(Não posso ficar contigo) Em uma... Ana Clara Araújo

(Não posso ficar contigo)
Em uma pequena cidade, vivia um ladrão conhecido por todos os moradores, pois a ninguém poupava de seus furtos. Seu nome era Peter. Todas as manhãs, como de costume, saía para roubar.
Certo dia, enquanto praticava seus atos sorrateiros, avistou algo que lhe pareceu de grande valor. Tal objeto encontrava-se em posse de uma mulher chamada Ivy. Ela cavalgava serenamente sobre seu cavalo, trazendo uma bolsa pendida ao lado.
Peter, com extrema cautela, aproximou-se e, num rápido movimento, subtraiu a bolsa de Ivy. Uma velha senhora logo bradou em alta voz:
— Pega o ladrão!
Ivy levou a mão à cintura e, ao não encontrar sua bolsa, exclamou, tomada pela ira:
— Maldição!
Sem demora, virou o cavalo e pôs-se à procura do meliante. Dirigiu-se então ao mercado negro, pois somente ali se negociavam tais objetos. Ao ali chegar, avistou o ladrão com sua bolsa em mãos e, sem hesitar, lançou-lhe uma flecha, que por pouco não o atingiu.
Peter agarrou a bolsa, cuspiu ao chão e a insultou, chamando-a de imunda.
— Tens sorte de eu não te tirar a vida — disse Ivy, com voz firme.
Peter respondeu com escárnio:
— Sua majestade ficaria muito satisfeita em saber que perdeste a bolsa.
Ivy nada respondeu e seguiu seu caminho. Ao chegar ao castelo, entregou a bolsa à majestade. Foi então que viu, diante de si, a cabeça de uma mulher ornada com uma coroa cravejada de diamantes, bem como a mão de sua filha.
O príncipe ordenara que Ivy tirasse a vida da rainha e decepasse a mão da jovem, pois a rainha recusara unir sua amada filha a um príncipe oriundo de um reino sem rei.
Todavia, o príncipe percebeu a ausência de um anel. Fitou Ivy com severidade e disse:
— Dize-me, porventura perdeste a bolsa?
Ivy caiu de joelhos e implorou perdão. O príncipe ordenou que a segurassem e, como castigo, mandou-lhe cortar o dedo mínimo do pé, para que jamais se esquecesse da lição.
Ferida e humilhada, Ivy deixou o castelo e seguiu rumo à floresta encantada, em busca do auxílio de uma bruxa.
No caminho, Peter surgiu e disse, com ironia:
— Em verdade, teu pé não se encontra em bom estado. Melhor seria buscares socorro.
— Desgraçado! — bradou Ivy. — A culpa é tua!
Ainda assim, prosseguiu seu caminho. Peter seguiu a mesma trilha e, mais adiante, falou-lhe:
— Desejas, por acaso, este anel?
Ivy fitou-o com desprezo e chamou-o de infame. Contudo, Peter iniciou uma negociação. Ele nutria amor secreto por Sua Majestade Cecília, irmã do rei, chamada por muitos de Ceci, embora seu irmão lhe fosse grande obstáculo.
Peter então perguntou se Ivy desejaria unir-se a ele para saquear as terras e reinos vizinhos. Ivy encarou-o e indagou:
— Além de ladrão, sois louco?
Com palavras ardilosas, Peter começou a persuadir Ivy, e, após muito resistir, ela acabou por concordar. Contudo, para que tal intento se realizasse, ambos haveriam de se preparar.