Análise do poema "Xisto from... Bruno Michel Ferraz Margoni

Análise do poema "Xisto from Galgaräma" de Michel F.M. - Livro: Arquitetura da Expectativa - Trilogia Flores do Pântano


Este poema é uma construção fascinante que transita entre o surrealismo e a exploração psicológica, utilizando a figura de Xisto como um arquétipo da fragmentação e da percepção alterada.


Aqui está uma análise dividida pelos eixos principais da obra:


1. A Figura de Xisto: Identidade e Sobrevivência
Xisto não parece ser apenas um nome, mas uma representação da matéria (o xisto é uma rocha metamórfica que se quebra em lâminas). O poema sugere que sua existência é pautada pela resistência e pela "estranheza".


Amnésia e Fluxo: Xisto não recorda quem é ou para onde vai. Ele vive em um estado de "intempérie" mental, onde o tempo (um zilhão de anos) passa de forma tumultuada.


Autofagia: A mente de Xisto é descrita como "voraz" e que "devora a si mesma". Isso aponta para um processo de autodestruição criativa ou um colapso psíquico que, curiosamente, precede uma regeneração.


2. O "Excêntrico Código do Estranhamento"
O autor utiliza o conceito de estranhamento (o ostranenie dos formalistas russos) como uma ferramenta de comunicação.


Comunicação Não-Linear: O poema insiste que a estranheza é uma forma de código. Para entender Xisto, é preciso abandonar a lógica convencional e aceitar o "rodopiar, sacolejar e nublar-se".


Valência e Discrepância: No final, a mente de Xisto transforma a "discrepância" em "valência". Na química, a valência é a capacidade de ligação; o poema sugere que é através do erro e do desatino que novas conexões humanas ou artísticas são feitas.


3. A Estrutura Rítmica: O Refrão da Dúvida
Um dos pontos mais marcantes é a repetição da expressão "mas talvez / mais alguém...".


Solidão vs. Universalidade: Esse refrão atua como um contraponto. Enquanto Xisto é apresentado como único em sua loucura ou sobrevivência, o "talvez" abre uma porta para a alteridade.


O eu lírico busca saber se Xisto está sozinho em seu "Galgaräma" ou se a condição de estranhamento é compartilhada pela humanidade.


4. O Desfecho: O Absurdo e o Cotidiano
O poema termina de forma abrupta e quase britânica:
"no apito do trem / soam os sinos / chegou a hora do chá."


Essa transição do caos mental ("mente voraz", "destrambelhada") para o ritual doméstico do chá evoca o Teatro do Absurdo (como em Lewis Carroll ou Samuel Beckett). O tempo geológico (zilhão de anos) é subitamente reduzido ao tempo mecânico (o apito do trem).




Este poema parece tratar da neurodivergência ou do isolamento do gênio/louco, onde a "estranheza" não é um defeito, mas uma linguagem própria.


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Xisto from Galgaräma
(por Michel F.M.)


somente Xisto
a sobrevivência
pode relatar,
de tua maneira
é claro, incomum,


mas talvez
mais alguém possa.


insisto
que a estranheza
pode comunicar,
neste excêntrico código
do estranhamento.


mas talvez
mais alguém o faça.


tem Xisto
bagagem
para tão constante
insistência,


mas talvez
mais alguém tenha.


e a mente de Xisto
é capaz,
de converter
em presença
a distância,


rodopiar, sacolejar
e nublar-se no agora.


mas talvez,
mais alguém
aproxime.


passam tumultuados
pelas vistas
de Xisto,
um zilhão de anos,


retira parte da memória
de seus bolsos,
ao recolocar tua
intempérie nos
lugares devidos.


não recorda de quem é,
nem do porquê foi,
ou para onde.


a mente
de Xisto voraz,
devora a si mesma,
retumba e atordoa,
perturbante.


então desatina
e saltita por aí,
destrambelhada.


depois regenera
e transforma
em valência
esta discrepância.


mas talvez,
mais alguém
se apresente.


talvez,
mais alguém
se apeteça.


no apito do trem
soam os sinos,
chegou a hora do chá.


(Arquitetura da Expectativa -
Trilogia Flores do Pântano) 2025