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⁠Dizer que a indenização é... Alessandro Teodoro

⁠Dizer que a indenização é irrisória não seria relativizar o crime — descaradamente — continuado pelo Estado? Pois há indenizações tão ínfimas que acabam se tor... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Dizer que a indenização é irrisória não seria relativizar o crime — descaradamente — continuado
pelo Estado?


Pois há indenizações tão ínfimas que acabam se tornando outro crime.


Há algo de profundamente perturbador quando o reconhecimento de uma injustiça vem acompanhado de uma reparação que mal arranha a superfície do dano causado.


É como se o Estado, ao mesmo tempo em que admite a falha, tentasse reduzi-la a uma formalidade contábil — um número lançado para encerrar um processo, não para restaurar uma dignidade.


Indenizar não é apenas pagar.


É reconhecer a extensão de uma violação, é dar peso concreto àquilo que foi abstratamente destruído: o tempo perdido, a dor acumulada, as oportunidades interrompidas, a confiança dilacerada.


Quando o valor é irrisório, a mensagem implícita é cruel: o sofrimento cabe em cifras pequenas; a injustiça, afinal, não foi tão grave assim.


E nesse gesto aparentemente técnico, instala-se uma perversidade silenciosa.


O Estado deixa de ser apenas autor do erro inicial e passa a ser também agente de sua banalização.


A indenização insuficiente não repara — ela reitera.


Não encerra o crime — prolonga-o em outra forma, mais sutil, porém igualmente ofensiva.


Talvez o mais grave não seja o valor em si, mas o que ele revela: uma régua moral distorcida, incapaz de medir o impacto real de suas próprias falhas.


Porque quando a reparação não corresponde ao dano, o que se perpetua não é apenas a injustiça passada, mas a certeza de que ela pode — e talvez vá — se repetir.


E assim, entre números gélidos e decisões protocoladas, o que deveria ser justiça se aproxima perigosamente de um novo tipo de violação: aquela que, sob o pretexto de reparar, ensina que certos crimes são, na prática, precificáveis e toleráveis.