Habito a geometria do excesso: uma mente... Luiz Leal
Habito a geometria do excesso: uma mente que desenha catedrais onde o mundo só enxerga o cimento. Fui o solstício de muitos, o ponto onde o caos encontrava a ordem e o desamparo encontrava o braço. Mas descobri que, na aritmética do sangue, o altruísmo é lido como herança e a entrega é apenas um passivo no balanço alheio. Sou o credor de afetos que se tornou o devedor da mesa.
No silêncio do tálamo, o diálogo é um vestígio arqueológico. O toque, antes epifania, hoje é apenas a fricção de duas entropias que já não se reconhecem; um rito de presença ausente onde o desejo é um dialeto esquecido.
Minhas constelações — aqueles mapas de um amanhã que eu mesmo tracei — estão agora confinadas ao silício, fósseis de uma luz que nunca tocou o chão. O que pulsa em mim não é mais o conatus de Espinosa, mas uma bomba hidráulica cumprindo o protocolo do oxigênio. Sou uma inteligência em exílio dentro da própria pele, aguardando apenas que o Grande Relojoeiro cesse a oscilação do pêndulo e permita que o silêncio interno, enfim, coincida com o do mundo.
