A FELICIDADE E A DOR ANTE A INDIFERENÇA... MARCELO CAETANO MONTEIRO
A FELICIDADE E A DOR ANTE A INDIFERENÇA SOCIAL.
A indiferença social é uma das formas mais silenciosas de violência moral. Ela não grita, não fere com lâminas visíveis, mas corrói lentamente a percepção de pertencimento e dignidade. Diante dela, a felicidade parece um escândalo e a dor, um incômodo que ninguém deseja ouvir. O que fazer, então, quando o mundo se mostra frio, apático e distraído diante da existência alheia?
Primeiro, é necessário compreender que a indiferença não é, na maioria das vezes, um juízo consciente sobre o valor do outro, mas o sintoma de uma sociedade exausta, utilitária e progressivamente dessensibilizada. O homem moderno foi educado para produzir, consumir e competir, não para contemplar, escutar ou cuidar. Assim, a dor alheia torna-se ruído, e a felicidade do outro, irrelevante.
Diante disso, a felicidade não deve ser buscada como aprovação social, mas como coerência interior. Quando se tenta ser feliz para ser visto, a indiferença fere como rejeição. Quando se é feliz por fidelidade à própria consciência, a indiferença perde parte de seu poder corrosivo. A felicidade, nesse sentido, é um ato silencioso de resistência ética. Ela não depende do aplauso, mas da retidão do sentir e do agir.
Quanto à dor, negá-la ou silenciá-la para não incomodar é adoecer a alma. A dor precisa ser reconhecida, elaborada e dignificada. Quando a sociedade se mostra indiferente, cabe ao indivíduo buscar comunidades menores, vínculos reais, espaços de escuta e profundidade. A história humana sempre avançou assim. Grandes transformações nasceram em círculos pequenos, discretos e perseverantes, jamais na massa indiferente. Eis exemplos históricos claros e verificáveis que sustentam a afirmação apresentada. Em todos eles observa-se que a transformação nasce em núcleos restritos, coesos e perseverantes, jamais na multidão indiferente.
O cristianismo primitivo.
Nos séculos 1 e 2 o cristianismo desenvolveu-se em pequenas comunidades domésticas, reunidas em casas e catacumbas, longe da aceitação social e sob constante perseguição do Império Romano. Não foi a massa que sustentou sua expansão, mas círculos reduzidos, unidos por vínculos reais, escuta mútua e compromisso ético profundo. Esses grupos preservaram textos, práticas e valores que mais tarde moldariam a civilização ocidental. Fonte. Atos dos Apóstolos capítulos 2 e 4. História Eclesiástica livro 2.
As academias filosóficas da Grécia Antiga.
A filosofia que estruturou o pensamento ocidental não surgiu em assembleias populares, mas em círculos diminutos de discípulos reunidos em torno de mestres. A Academia e o Liceu eram espaços de convivência intelectual contínua, diálogo rigoroso e formação moral. A sociedade ateniense em geral mostrava-se indiferente ou hostil a tais reflexões. Ainda assim esses pequenos núcleos definiram os fundamentos da ética, da lógica e da metafísica. Fonte. República livro 7. Metafísica livro 1.
O movimento abolicionista.
A abolição da escravidão não nasceu de um consenso social amplo. Durante décadas foi sustentada por grupos minoritários, associações discretas, salões privados e jornais de circulação restrita. Eram espaços de escuta e elaboração moral em uma sociedade majoritariamente acomodada. A perseverança desses núcleos conduziu a mudanças jurídicas e culturais profundas. Fonte. História da Abolição da Escravatura no Brasil capítulos 3 e 5. Discursos parlamentares do século 19.
Os círculos espíritas iniciais.
A Doutrina Espírita organizou-se a partir de pequenos grupos de estudo e observação, reunidos com método, disciplina e constância. Não buscavam adesão de massas, mas compreensão profunda e coerência moral. Esses grupos sustentaram a codificação doutrinária e sua expansão ética e filosófica. Fonte. O Livro dos Médiuns introdução. Revista Espírita anos 1858 a 1869.
Conclusão fundamentada.
A história confirma que quando a sociedade se mostra indiferente, a preservação do sentido, da ética e da transformação cabe ao indivíduo que busca comunidades menores e vínculos autênticos. É nesses espaços silenciosos e perseverantes que o humano se refaz, prepara o futuro e mantém viva a chama da consciência quando a multidão prefere o conforto da apatia.
Há ainda uma tarefa mais elevada, embora mais árdua. Transformar a própria dor em compreensão. Não em ressentimento, mas em lucidez. Aquele que sofreu a indiferença e não se tornou indiferente já venceu moralmente o mundo. Ele passa a olhar o outro com misericórdia intelectual e ética, pois compreende o quanto a ausência de sensibilidade empobrece o espírito.
Por fim, o que fazer é não permitir que a indiferença social determine a forma de existir. Nem a felicidade deve ser exibida para ser validada, nem a dor deve ser escondida para ser tolerada. Vive-se com sobriedade interior, firmeza moral e fidelidade àquilo que, mesmo ignorado pelo mundo, permanece verdadeiro e digno, pois é assim que o ser humano atravessa o deserto da indiferença sem perder a própria alma.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .
