William Contraponto: poesia como... Gabidi

William Contraponto: poesia como pensamento sem anestesia


Há autores que escrevem versos. Outros escrevem ideias. William Contraponto escreve pensamento em estado de verso e é justamente aí que sua obra se afirma como a de um poeta-filósofo, figura cada vez mais rara num cenário literário que prefere o efeito ao enfrentamento.


Desde Com Todas as Letras, e-book que, embora menos seco e denso por flertar com a musicalidade, funciona quase como um manifesto poético, Contraponto deixa claro seu projeto: não há palavra neutra, não há verso inocente.


Essa postura se aprofunda na Trilogia Existencial, composta por três volumes que orbitam a mesma pergunta fundamental: o que significa existir quando já não se aceita nenhuma tutela transcendental? Aqui, o sujeito poético aparece lançado no mundo sem garantias, sem redenção metafísica e sem atalhos morais. A existência é concreta, histórica, social e, sobretudo, intransferível. Não há salvação fora da consciência.


Em Lucidez Sem Atalho, o título já antecipa a ética da obra. Pensar exige atravessar o desconforto. Não há iluminação súbita, nem revelação suave. A lucidez, em Contraponto, é um processo árduo, quase um desgaste. A linguagem acompanha essa exigência: seca, contida, essencial. Cada verso parece perguntar ao leitor se ele está disposto a seguir adiante sem muletas simbólicas.


Já em Regimes do Real, o poeta desloca o foco para os mecanismos que moldam a percepção do mundo. O real não é apresentado como algo dado, mas como algo administrado — por discursos, sistemas, ideologias e consensos artificiais. A poesia, então, atua como gesto de desmontagem: não explica o mundo, mas revela suas engrenagens.


Existir Sobre o Solo aprofunda o vínculo entre existência e materialidade. Não se trata de um existencialismo abstrato, mas situado: corpo, chão, limite, história. O humano aparece como ser finito, socialmente atravessado e eticamente responsável. Não há transcendência que absolva, nem narrativa que suavize a condição de estar aqui.


Nos e-books Breves Considerações Reflexivas (de breves ensaios) e Consciência do Desamparo, a escrita se aproxima ainda mais do ensaio filosófico, sem abandonar o pulso poético. São textos que lidam diretamente com o vazio, a ausência de garantias e a necessidade de construir sentido mesmo quando ele não se oferece espontaneamente. O desamparo não é tratado como fraqueza, mas como ponto de partida para uma consciência mais honesta.


Em toda a obra, a descrença não surge como bandeira, mas como estrutura silenciosa. Não há ataque panfletário ao sagrado. Há, sim, sua dissolução crítica. O centro é sempre a responsabilidade humana, a consciência e o enfrentamento do real tal como ele se apresenta, sem promessas de além.


William Contraponto escreve para leitores que aceitam o risco de pensar. Sua literatura não consola, não orienta e não absolve. Ela expõe. E talvez seja justamente por isso que sua obra importa: num tempo que transforma a palavra em mercadoria emocional, Contraponto insiste na poesia como ato de lucidez.


Ler seus textos, na forma de poema, ensaio ou onde ambos parecem se fundir, não é buscar abrigo.
É aceitar o espelho e sustentar o olhar.




Neno Machado Marques
nenommarques@gmail.com