Rui Alexandre Cascão de Campos Oliveira: Amarga Solidão Estar sozinho é estar...

Amarga Solidão

Estar sozinho é estar sem dó,
É tentação,
É obrigação obrigada pela imposição.
É ser tudo ou nada,
É um destino concertino daquele primeiro violino,
É rir do que não tem garça,
É aplaudir à desgraça,
Sentar no banco da praça,
Onde ninguém vê mais além
Que aquilo que tem ou nem tem,
Sem sequer dar um ar de graça.

É respirar fundo noutro mundo
Que afinal não passa de enxoval
Do quarto em que durmo.
É ser irmã carmelita
No convento em dia de advento.
É mulher que chorou lágrimas de sal,
Pelo pescador que mais amou e um dia não voltou.
É a batida do portão, à hora da recolha,
Daquele a quem dói estar na prisão.

É dar um grito pelo ouvido à multidão
Que nem te vê,
Só desvia do morto vivo...
Solidão...
São estas cinco paredes mortas
Onde eu descanso o meu imaginar,
Deste quarto em que o chão
Me parece flutuar.
Solidão é perder o juízo,
É estar nobre sozinho,
Neste trilho sem caminho.

É só livros ter para desfolhar,
Teclado para poder teclar,
Sem ninguém...
Na verdade, teus olhos poder olhar...
Solidão é este pedaço de mim.
É cura, é remédio sagrado,
É consternação, é ficar obcecado
Só com uma única canção,
É sentir de mim morto o alento,
De onde um dia provi sustento...

É estar preso nesta hora...
Neste minuto...
Nesta vontade tamanha de tentar ser astuto,
Sabendo que sou afinal apenas mais um bruto.
É tudo o que te posse dizer
Sobre este nobre estar sozinho,
Entre mim e por vezes,
O meu copo de vinho,
Que incomoda a mim
E o mau acordar do vizinho.

É este nobre estar sozinho,
Sem certeza se na verdade tenho culpa...
Estar sozinho é atracar-me de pensamentos,
É escrevê-los todos num papel
E soltá-los aos ventos.
É Um ter...
Um ter que pedir desculpa!
Assumindo esta tão minha grande culpa!...

É noctívaga esta solidão!

Inserida por ruialexoli