A superficialidade estava entediada e... Miriam Da Costa
A superficialidade
estava entediada e inquieta...
e sorrindo, decidiu perguntar à profundidade por que ela era assim tão calma e triste.
a profundidade respondeu assim:
- Para saber...
basta olhar para si mesma
com a superfície dos meus olhos.
A superficialidade riu, leve,
quase distraída, como quem
não entende o peso
de uma pergunta.
- Ora, eu me vejo todos os dias, disse,
clara, brilhante, cheia de movimento e
não há mistério em mim.
A profundidade silenciou por um instante,
como quem escuta o que não foi dito,
e então falou, mansa:
- É justamente isso.
Tu te vês apenas onde a luz toca,
onde o reflexo te devolve intacta.
Mas não te conheces
onde a luz não ousa ficar.
A superficialidade hesitou,
um segundo apenas,
como se algo tivesse roçado
as margens do seu entendimento..
- E o que há lá? ( perguntou)
já sem o mesmo sorriso.
A profundidade respondeu:
- Há o que sustenta o que tu mostras.
Há o que dói, o que cria,
o que transforma.
Há silêncio,
e no silêncio, verdade.
A superficialidade então se inclinou,
curiosa e receosa, tentando enxergar
além do próprio brilho…
Mas recuou.
- É escuro demais.
E a profundidade, sem julgamento,
apenas concluiu:
- Não é escuro…
é vasto.
Imensamente vasto,
como a linha do horizonte
sobre o oceano.
A superficialidade
então ficou em silêncio,
pela primeira vez sem pressa,
sem brilho e sem resposta pronta.
Algo nela vacilou,
não como quem quebra,
mas como quem percebe
que nunca se sustentou sozinha.
E ali, à beira de si mesma,
entre o reflexo e o abismo,
sentiu um chamado
que não vinha de fora.
A profundidade apenas permaneceu,
como o mar que não insiste,
mas espera.
E, por um instante rar
a superficialidade não quis parecer,
quis entender.
Mas o entendimento,
assim como o oceano,
não se atravessa correndo.
É preciso,
com calma corajosa,
nele afundar.
©️✍@MiriamDaCosta
