Tudo passa, tudo passará. Da memória... Jeremias Edson Cardoso

Tudo passa, tudo passará.

Da memória surge uma tela em mim,

cheia de lugares onde nunca estive:
coisa inglória, sofá horrendo, mofo e tristeza.
E a selva amazônica

— tribos, índios, saqueadores —
aparece nessa tela onde nunca estive:
Pindorama de águas, verdes, animais e horrores.
Cheio desses lugares onde nunca estiveste,

poderíamos algo materializar:
tempos antes de beijos silvestres,
e depois trilhar vias tortuosas.
Sentir pulmões e diafragmas

inflar de ar, o cheiro da mata;
correr com bichos assustados,
mil cantos, berros,
e, ao fim, sentir-se voltar para casa.
Joguemos então a tela

e o sofá no crematório das inutilidades.