A ALQUIMIA DA ELEGÂNCIA E O DESTINO DE... MARCELO CAETANO MONTEIRO
A ALQUIMIA DA ELEGÂNCIA E O DESTINO DE COCO CHANEL.
Em 10 de janeiro de 1971 extinguiu-se a presença terrena de Gabrielle Bonheur Chanel. Contudo a sua ausência jamais se consumou na história. O que se encerrou foi apenas o corpo. O espírito criador permaneceu inscrito na cultura estética do Ocidente como uma força civilizatória silenciosa e persistente.
A vida de Chanel não foi ornada por privilégios. Nascida na precariedade em Saumur, 19 de agosto de 1883, ficou órfã ainda jovem. Educada em um convento onde o rigor. A sobriedade e o silêncio moldaram seu olhar. Foi ali que se estabeleceu o núcleo de sua mística. A geometria austera. O preto disciplinado. A recusa do supérfluo. Tudo aquilo que mais tarde seria interpretado como luxo nasceu da escassez. Eis o primeiro paradoxo de sua grandeza.
Sua obra não pode ser compreendida apenas como moda. Chanel reformulou a ideologia do vestir. Ao libertar o corpo feminino de estruturas opressivas masculinas de então, ela realizou um gesto moral. O vestuário deixou de ser cárcere simbólico e converteu-se em extensão da autonomia. Tecidos maleáveis. Linhas simples. Silhuetas que respeitavam o movimento. Cada criação era uma afirmação ética disfarçada de elegância.
A maison que fundou tornou-se um templo laico da sofisticação. O pretinho básico não foi apenas uma peça. Foi uma declaração filosófica sobre a dignidade da simplicidade. O perfume Chanel Nº 5 inaugurou uma nova concepção do invisível. Um aroma abstrato. Não floral no sentido óbvio. Mas simbólico. Uma identidade sensorial que dispensava ornamentos narrativos. Era essência pura. Tal como sua criadora.
Em torno de Chanel construiu-se uma lenda. Frases lapidares atravessaram décadas como aforismos modernos. " A elegância começa quando se decide quem se é. " "A simplicidade é a nota fundamental de toda verdadeira distinção. " " A moda passa. O estilo permanece. "
Tais sentenças não eram slogans. Eram sínteses existenciais. Cada uma refletia a consciência de alguém que compreendeu o tempo sem submeter-se a ele.
Sua trajetória também foi atravessada pela tragédia. Amores interrompidos. Perdas afetivas profundas. Solidão nos anos finais. Acusações. Silêncios históricos que ainda hoje suscitam debates. Contudo Chanel jamais permitiu que a dor a definisse. Transformou a adversidade em disciplina. O luto em estética. A queda em rigor criativo. Superou a tragédia não pela negação do sofrimento. Mas pela transmutação dele em forma.
A mística de Coco Chanel reside exatamente aí. Na capacidade de converter a vida crua em linguagem refinada. De fazer do passado ferido uma arquitetura de beleza contida. Sua existência ensina que a verdadeira elegância não é ornamento. É caráter depurado pelo tempo. E assim permanece sua lição maior.
Homenagem de:
Marcelo Caetano Monteiro.
" Aquilo que nasce da verdade interior jamais se curva à efemeridade. "
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