Entre confete e silêncio Nas ruas nasce... Rafael Zafalon
Entre confete e silêncio
Nas ruas nasce fevereiro
com seus tambores solares,
uma alegria ensaiada
que aprende a sorrir mais alto que a fome.
O país veste plumas
para não ver as costuras abertas.
Cada lantejoula cobre
um buraco antigo do telhado.
Chamam de festa popular —
e é,
porque o povo é especialista
em sobreviver cantando.
Mas há um cansaço
escorrendo por baixo da tinta:
um mapa rasgado em avenidas,
um futuro vendido em três acordes.
O pão chega em migalhas,
o circo em carros alegóricos.
A multidão aprende o refrão
antes de aprender o porquê.
Enquanto isso,
nas casas quietas,
a solidão assiste pela televisão
um país que não cabe mais em si.
Ninguém é tolo sozinho —
é junto que a distração floresce.
É mais leve dançar
do que sustentar a pergunta.
E assim fevereiro passa:
o Brasil amanhece rouco,
coberto de papel picado,
sem lembrar o que tentava dizer.
