Apego Ato 2 (Palco quase escuro. Um... Luis Henrique Takatsu

Apego Ato 2

(Palco quase escuro. Um único facho de luz. Ele caminha lentamente.)

Assim termina o engano do meu próprio coração.

Eu, arquiteto da ilusão,
escultor de um trono que jamais me pertenceu.
Com mãos trêmulas de afeto ergui muralhas de admiração,
e no topo delas coloquei um ser humano…
feito da mesma fragilidade que eu.

Mas ceguei-me.
Preferi chamá-la de estrela,
para justificar minha disposição em viver na sombra.

Oh, que doce veneno é idealizar.
Enobrece o outro
e empobrece a si mesmo.

Fiz dela soberana de um reino que inventei.
Curvei-me diante de um amor que não pediu joelhos.
E quando clamei por reciprocidade,
o eco foi minha única resposta.

(pausa longa)

Mas eis a tragédia maior
não foi rejeição.
Não foi desprezo.
Foi consciência.

Consciência de que nenhum trono se sustenta sozinho.
Que todo pedestal exige um chão.
E eu… eu escolhi ser chão.

(olha para as próprias mãos)

Estas mãos que ergueram,
agora aprendem a desfazer.

Pois se amor houver de existir,
que venha sem coroas.
Sem alturas inventadas.
Sem abismos criados pelo excesso de devoção.

Que venha como encontro.
De pé.
Olho no olho.
Respiração contra respiração.

E se não puder ser assim…

(entonação firme)

Que caia o trono.
Que se despedacem os altares.
Que reste apenas a verdade
dois seres humanos
ou nenhum.

(A luz se apaga lentamente. Silêncio.)