⁠Vidas aleatórias Hoje era pra ser um... Wil Cowen

⁠Vidas aleatórias
Hoje era pra ser um dia comum, como os outros.
Eu reclamando da colheita, de porque minha vida tinha tomado o rumo que tomou, mesmo sabendo que foi por causa das minhas escolhas, (escolhas erradas), que cheguei ao ponto que estou.
Nossa vida não pode ser como o fio de Ariadne, que você pode escolher inúmeras possibilidades de erros e acertos, cada escolha vem com sua consequência de brinde, ou como dizia o finado chorão “cada escolha é uma renuncia, essa é a vida”.
Enfim, estava eu com minhas queixas diárias, e meus questionamentos, dos porquês, mas isso fica mais interessante quando se tem TDAH, o foco muda a cada instante. Entrou uma cliente, que já tinha vindo antes sondar preços, mas não botei fé que voltaria, eles nunca voltam, mas essa voltou, disse que iria fazer os procedimentos. Subimos para a sala, comecei a preparar meus equipamentos, como de costume, seria um procedimento bem simples.
Notei algumas cicatrizes em seu ombro, e eu indiscreto como sempre fui, perguntar: E essas marcas ai? Foi moto? Algum cachorro que te mordeu? Desculpe a invasão! Ela disse que não tinha problema, disse que tinha sofrido um acidente de transito. Puxa, que bom que você sobreviveu né? Eu falei dos males o menor. Ela sorriu e disse, pois é. Disse que ficou algum tempo de cadeira de rodas, pois alguns estilhaços tinham entrado em seu abdômen, mas ela dizia que ela estava naquela condição, mas não queria estar, então ela sairia o quanto antes possível.
Já achei super fóda essa força de vontade, outras pessoas se vitimizariam. Ela disse, eu lutei bastante, tive algumas alucinações, por dias, achei que estava sonhando, ou melhor, tendo um pesadelo, mas era por conta da morfina, que era ministrada diariamente, em seu corpo, por conta das dores. Eu como sempre, chato, perguntei alguém se feriu gravemente? Foi então que ela disse, Sim, minha mãe, meu irmão e minha tia, morreram no acidente, junto com o motorista do outro veiculo, que causou todo o dano e veio a morrer logo em seguida.
Só que o que mais me surpreendeu não foi o fato de uma desconhecida estar me falando da vida dela, da morte de seus entes queridos, e sim as criticas que ela recebeu de parentes e amigos, porque ela estava sofrendo pouco. As pessoas estão sempre com seus dedinhos, preparados pra apontar, não se deram conta que ela tinha sobrevivido, esse era o milagre, o que foi perdido não tem como ser recuperado, tem que cuidar do que ficou. Ela disse que sente falta às vezes, mas as coisas acontecem porque tem que acontecer, e ela ficou viva, porque era assim que tinha que ser. Ela ficou grata por ter sobrevivido, com alguns arranhões, fraturas, e cicatrizes, mas nem por isso ela se martirizava se culpava ou se perguntava, Porque eu? Porque comigo? Será que eu merecia? Eu joguei pedras na cruz? (Como eu sempre digo, quando minha vida esta uma merda). Ela simplesmente disse “pelo menos eu sobrevivi.”.
Ai foi ai que me veio aquela voz interior, lá do fundo, que me disse bem alto, assim na lata...
“VOCÊ RECLAMAVA DE QUE MESMO”? ’’
Cada pessoa lida com a dor, da forma que lhe convém, sofrer pouco ou sofrer muito não te faz nem mais humano, nem menos humano. Você escolhe o tanto que quer sofrer, o tanto que vai se culpar, o tempo que isso vai durar.
Como diz minha amiga Dani “Sofra apenas o necessário”.
Hoje eu parei de reclamar.