Aquele que tem ouvidos, ouça Não foi a... Carolina Marinho

Aquele que tem ouvidos, ouça


Não foi a maldade que mais me feriu.
Foi o acordo silencioso.


Foi ver mãos limpas
assinando pactos sujos
com a desculpa de que
“não havia escolha”.


Foi a violência vestida de normalidade,
o horror usando crachá,
a crueldade sentada à mesa
falando baixo
para não incomodar.


Não foi o grito do tirano
que me dilacerou.
Foi o coro dos neutros
afinando o silêncio
por medo de perder lugar.


Eu vi pessoas boas
negociando a própria alma
em parcelas pequenas,
chamando de sobrevivência
o que já era rendição.


Vi a mentira virar método.
Vi o interesse virar ética.
Vi a conveniência ser chamada de prudência.


E ninguém sangrava visivelmente,
por isso diziam que estava tudo bem.


Mas eu senti.
No corpo.
No peito.
Na garganta que treme
quando tenta dizer o óbvio
e descobre
que o óbvio virou heresia.


A maldade não venceu porque era forte.
Venceu porque foi aceita.
Porque parecia útil.
Porque dava lucro.
Porque protegia quem fechava os olhos.


E eu, que não aprendi a cegar,
carrego esse peso estranho:
ver demais,
sentir demais,
e ainda assim continuar aqui.


Não me chamem de dramática.
Não me peçam calma.
Não me peçam silêncio.


Eu não falo apenas para não morrer por dentro.
Eu falo porque acredito
que a voz não nasce
para ecoar sozinha.


Eu falo na esperança
de que algum ouvido reconheça o som
como quem reconhece um chamado antigo
e descubra, perplexo,
que também tem voz.


Eu falo porque sei
que a coragem não começa no punho.
Ela começa no peito,
quando alguém decide
não se esconder mais atrás do medo.


Não quero exércitos.
Não quero tronos.
Não quero vingança
vestida de justiça.


Quero gente em pé.
Inteira.
Com o coração exposto
e a consciência desperta.


Quero que os justos se levantem
não para destruir,
mas para não ceder.
Não para odiar,
mas para não negociar a alma.


Que se levantem com amor —
esse amor difícil,
que não passa pano,
que não mente para proteger privilégios,
que não chama covardia de prudência.


Que se levantem com coragem —
não a coragem do grito,
mas a coragem diária
de dizer “não”
quando o mundo inteiro diz
“é assim mesmo”.


Se minha voz encontra um ouvido,
que esse ouvido vire voz.
Se essa voz encontra outra,
que vire coro.


Não um coro de guerra,
mas um coro de presença.


Porque o mal prospera no escuro,
mas treme
diante da lucidez
que não se deixa comprar.


Eu falo porque ainda espero.
E enquanto houver esperança,
há humanidade tentando nascer
outra vez.