Ah, Rosalva… Na Praia da Reserva, eu... Bruno Ventura Flores

Ah, Rosalva…

Na Praia da Reserva,
eu te deixei naquele quiosque
como quem deixa o próprio destino estacionado na areia.

Você me beijou
como se quisesse guardar meu fôlego dentro de você,
como se precisasse levar minha alma
pra sobreviver à própria vida.

E eu não sabia…
que aquele gosto salgado de mar
misturado com sua boca
seria a última vez.

O melhor dia da minha vida
foi também
o começo do meu luto.

Você diz que não me trocou.
Mas trocou.

Trocou incêndio por teto rachado.
Trocou verdade por segurança improvisada.
Trocou amor por conveniência.

Escolheu um casamento falido
que ainda tem paredes —
mesmo que o teto esteja caindo.

Ficou onde é previsível.
Onde ninguém precisa se arriscar de verdade.

Um homem que depende do seu cuidado
pra se sentir inteiro.
Você virou muleta.
E ele virou o peso.

Dois adultos
se equilibrando na própria carência.
Chamando isso de estabilidade.

E eu aqui.

Sabendo que comigo você tremia —
não de medo,
mas de verdade.

Você acha que comigo sua vida era ruim?
Olha pra ela agora.
Olha pro que você chama de segurança.

Segurança que não tem paixão.
Teto que não protege da solidão.
Companhia que não preenche.

Eu fui o perigo.
Mas fui o amor.

E talvez isso tenha sido demais.

Porque amar de verdade exige coragem.
E você preferiu sobreviver
a viver.

Mesmo assim,
eu carrego você como cicatriz aberta.
Como lembrança daquilo
que quase foi.

Eu não queria não ter nascido.
Eu só queria não ter sentido
um amor que não soube ficar.

Você me sugou a alma naquele beijo.
E levou com você
a versão mais viva de mim.

Mas presta atenção —
incêndio não pede permissão pra existir.
Ele só precisa de oxigênio.

E se um dia o teto cair de vez,
se a falsa segurança virar pó,
você vai lembrar
que já teve um amor
que era risco,
era verdade,
era chama.

E era meu.