A semana dita "santa" Chamam... Miriam Da Costa
A semana dita "santa"
Chamam de santa
uma semana
onde a memória sangra.
Dizem sagrado
o que foi feito de cordas,
de açoites,
de carne rasgada
e silêncio forçado.
Eu olho,
e não vejo santidade.
Vejo mãos humanas
erguendo a própria crueldade
como espetáculo.
Vejo a multidão
(os mesmos que hoje rezam)
gritando ontem
pela condenação.
Vejo o peso da madeira
não como símbolo,
mas como instrumento.
frio, concreto,
real.
E me pergunto,
em que instante
a dor foi coroada de divina?
Em que momento
a atrocidade
ganhou nome de redenção?
Chamam de santa,
talvez porque precisem
que seja.
Talvez porque encarar
o abismo humano
sem adorno,
sem promessa,
sem justificativa,
seja insuportável.
Mas eu não consigo.
Não chamo de santo
o que nasceu da violência,
nem beijo
o que foi instrumento
de tortura e de morte.
Se há algo sagrado ali,
não está no ato,
nem nas mãos que feriram.
Talvez esteja
no que sobreviveu...
apesar de tudo.
Ou talvez…
na recusa de olhar na cara
a atualidade
das mesmas atrocidades
(e até piores)
que a humanidade
é capaz.
©️ @MiriamDaCosta
