto de ruptura não esteja em penas mais severas, mas em uma mudança mais desconfortável: abandonar privilégios disfarçados de esperteza, recusar facilidades ilícitas, assumir responsabilidade pelas pequenas escolhas diárias.

Porque cada “jeitinho” aceito hoje é uma engrenagem a mais funcionando no mecanismo que amanhã iremos condenar.

No fim, a justiça que tanto reivindicamos começa no território mais negligenciado de todos: nós mesmos.