Vivir sin Tutela: William Contraponto e... Neno Marques
Vivir sin Tutela: William Contraponto e a lucidez como gesto de desobediência
Por Neno M Marques
Em Vivir sin Tutela, e-book com adaptações da obra e originais em espanhol, William Contraponto não oferece conforto, oferece fricção. A escolha da língua não é apenas instrumental, mas simbólica: inscreve a obra numa tradição de pensamento crítico latino e ibérico, marcada pela recusa do conformismo e pela tensão constante entre sujeito e poder. O livro se constrói como um território de perguntas que rejeitam tutela — não apenas política ou religiosa, mas também emocional, moral e simbólica.
A poesia de Contraponto caminha na fronteira entre o lírico e o filosófico, mas sem cair na tentação da abstração estéril. O que há é um corpo em atrito com estruturas: discursos de poder, narrativas de salvação, promessas de pertencimento. Cada poema funciona como um pequeno ato de deserção, um passo fora da fila, uma recusa em delegar o próprio juízo a instâncias superiores — sejam elas divinas, ideológicas ou mercadológicas.
O título do e-book não é metafórico: viver sem tutela, aqui, é um programa ético. Não no sentido heroico ou grandioso, mas como prática cotidiana de desconfiança ativa. Contraponto escreve como quem desmonta vitrines: revela os mecanismos de sedução, os pactos silenciosos, as formas sutis de controle que se disfarçam de cuidado, tradição ou destino. Sua crítica é seca, direta, sem ornamentos redentores.
Há também, ao longo da obra, uma recusa clara da esperança fácil. Em vez disso, emerge uma lucidez áspera, quase incômoda, que não promete saída, mas exige presença. O sujeito poético não busca transcendência, busca responsabilidade. Não pede absolvição, pede coerência. E isso confere à obra uma força rara: a de não negociar com ilusões necessárias ao consumo rápido de mensagens positivas.
Do ponto de vista formal, a linguagem é econômica, cortante, construída em versos que parecem mais próximos de sentenças do que de confissões. É uma poesia que não se derrama; ela delimita, confronta, aponta. Essa contenção estilística reforça o caráter político da escrita: não há espetáculo, há posicionamento. Não há catarse, há consciência em vigília.
Vivir sin Tutela é, portanto, menos um convite ao leitor e mais um desafio — especialmente para quem lê em espanhol e reconhece nessa língua uma história de dissidência, exílio e pensamento insurgente. Um desafio a abandonar muletas simbólicas, a encarar o desconforto de existir sem garantias externas, a sustentar o próprio pensamento diante de um mundo que prefere sujeitos dóceis e reconciliados. William Contraponto escreve para inquietar — e nisso reside o valor mais profundo deste e-book: não oferecer respostas, mas retirar anestesias.
Numa época em que a literatura muitas vezes se curva à autopromoção emocional e à estética da superação, Vivir sin Tutela escolhe outro caminho: o da crítica sem concessões, da poesia como forma de resistência cognitiva. E isso, hoje, é mais do que uma escolha estética — é um gesto político.
