ENTRE OS NASCIDOS DE MULHER E O LIMIAR... MARCELO CAETANO MONTEIRO
ENTRE OS NASCIDOS DE MULHER E O LIMIAR DO REINO.
“Mateus 11.11”
Autor: Escritor:Marcelo Caetano Monteiro.
A afirmação de Jesus registrada em “Mateus 11.11” costuma ser lida de modo apressado, como se estabelecesse uma hierarquia moral ou uma contradição biológica. Nada disso resiste a uma leitura teológica séria, racional e coerente com o conjunto do Evangelho. Trata-se de uma declaração profundamente simbólica, histórica e espiritual, que marca uma transição decisiva na consciência religiosa da Humanidade.
Quando Jesus declara
“Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista”
Ele não está negando a própria encarnação, nem se excluindo biologicamente da condição humana. A expressão “nascidos de mulher” pertence ao vocabulário semítico tradicional e designa a condição humana submetida à antiga ordem espiritual, isto é, ao regime da Lei, da expectativa profética e da preparação messiânica ainda não consumada.
“Nascidos de mulher”, portanto, não é uma referência anatômica, mas uma categoria espiritual e histórica. Refere-se aos homens situados integralmente no ciclo da promessa, da espera e do anúncio. Dentro desse horizonte, João Batista ocupa o ponto mais elevado. Ele não é apenas mais um profeta. Ele é o profeta final da antiga dispensação. Por isso Jesus afirma que ninguém maior surgiu nesse domínio. João encerra uma era. Ele não inaugura outra.
João é a voz que clama no deserto. Ele prepara o caminho. Ele aponta para aquilo que ainda não se manifestou plenamente. Sua grandeza está justamente nessa fidelidade absoluta à missão preparatória. Ele representa o cume da expectativa humana voltada para Deus.
É nesse contexto que a segunda parte da afirmação ganha sua verdadeira densidade
“mas o menor no reino dos céus é maior do que ele”
Aqui não se trata de mérito moral, virtude pessoal ou superioridade ética. Trata-se de posição espiritual. O menor que já ingressou no Reino vive sob uma condição espiritual diferente. Ele não apenas espera. Ele participa. Ele não apenas anuncia. Ele habita. Ele não apenas aponta para a luz. Ele caminha dentro dela.
João vê o Reino aproximar-se. O discípulo vive o Reino instaurado. João prepara a consciência coletiva. O discípulo experimenta a realidade espiritual inaugurada pelo Cristo. Por isso, mesmo o menor passo dentro da nova ordem supera toda a grandeza construída apenas na expectativa, pois viver a verdade transforma mais profundamente do que apenas anunciá-la.
Jesus, embora tenha nascido de mulher segundo a carne, não Se inclui nessa categoria no sentido espiritual da afirmação. Ele não está falando de origem biológica, mas de posição essencial e missão espiritual. Ele é o limiar entre dois mundos. João anuncia o Reino. Jesus é o Reino manifestado.
Essa distinção torna se ainda mais clara à luz da ótica espírita. Segundo a Codificação, Jesus é um Espírito puro, guia e modelo da Humanidade, conforme exposto em “O Livro dos Espíritos”, questões “625” e “626”, edição “1857”. Sua encarnação não o submete às limitações espirituais comuns ao ciclo evolutivo terrestre. Ele assume a condição humana por missão, não por necessidade evolutiva. Ele entra na história sem pertencer espiritualmente às suas imperfeições estruturais.
João Batista, por sua vez, é identificado pelo próprio Cristo como o Espírito que anteriormente animara Elias, conforme “Mateus 11.14”. Trata-se de um Espírito elevado, mas ainda vinculado ao progresso humano, atuando dentro da dinâmica evolutiva da Terra. Ele é grande entre os homens. Não acima do Reino.
Quando Jesus Se refere a Si mesmo como “Filho do Homem”, Ele reforça essa função de ponte. Ele nasce de mulher para ensinar aos homens. Mas fala a partir de um ponto que não é apenas humano. Por isso pode estabelecer essa distinção sem contradição. Ele participa da história, mas a transcende.
A chave dessa passagem não está na biologia, mas na transição espiritual da Humanidade. João representa o fechamento da profecia. Jesus inaugura a vivência. Um encerra o ciclo da promessa. O outro abre o ciclo da consciência desperta.
Essa transição torna-se ainda mais evidente no prólogo do Evangelho de João. Em “João 1.9 a 16”, Jesus é apresentado como
“a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem”
O texto afirma que Ele veio ao mundo que criou, mas não foi reconhecido por grande parte da Humanidade. Veio para os seus, e os seus não O receberam. Contudo, estabelece um princípio decisivo
“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”
Esse novo nascimento não é físico, nem hereditário, nem cultural. É espiritual. Não decorre da carne, nem da vontade humana, mas de Deus. O Verbo Se faz carne, habita entre os homens, revela Sua glória, cheio de graça e verdade. E de Sua plenitude todos recebem graça sobre graça.
João Batista, inclusive, testemunha essa superioridade espiritual, reconhecendo que Aquele que vem depois é antes dele. Isso confirma que João permanece na função de testemunha e precursor, enquanto Jesus é a fonte viva.
Jesus ensina, portanto, que Seus discípulos tornam-se filhos de Deus por adoção espiritual, não por identidade essencial com Ele. Essa distinção é reafirmada em “Romanos 8.14 a 17”, onde se afirma que os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus, pois receberam o Espírito de adoção, pelo qual clamam
“Aba, Pai”
Em “Gálatas 4.5 a 6”, essa adoção é apresentada como libertação e filiação consciente. E em “Gálatas 3.26” lê-se que
“todos sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus”
Jesus é o Filho Unigênito. Os discípulos tornam-se filhos pela fé, pela comunhão e pela transformação interior. Essa filiação manifesta-se na condução pelo Espírito, na maturidade moral e na disposição de participar do sofrimento e da glória espiritual, conforme “Romanos 8.17”.
Essa relação filial também se expressa no amor vivido entre os discípulos. Em “João 13.35”, Jesus afirma:
“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”
O amor não é apenas um mandamento ético. É o sinal espiritual da nova ordem. Ele identifica quem já vive no Reino. Ele revela quem ultrapassou o estágio da mera expectativa e entrou na experiência viva da verdade.
Assim, a afirmação de “Mateus 11.11” não diminui João Batista. Pelo contrário. Ela o consagra como o maior dentro da antiga ordem. Mas afirma, com igual clareza, que a vida no Reino inaugurado pelo Cristo representa um salto qualitativo na consciência humana. Não se trata de exaltar pessoas, mas de revelar estados espirituais.
João aponta o caminho. Jesus é o caminho. O discípulo que ama, vive e se transforma já não espera apenas. Ele caminha. E esse passo, por menor que pareça, supera toda a grandeza construída apenas na espera, porque a verdade, quando vivida, deixa de ser promessa e torna se realidade.
