SOBRE O ESPÍRITO SCHEILLA. LUZ E... Marcelo Caetano Monteiro
SOBRE O ESPÍRITO SCHEILLA.
LUZ E CARIDADE NA MEDIUNIDADE CRISTÃ.
O estudo da venerável entidade espiritual conhecida como Scheilla exige, para plena compreensão histórica e doutrinária, que se considere inicialmente a figura extraordinária do médium brasileiro Francisco Peixoto Lins, cuja atuação mediúnica marcou de maneira singular o movimento espírita do século XX. Conhecido carinhosamente como Peixotinho, esse notável servidor da causa espírita destacou-se de modo particular pela mediunidade de efeitos físicos, especialmente pela faculdade raríssima de materialização de Espíritos, fenômeno que, segundo numerosos pesquisadores e testemunhas, alcançou em sua presença um dos mais elevados graus de evidência já registrados na história do Espiritismo.
Oficial do Exército brasileiro, casado com sua dedicada esposa conhecida como Baby, Peixotinho foi pai de nove filhos e conduziu sua existência com admirável simplicidade moral. A partir da década de 1940, sua residência transformou-se espontaneamente em verdadeiro refúgio de assistência fraterna. Ali eram acolhidos enfermos vindos de diversas regiões, que permaneciam hospedados nos próprios aposentos da família enquanto recebiam tratamento espiritual. Mesmo enfrentando as limitações econômicas típicas daquele período histórico, a família jamais recusou auxílio a quem buscasse amparo. A caridade, nesse contexto, não se apresentava como gesto ocasional, mas como princípio estruturante de toda a vida doméstica.
Peixotinho consagrou-se integralmente ao exercício da mediunidade, oferecendo-se como instrumento para os trabalhos de socorro espiritual. Nos encontros mediúnicos, doava grande quantidade de ectoplasma, substância fluídica indispensável à produção dos fenômenos de materialização. Diversos Espíritos benfeitores utilizavam esse recurso para realizar intervenções terapêuticas junto aos necessitados. Entre essas entidades espirituais destacava-se o venerando Bezerra de Menezes, cuja presença nos trabalhos de cura tornou-se amplamente conhecida no meio espírita. A atuação do médium, entretanto, jamais se dissociou do equilíbrio moral proporcionado por sua esposa, que exercia papel essencial na preservação da humildade e da disciplina espiritual do lar, conduzindo a casa com austeridade e profunda devoção ao serviço do bem.
Foi nesse ambiente de abnegação que ocorreram experiências espirituais profundamente significativas. Em certa ocasião, na cidade de Macaé, o grupo mediúnico iniciou reuniões especiais de prece em favor das vítimas da World War II. A intenção era oferecer auxílio espiritual às multidões de desencarnados que, em razão dos horrores da guerra, encontravam-se em estado de intenso sofrimento e desorientação.
Durante uma dessas sessões manifestou-se um Espírito que se identificou como Rodolfo Fritz. Declarou ter pertencido a uma família espírita alemã e relatou que fora executado por fuzilamento durante o conflito, por ordem de seu próprio superior militar. O motivo de tal punição residia em sua recusa em cumprir a ordem de disparar contra prisioneiros indefesos. Fiel aos seus princípios morais, afirmou que ingressara na guerra com o propósito de salvar vidas, e não de destruí-las. Era médico, filho do também médico alemão Dr. Fritz, e expressava grande preocupação com sua irmã, que servia como enfermeira nas frentes de batalha.
Alguns anos mais tarde, em 1948, ocorreu um dos episódios mais notáveis da história desse grupo mediúnico. Durante uma reunião de efeitos físicos, materializou-se integralmente um Espírito feminino de extraordinária luminosidade. A entidade apresentava-se sob forma de uma mulher de grande beleza, cabelos loiros longamente entrançados, olhos azul-esverdeados de brilho intenso e presença serena. Um delicado e persistente perfume de rosas impregnava o ambiente sempre que se manifestava, característica frequentemente associada à sua presença espiritual. Esse Espírito revelou-se como Scheilla.
A partir desse momento, Scheilla passou a colaborar assiduamente nas atividades mediúnicas do grupo, dedicando-se principalmente ao atendimento dos enfermos que buscavam socorro espiritual. Utilizando os recursos da mediunidade de Peixotinho e também de outros médiuns de elevada sensibilidade, entre eles o célebre Chico Xavier, a benfeitora espiritual realizava impressionantes operações fluídicas. Em numerosas ocasiões materializava instrumentos e substâncias terapêuticas, ora em matéria tangível, ora em formas fluídicas invisíveis aos sentidos ordinários, mas eficazes no tratamento de enfermidades físicas e espirituais.
Essa atividade prolongou-se por várias décadas, estabelecendo um campo de trabalho espiritual de grande alcance. Diversas obras psicografadas atribuídas a Scheilla foram transmitidas por médiuns respeitados do movimento espírita, entre os quais João Nunes Maia. Essas mensagens apresentam elevado conteúdo moral e consolador, enfatizando a disciplina espiritual, a caridade e a confiança em Deus.
Entre os numerosos testemunhos envolvendo a atuação dessa benfeitora espiritual encontra-se o relato do médium Divaldo Franco, que descreveu detalhadamente uma intervenção espiritual realizada por Scheilla em sua garganta durante uma visita à residência de Chico Xavier, episódio que teria resultado na cura de um grave problema de saúde.
Outro registro expressivo encontra-se no livro "Chico Xavier - 40 Anos no Mundo da Mediunidade". Nesse relato, descreve-se um fenômeno singular ocorrido durante uma reunião mediúnica. Enquanto Chico Xavier aplicava passes, ouviu-se no ambiente um leve ruído semelhante ao de um pequeno objeto lançado suavemente ao chão. Um dos presentes anunciou que Scheilla havia oferecido um presente. Ao procurarem a origem do som, encontraram um grande caramujo marinho de extraordinária beleza, contendo ainda água salgada e areia fresca. O fato era particularmente impressionante porque todos estavam a centenas de quilômetros do litoral. O objeto teria sido transportado espiritualmente pela entidade utilizando-se da mediunidade do próprio Chico.
Nessa mesma reunião encontrava-se presente um cientista suíço de orientação materialista. Dirigindo-se a ele com leve sotaque alemão, Scheilla anunciou que lhe ofereceria o perfume que sua mãe utilizava quando estava encarnada. O aroma espalhou-se no ambiente e provocou profunda emoção no visitante, que não conseguiu conter o pranto ao recordar-se da figura materna.
A tradição espírita registra ainda duas existências anteriores dessa entidade espiritual. Em uma delas, teria vivido na França como Jane Frances de Chantal. Nascida em 1572, casou-se com o Barão de Chantal e tornou-se conhecida como Baronesa de Chantal. Após a morte prematura do marido dedicou-se intensamente à vida religiosa e às obras de caridade. Em 1604, sob orientação do bispo de Genebra, Francis de Sales, fundou a Congregação da Visitação de Maria, instituição que viria a estabelecer dezenas de conventos. Posteriormente contou também com o auxílio de Vincent de Paul. Desencarnou em 1641 e foi canonizada pela Igreja Católica em 1767.
Outra encarnação mencionada nos relatos espíritas teria ocorrido na Alemanha do século XX, sob o nome de Scheilla Fritz. Nessa existência teria atuado como enfermeira durante a Segunda Guerra Mundial, desencarnando em 1943 na cidade de Hamburg durante um bombardeio aéreo. Proveniente de família espírita, recebeu educação moral profundamente fundamentada em princípios de solidariedade e compaixão.
Segundo diversos relatos mediúnicos, Scheilla prossegue atualmente suas atividades em uma colônia espiritual situada em regiões próximas ao Brasil, onde coordena tarefas de assistência e socorro espiritual. Sua atuação permanece vinculada ao ideal cristão de serviço ao próximo, inspirando inúmeras mensagens de orientação, consolo e renovação moral.
A figura de Scheilla, portanto, representa para o Espiritismo um arquétipo de caridade operante e inteligência espiritual disciplinada. Sua presença nos trabalhos mediúnicos recorda constantemente que a verdadeira grandeza do Espírito não se manifesta em demonstrações de poder, mas na dedicação silenciosa ao bem. Assim, sua trajetória permanece como testemunho vivo de que a caridade iluminada é a expressão mais elevada da fraternidade ensinada pelo Cristo.
