ANIMAIS NO PLANO ESPIRITUAL. Não... MARCELO CAETANO MONTEIRO
ANIMAIS NO PLANO ESPIRITUAL.
Não existiriam animais no mundo espiritual?
Analisemos o artigo.
Para dar lucidez captável ao tema e organizar o vasto material apresentado, é necessário separar o que é doutrinário, o que é interpretativo e o que é testemunhal, sem misturas indevidas. O Espiritismo sempre exigiu método, fidelidade ao texto e prudência nas conclusões. À luz disso, seguem os pontos essenciais, organizados em ífens, com ênfase nos núcleos expressivos da questão.
O ponto de partida doutrinário é a questão 600 de O Livro dos Espíritos, na qual se afirma de modo literal que a alma do animal fica numa espécie de erraticidade após a morte do corpo. Erraticidade, por definição kardeciana, é permanência no mundo espiritual fora da encarnação. Logo, há presença no plano espiritual, ainda que distinta da humana.
O cuidado dos Espíritos em não chamar essa condição de Espírito errante não significa negação da existência espiritual dos animais, mas delimitação conceitual. O termo Espírito errante, no corpo da obra, aplica-se exclusivamente a Espíritos que já atingiram o grau hominal, dotados de consciência de si e livre-arbítrio pleno.
A resposta esclarece que o animal não possui consciência reflexiva nem liberdade volitiva comparável à humana. Trata-se de diferença de natureza psíquica, não de inexistência espiritual. Confundir essas duas coisas gera o equívoco central do debate.
A afirmação de que o princípio inteligente do animal é classificado e utilizado quase imediatamente indica organização, tutela e finalidade. Não se fala em aniquilação, nem em inexistência, mas em encaminhamento rápido segundo leis próprias.
A expressão quase imediatamente é decisiva. Se fosse inexistente qualquer permanência espiritual, bastaria dizer imediatamente. O advérbio empregado admite intervalo, ainda que breve, e reforça a presença no mundo espiritual.
A frase não dispõe de tempo para se relacionar com outras criaturas não estabelece princípio absoluto. Indica tendência geral, compatível com reencarnações rápidas, sobretudo quando não há mudança significativa de espécie ou necessidade de maior elaboração perispiritual.
O paralelo com Espíritos humanos muito primitivos é legítimo. Também entre humanos há reencarnações com planejamento mínimo, conforme esclarecido no Anuário Espírita de 1964, o que demonstra gradações no processo reencarnatório.
Não há base doutrinária sólida para tratar todas as espécies animais como um bloco homogêneo. O próprio Codificador reconhece diferenças evidentes de inteligência e aptidão entre espécies, ao comentar cães, cavalos e elefantes.
A questão 283 de O Livro dos Médiuns esclarece que não existem Espíritos de animais errantes no sentido humano, mas confirma a sobrevivência do princípio inteligente, que passa por estados latentes e transitórios sob supervisão espiritual.
Os relatos de manifestações atribuídas a animais são explicados, em regra, pela intervenção de Espíritos humanos que assumem formas e papéis, o que exige discernimento e não credulidade. Kardec jamais negou os fatos, apenas recusou conclusões apressadas.
A Revista Espírita de 1865 demonstra a postura metodológica correta. Observação, suspensão de juízo e recusa de sistemas fechados. Kardec reconhece a afinidade entre certos animais e humanos, admite manifestações passageiras e afirma que a questão ainda não estava madura para síntese definitiva.
A comunicação espiritual de 21 de abril de 1865 introduz o conceito de estados intermediários ou latentes, comparáveis a uma crisálida espiritual, nos quais o princípio inteligente animal se reorganiza para novos ciclos evolutivos. Isso reforça a ideia de presença espiritual transitória, não de inexistência.
As obras posteriores de estudiosos espíritas aprofundam o tema sob a lógica da evolução contínua do princípio inteligente, sempre guiado por inteligências superiores, o que mantém coerência com a base kardeciana quando não se extrapola para afirmações absolutas.
Os relatos literários e mediúnicos que descrevem animais no plano espiritual devem ser lidos como material complementar, nunca como fundamento doutrinário isolado. Eles ilustram possibilidades, não estabelecem dogmas.
A chave interpretativa permanece nas questões 85 e 86 de O Livro dos Espíritos. O mundo espiritual é a realidade primordial e independente. Negar a presença de animais nesse mundo implicaria admitir uma lacuna ontológica incompatível com a lógica espírita da continuidade da vida.
Síntese final
Não é doutrinariamente correto afirmar que não existem animais no mundo espiritual.
Também não é correto atribuir aos animais as mesmas condições espirituais dos Espíritos humanos.
O ensino espírita aponta para sobrevivência, tutela, estados latentes e permanência variável, conforme o grau evolutivo do princípio inteligente.
O tema permanece aberto à investigação séria, sem dogmatismos nem sentimentalismos.
O Espiritismo não pede crença apressada, mas estudo fiel, respeito ao método e humildade diante do que ainda não nos foi plenamente revelado, pois a verdade se constrói com paciência, rigor e fidelidade às bases que nos trouxeram até aqui.
Escritor:Marcelo Caetano Monteiro .
