Capítulo — O amor que não pediu que... Ana Carolina Paulo

Capítulo — O amor que não pediu que eu me perdesse


Os dias foram passando, e eu comecei a sair cada vez mais. Não por carência, mas por retorno à vida. Foi no terreiro que eu o conheci — como se a espiritualidade, mais uma vez, soubesse exatamente onde me colocar.


Ele era tímido. Respeitoso. Trazia sempre um sorriso sereno no rosto, desses que não pedem nada, apenas oferecem calma. Alto, cabelos pretos como a noite, cheios de cachos, como se guardassem segredos. Meu coração dizia: vai em frente. Minha cabeça, ainda ferida, sussurrava: foge. Não vale a pena perder o rumo outra vez.


Dessa vez, eu queria. Mas fui devagar. Pé no freio, cinto de segurança, marcha lenta. Eu já sabia que amar não precisava ser queda — podia ser escolha.


Apresentei-o à minha filha como meu amigo. Ele se aproximou com cuidado, sem pressa, sem invadir. Ele e meu pai se tornaram amigos de imediato. Em pouco tempo, ele chamava meu pai de pai, minha mãe de mãe, como quem entende que família é vínculo, não contrato.


Eu gostava de tudo aquilo, mas mantinha o coração em retranca. O medo ainda morava ali, atento, desconfiado. Ainda assim, as atitudes dele falavam mais alto. Quando ia à minha casa, fazia de tudo para me agradar e agradar minha filha. Era carinho constante, cuidado natural, presença sem esforço.


Ele me levou para conhecer a mãe dele. Nos tornamos amigas com uma facilidade quase absurda. Tudo parecia encaixar. Era um sonho. E sonhos, eu sabia, também podiam doer.


Chegou o Carnaval. Ele não pôde viajar comigo — havia conseguido um trabalho. Ainda assim, me incentivou a ir, a me divertir. Na viagem estavam meus pais, minha irmã, minha comadre com seus dois filhos, minha filha e eu. Uma pequena multidão de afetos.


Fui.
E falávamos todos os dias por telefone.


Numa noite de folia, minha mãe nos deu um vale-night. Disse que ficaria com as crianças para que eu e minha comadre fôssemos curtir um pouco do Carnaval de Rio das Ostras. Fomos. Rimos. Sambamos. Bebemos. Bebemos demais.


Minha cabeça girava, mas meus pensamentos só tinham um endereço: ele. E, guiada pelo álcool e pela verdade, acabei contando para todo mundo o quanto eu gostava dele. Foi aquele porre em que a dignidade escapa, mas o sentimento decide aparecer.


Quando voltei para casa, ele estava no meu portão. Me esperando. Carregou as malas, entrou, fez almoço para mim e para minha filha. Como se aquilo fosse simples. Como se cuidar fosse seu idioma principal.


Naquela noite, a luz acabou. O calor era insuportável, e eu precisava trabalhar no dia seguinte. Ele passou a noite inteira me abanando com um leque, em silêncio, sem reclamar, sem dormir. Quando acordei pela manhã, ele ainda estava ali, repetindo o gesto.


Foi nesse instante que eu soube: ele me amava.
Não com promessas. Com presença.


Algum tempo depois, veio a notícia. Ele havia passado em um concurso para outro estado. Estava sendo convocado para tomar posse. O futuro o chamava.


Saímos juntos na noite seguinte. Foi uma noite linda. Intensa. Silenciosa. Nós dois sabíamos: era despedida. Não havia drama, nem cobrança. Só um amor adulto o suficiente para não pedir sacrifício.


Levei-o até o aeroporto. Ali, combinamos que viveríamos nossas vidas da melhor maneira possível. Que não ligaríamos. Que não escreveríamos. Porque às vezes, para não se perder, é preciso soltar. E insistir só criaria fantasmas.


Ele foi o maior amor que já vivi. Sem interesse. Sem cobrança. Sem dor. Só carinho, cuidado, alegria e amor.


Até hoje, de vez em quando, ainda penso nele.
E o pensamento vem manso, sem culpa.


Às vezes me pergunto:
e se ele não tivesse ido?
e se eu não tivesse cumprido o acordo de não ligar?


Mas aprendi que alguns amores não existem para durar.
Existem para ensinar.


E ele me ensinou que eu podia amar sem me perder.