Tem saudade que não chega fazendo... Evangelista araujo leite
Tem saudade que não chega fazendo barulho…
ela vem no silêncio, e fica.
Hoje eu só queria ter tido mais tempo de amizade com meu pai. Não só de pai… de amigo mesmo.
Daqueles que a gente chama pra ir à praia sem motivo, só pra sentar na areia e olhar o horizonte em silêncio, como se o mar dissesse o que a gente nunca soube falar.
Queria ter dividido mais momentos simples… uma pescaria qualquer, uma conversa jogada fora, um riso sem pressa.
Queria ter criado mais memórias leves, dessas que hoje fariam companhia nesse vazio.
Agora ele está ali… no hospital…
e o que mais dói não é só a distância, é o silêncio.
É não conseguir ouvir a voz dele. Nem aquelas palavras duras… que hoje fazem falta.
Tenso como a vida é…
até a arrogância dele, que antes pesava, hoje revela quem ele sempre foi forte.
O jeito inquebrável dele… era armadura. Era defesa de quem aprendeu a viver sem poder ser fraco.
E eu aqui… sentindo falta de tudo.
Do que foi bom, do que foi difícil… do que eu não entendi na época.
Porque no fim…
o amor entre pai e filho nem sempre vem em forma de carinho.
Às vezes vem em silêncio, em cobrança, em dureza…
mas ainda assim… é amor.
Mas dessa vez… eu não quero só lembrar.
Eu quero uma nova chance.
Quero que ele se recupere.
Quero poder olhar pra ele de novo… com outros olhos, com mais entendimento, com mais presença.
Quero viver o que ficou pra depois… sem deixar pra depois outra vez.
Se Deus permitir… ainda vamos à praia.
Ainda vamos sentar lado a lado, em silêncio… e dessa vez eu vou entender.
Ainda vamos numa pescaria qualquer… e eu vou valorizar cada segundo, cada palavra… até as duras.
Porque agora eu sei…
o tempo não espera, mas ele também pode dar uma segunda chance.
E se essa chance vier…
eu não vou perder.
Hoje, o que fica é a saudade…
mas junto dela, fica também a fé.
Fé de que isso ainda não acabou.
Fé de que ainda vamos escrever mais capítulos…
dessa vez, como pai…
e como amigos.
