Desde que a FIFA passou a pensar com... Alessandro Teodoro

Desde que a FIFA passou a pensar com os pés, a torcida com as cabeças dos outros, nossos futebolistas já não usam nem eles, nem a cabeça.
Talvez o problema nunca tenha sido exatamente o futebol, mas o que fizemos dele.
Um jogo que nasceu como expressão espontânea de corpo, inteligência e improviso foi sendo lentamente capturado por interesses que preferem o automático ao criativo, o previsível ao genial.
Pensar com os pés, nesse contexto, deixou de ser metáfora poética da habilidade e virou sintoma de uma inversão: decisões tomadas longe do campo, desconectadas da essência do jogo.
A torcida, por sua vez, que antes era extensão pulsante da arquibancada, passou a reproduzir discursos prontos, terceirizando até suas próprias emoções.
Já não se vibra apenas pelo que se vê, mas pelo que se manda sentir.
E quando a emoção deixa de ser autêntica, ela facilmente se transforma em massa de manobra — barulhenta, intensa, mas pouco consciente.
E os jogadores?
Esses parecem cada vez mais pressionados a cumprir roteiros invisíveis.
Entre contratos, estatísticas e expectativas infladas, o improviso — que sempre foi a alma do futebol — vai sendo sufocado.
Jogar com a cabeça, no sentido mais nobre, exige liberdade para pensar, arriscar e errar.
Mas, em um ambiente onde o erro custa caro demais, a criatividade se torna um luxo perigoso.
No fim, talvez estejamos todos participando de um jogo que já não reconhecemos completamente.
Um jogo onde se corre muito, fala-se demais e pensa-se de menos.
E aí, ironicamente, aquilo que sempre nos encantou — a inteligência que nasce do corpo em movimento — vai sendo substituído por uma coreografia previsível, eficiente… e cada vez menos humana.
