Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira: Sertranila Sou mãos cravadas na terra...

Sertranila

Sou mãos cravadas na terra
Na imundice do esforço
Que faço para levantar meu torço
Nestas almofadas onde pareço um morto
Que pergunta concelhos ao coveiro
Concelhos que o coveiro não me quer dar
Diz - "Pergunta ao travesseiro"
Alguém me anda a enganar
No mundo do escuro em que agora
Me deito... vou descansar
Na imaginação sonho com conspirações
Na forma menos colorida que há
Das lições que eu vou lá tirar
Nas minhas mãos calos de vida
Do martelo... do martelo faço ferida
Marteladas estalas no ferro
Centelhas de luz saltam por todo lado
Onde me deslumbro e iludo
Cego sigo a minha intuição iludido
O meu universo sem fundo
Sem princípio nem fim
Cheio de estrelas e mais centelhas
Pequenos corpúsculos voam à volta de mim
Sentimentos de vergonha me atormentam
Sou como um potro doido
Que cavalga a trote e a galope
Um nobre mustang
Que não sabe que está a sonhar
Um garanhão a cavalgar pela pradaria
Com o meu harém de éguas selvagens
Procuro matar a sede sem desdém
Na terra prometida encontro água
E lá percebo que sou só mais um filho da mãe
Tal é a paulada que me pôs a dormir...
A viver no mundo dos sonhos
Onde agora pereço sucumbir
Num sonho profundo, imundo
Sinto uma presença que se aproxima
Algo a mexer faz meu corpo balouçar
Sinto mais medos e terrores
Que parecem estar quase a acabar
Meu lábios molhados...
Alguém me está a beijar?
A tentar-me acordar de volta para o mundo?
E então percebo que nunca estive a dormir
Foi a minha consciência que me quis iludir
Quis fundir a minha imaginação
Com uma tentação
Que me ia fazendo de vez partir
De querer viver este engano
Que é afogar mágoas a este menino
Em taças de vinho,
Limpar lágrimas a fraldas de pano
Sem seque ter alguém para me acompanhar
Nem uma menina com quem o vinho possa partilhar
A minha sorte é ainda ter... Sertranila
Em forma de azevedos, da qual eu não li a bula
E deste sonhar... eu não tenho mais medo!

No reino encantado dos sentimentos subjectivos e das funções cognitivas.
Pois é tudo uma questão de interpretação desses mesmo reinos e sonhos.

Inserida por ruialexoli