Marguerite Porete - VERDADE QUE QUEIMA.... MARCELO CAETANO MONTEIRO
Marguerite Porete - VERDADE QUE QUEIMA.
VERDADE QUE QUEIMA.
A história de Marguerite Porete toda é verídica, documentada, estudada e hoje plenamente reconhecida pela historiografia medieval, pela teologia histórica e pela filosofia da mística. Não se trata de lenda, alegoria tardia ou romantização moderna. Trata se de um acontecimento real, sustentado por registros inquisitoriais, crônicas contemporâneas, manuscritos preservados e estudos críticos realizados ao longo do século XX.
Marguerite Porete viveu no final do século XIII e início do XIV. Era natural do Condado de Hainaut, território que corresponde atualmente à Bélgica. Pertencia ao movimento das beguinas, comunidades femininas leigas que buscavam uma vida espiritual intensa sem professar votos monásticos perpétuos. Esse dado é confirmado por registros eclesiásticos e análises históricas sobre o movimento beguinal na Europa medieval, amplamente estudado pela historiografia religiosa.
A condição de beguina já colocava Marguerite em posição liminar. As beguinas não estavam sob controle direto de ordens religiosas nem submetidas à clausura. Trabalhavam, estudavam, cuidavam dos pobres e dedicavam se à vida espiritual. Essa autonomia feminina era vista com desconfiança crescente pela hierarquia eclesiástica, sobretudo em um período de forte centralização do poder doutrinal.
Entre o final do século XIII e o início do XIV, Marguerite escreveu “O Espelho das Almas Simples”. A autoria é hoje incontestável, estabelecida de forma definitiva em 1946 por meio da pesquisa paleográfica e histórica de Romana Guarnieri, que identificou manuscritos latinos anônimos como traduções diretas da obra francesa original. Essa identificação é aceita consensualmente pela comunidade acadêmica.
O conteúdo do livro é místico, alegórico e profundamente filosófico. Estruturado como diálogo entre Amor, Razão e Alma, descreve sete estágios de aniquilação do eu até a união plena com Deus. Essa linguagem dialogal e simbólica não era incomum na mística medieval. O que tornou a obra perigosa foi a radicalidade de suas conclusões.
Marguerite afirma que a alma, ao alcançar a união total com Deus pelo amor, transcende a necessidade de práticas exteriores, mediações institucionais e códigos morais impostos de fora. Essa ideia é claramente expressa em diversas passagens do livro e foi precisamente esse ponto que os teólogos da Universidade de Paris consideraram herético. Os registros do processo indicam que quinze proposições foram formalmente condenadas.
Entre elas, a mais grave afirmava que a alma aniquilada no amor divino não peca, não por licença moral, mas porque já não age a partir do desejo desordenado. Para a teologia institucional da época, isso representava uma ameaça direta à disciplina sacramental e à autoridade da Igreja sobre a consciência individual. Essa acusação está documentada nos autos inquisitoriais preservados.
Outro dado historicamente comprovado é a escolha deliberada de Marguerite por escrever em francês antigo, a língua do povo, e não em latim. Essa decisão ampliou enormemente o alcance do texto e rompeu o monopólio clerical do saber teológico. Historiadores da linguagem religiosa medieval apontam esse fator como decisivo para a severidade da reação institucional.
Entre 1296 e 1306, o bispo de Cambrai condenou o livro, ordenou sua destruição pública e proibiu Marguerite de voltar a divulgá lo. Essa condenação está registrada em documentos episcopais. Marguerite desobedeceu conscientemente. Continuou a difundir a obra, convicta de que sua verdade não dependia de autorização humana.
Em 1308, foi presa e entregue à Inquisição em Paris, sob a autoridade de Guilherme de Paris, confessor do rei Filipe IV. Esse inquisidor é figura histórica bem documentada e atuou no mesmo período da perseguição aos Cavaleiros Templários, o que demonstra o clima de repressão doutrinária e política vigente.
Marguerite permaneceu presa cerca de dezoito meses. Durante todo o processo, manteve silêncio absoluto. Esse silêncio não foi interpretado como ignorância, mas como recusa deliberada em submeter sua consciência a um tribunal que ela não reconhecia espiritualmente. Esse dado consta explicitamente nos registros do julgamento.
Em 31 de maio de 1310, foi declarada herege reincidente. Em 01 de junho de 1310, foi queimada viva na Place de Grève, em Paris. A execução pública é confirmada por crônicas da época e registros civis. O termo “pseudo mulier” aparece nos documentos inquisitoriais, revelando não apenas condenação teológica, mas desprezo misógino pela autonomia espiritual feminina.
Há relatos contemporâneos que indicam que a serenidade de Marguerite durante a execução causou inquietação na multidão. Embora a historiografia moderna trate esses relatos com cautela, é consenso que sua morte não produziu o efeito intimidatório esperado. Ao contrário, reforçou o caráter simbólico de sua resistência.
A Igreja ordenou a destruição de todas as cópias do livro. Essa ordem também é documentada. No entanto, a obra sobreviveu. Circulou anonimamente, foi traduzida para o latim, o italiano e o inglês médio, e influenciou a tradição mística posterior. Durante séculos, foi lida sem o nome da autora, muitas vezes atribuída a clérigos para evitar suspeitas.
O valor da obra de Marguerite Porete para os tempos atuais é profundo e inquietante. Ela levanta questões que permanecem abertas. A relação entre consciência individual e autoridade institucional. A diferença entre espiritualidade viva e religião burocratizada. O perigo do controle absoluto sobre o pensamento. A criminalização da experiência interior quando ela escapa às estruturas de poder.
Em um mundo ainda marcado por tentativas de normatizar a consciência, silenciar dissidências e transformar a fé em instrumento de controle social, Marguerite permanece atual. Sua obra recorda que toda instituição que teme a experiência direta da verdade acaba por se tornar adversária do próprio espírito que afirma defender.
A história de Marguerite Porete não é apenas um episódio medieval. É um espelho permanente. Revela o preço da liberdade interior, o risco de pensar por conta própria e o valor de uma fidelidade que não negocia sua essência, mesmo diante do fogo.
Ela foi levada à fogueira no coração de Paris.
Não por matar.
Não por conspirar.
Mas por escrever um livro.
Em 1310, uma mulher chamada Marguerite Porete caminhou até a estaca na Place de Grève enquanto uma multidão observava. Diante dela, o fogo. Atrás, a Igreja. À sua volta, o medo. Mesmo assim, ela não recuou. Recusou-se a retirar uma única palavra daquilo que havia escrito. E por isso foi queimada viva como herege.
Marguerite vinha do Condado de Hainaut, região que hoje pertence à Bélgica. Pouco se sabe sobre sua juventude, mas sabe-se que ela escolheu um caminho incomum para uma mulher medieval: juntou-se às Beguinas, mulheres que buscavam uma vida espiritual profunda sem se submeter aos votos rígidos dos conventos. Elas trabalhavam, ajudavam os pobres, rezavam juntas, e viviam com uma independência que incomodava a hierarquia da Igreja.
Marguerite foi além do aceitável.
No final do século XIII, ela escreveu “O Espelho das Almas Simples”, um livro místico estruturado como um diálogo entre Amor, Razão e Alma. Ali, descreveu sete estágios de transformação espiritual. No centro da obra, uma ideia considerada explosiva: a de que a alma poderia unir-se tão completamente a Deus que já não dependeria de rituais, regras ou intermediários para viver essa união.
Para Marguerite, quando a alma se entrega totalmente a Deus, ela se liberta.
“O amor é Deus, e Deus é amor”, escreveu.
O gesto mais perigoso veio a seguir: ela escreveu em francês antigo, não em latim. Escreveu para que pessoas comuns entendessem. Suas ideias escaparam dos mosteiros, cruzaram mercados, chegaram às mãos erradas, mãos que pensavam por conta própria.
Entre 1296 e 1306, o bispo de Cambrai declarou seu livro herético e ordenou que fosse queimado em praça pública. Mandou também que Marguerite se calasse para sempre.
Ela se recusou.
Convencida de que sua obra carregava uma verdade divina, Marguerite continuou a divulgá-la. Insistiu que a ligação da alma com Deus não pertencia a nenhuma instituição terrena. Em 1308, foi presa e entregue ao inquisidor francês Guilherme de Paris, confessor do rei Filipe IV, o mesmo rei que, naquele período, esmagava os Cavaleiros Templários.
Marguerite passou dezoito meses presa. Durante todo esse tempo, manteve um silêncio absoluto. Não jurou obediência. Não respondeu perguntas. Não se defendeu. Seu silêncio não era submissão, era resistência.
Uma comissão de 21 teólogos da Universidade de Paris examinou seu livro e selecionou quinze passagens consideradas heréticas. A mais alarmante afirmava que uma alma totalmente unida a Deus já não poderia pecar, pois havia ultrapassado o domínio do desejo e da culpa. Para a Igreja, isso ameaçava a ordem moral. Para Marguerite, era a consequência última do amor absoluto.
Deram-lhe inúmeras oportunidades de se retratar. Outros cederam e viveram. Um homem preso com ela, Guiard de Cressonessart, primeiro tentou defendê-la, depois se retratou — e foi condenado à prisão perpétua.
Marguerite não se curvou.
Em 31 de maio de 1310, ela foi oficialmente declarada herege reincidente. No dia seguinte, foi levada à praça de execuções. O inquisidor chamou-a de “pseudo mulier” — uma “mulher falsa”, como se nenhuma mulher verdadeira pudesse desafiar a Igreja daquela forma.
Então, atearam fogo.
Mas algo inesperado aconteceu. Uma crônica da época relata que a multidão ficou perturbada — não pela violência, mas pela serenidade de Marguerite. Ela não gritou. Não implorou. Não demonstrou pânico. Parecia, aos olhos de quem assistia, já estar além das chamas que consumiam seu corpo.
A Igreja ordenou que todas as cópias do livro fossem destruídas. Quis apagar suas palavras junto com sua vida.
Falhou.
“O Espelho das Almas Simples” sobreviveu. Circulou clandestinamente por séculos, foi traduzido para latim, italiano e inglês médio. Foi lido sem o nome da autora. Atribuído a outros. O texto era forte demais para desaparecer, mesmo quando o nome foi silenciado.
Somente em 1946, mais de seiscentos anos depois, a pesquisadora Romana Guarnieri identificou, na Biblioteca do Vaticano, a verdadeira autoria da obra. Marguerite Porete teve seu nome devolvido à história.
Hoje, ela é reconhecida como uma das maiores místicas da Idade Média, frequentemente comparada a Meister Eckhart. Suas ideias ainda provocam debates. Sua coragem ainda incomoda.
Ela foi queimada por escrever sobre um amor maior que o medo.
Sobre uma fé que não aceita correntes.
Sobre uma liberdade que nem o fogo conseguiu consumir.
Marguerite permaneceu em silêncio até o fim.
Mas seu livro fala há mais de sete séculos.
E ainda fala.
Queimar um corpo não foi suficiente para calar uma verdade. Sete séculos depois, sua voz ainda atravessa o tempo, lembrando que toda fé que teme o amor absoluto já perdeu o direito de se chamar sagrada.
