Fiz de Mim o que Nao Soube
Meu querido,
Essa é a última carta que lhe escreverei. Eu sei que já falei isso antes, mas não era verdade. Não era verdade pois eu estava desesperadamente tentando dar um ponto final em você no meu coração, mas meu coração ainda não estava pronto para isso, porque na ocasião tocava 'Pérola negra"', do Luiz Melodia e eu sussurrava "'Baby te amo, nem sei se te amo"', com o coração e a alma confusos, pesados, machucados, e milhões de músicas me lembravam você. E agora nenhuma música me lembra você, e se toca alguma e eu ocasionalmente lembro, não é com raiva ou tristeza, nem com uma saudade insana, mas com alegria, pois foi bom enquanto durou. Porque foi, não vou ser hipócrita a ponto de dizer que não foi bom. Nosso amor foi como uma chuva de verão, algo doce e maravilhoso, mas que acabou rápido demais. E eu te odiei por terminar com tudo cedo demais, sem motivo e de forma imatura, como se brincar de amar fosse um passatempo para você. Há muito tempo sua irmã disse que o que você fez não foi por maldade, mas por confusão e imaturidade, e eu entendo. Agora eu entendo. Todos nós cometemos erros, o ser humano é falho e cheio de emoções, confusões, pensamentos, qualidades e defeitos, e acho que essa é a beleza de nossa espécie.
Desculpe pelo meu ódio, por eu ter me fechado em um casulo de frieza e indiferença perante o mundo e ter te culpado por isso. Desculpe por não ter vivido nosso amor intensamente, e sim medida por medida, economizando o amor para quando acabasse, porque eu sabia que acabaria logo, e acabou. Desculpe por ter te tratado mal quando veio atrás de mim após partir meu coração, é que eu estava envenenada pelo ódio. E eu te perdoo também...Te perdoo pela sua impulsividade sem limites, por me roubar e depois ir embora furtivamente, como um ladrão. Te perdoo pelas vezes que me enganou e me tratou mal, fez eu me sentir a mais insignificante e desprezível criatura, com seu julgamento sobre potente e suas palavras ácidas. Te perdoo por me enganar, e por todas as coisas que você fez de errado e eu nem lembro mais...
Como eu disse, as pessoas cometem erros e sempre vão cometer, por isso não devem fazer tempestade em copo de água como se fosse o fim do mundo. Mas no amor tudo é tempestade em copo de água, com sentimentos intensos e amores infinitos enquanto duram. E eu quero um amor infinito enquanto dure à lá Vinícius de Moraes, com a doçura de uma flor e a intensidade de uma chama. E eu sei que eu vou achar. Uma hora alguém vai aparecer e transformar todo o meu mundo.
E eu te desejo grandes realizações, beijos longos, viagens incríveis e amores que durem mais de uma estacão, pois me perdoem os poetas, mas bons são os amores perenes, assim como os rios. Eles não têm tanta emoção quanto os efêmeros, ou reviravoltas, loopings e agitações, mas eles duram. E talvez durar seja a solução, talvez durar seja a coisa mais linda do mundo em um amor. Eu vejo meus avós, por exemplo, com quase 50 anos de casados e ainda tão meigos e apaixonados. Então é isso, eu lhe desejo um amor que dure, e eu vou achar, vou achar alguém que seja...extraordinário. Obrigada pela aventura e adeus uma vez mais.
Eu admito que não sou fácil de lidar mas acho que o que é belo deve ser saboreado aos pouquinhos, como um capuccino ou um pedaço de bolo: pouco a pouco, mordida por mordida, saboreando a doçura de cada momento. Não é como um sorvete em um dia de calor quando você nem sente o gosto e o devora rapidamente antes que derreta. O amor não é um sorvete, ele é um bolo, é a habilidade de sentir cada momento e a possibilidade de parar e ouvir o canto dos pássaros. O amor deve ser sentido, apreciado, resguardado e valorizado e não tratado com banalidade. Já temos tantas banalidades no mundo, não é mesmo? Então por que não preservar pelo menos os sentimentos nesse mundo caótico em que vivemos?
É engraçado, não é? É sábado à noite e ele está se enchendo de bebidas, mulheres e orgias, e eu estou em casa estudando o Estatuto da OAB e o Código Civil, lutando para ser alguém na vida. Somos tão diferentes muito embora estivéssemos em sincronia uma vez; dois planetas que certa vez giraram em perfeita sincronia e agora giram em órbitas opostas. Eu me vejo daqui a dois anos, formada -graças a Deus- talvez advogando, talvez assessorando, talvez fazendo residência judicial, mas eu não consigo visualizar o futuro dele. Formado? Talvez...Bem sucedido? Dificilmente. Bêbado todo fim de semana? É possível. Talvez nem a Tanatologia possa explicar o estado de putrefação em que ele se encontra. Coliquativo, talvez?
O destino me guia para uma direção e cada dia que passa eu me modifico. Eu já não sou a mulher tensa de janeiro, a confusa de fevereiro, a pedra preciosa de março, a independente de abril, a evoluída de maio, nem mesmo a triste de junho, a esperançosa de julho ou a radiante de agosto. Eu sou a mulher de setembro e ela é um misto das anteriores e ainda mais, guardando mistérios dentro de si como uma flor que pouco a pouco desabrocha. Conforme os meses passam eu vejo a menina do fundamental me acenar de longe, a moça do ensino médio desejar boa sorte, a acadêmica da faculdade de direito me jogar um beijo, orgulhosa da pessoa que me tornei. Elas vão ficando para trás e eu vou seguindo em frente... até a próxima versão de mim
Eu não sei como nem por qual motivo eu me vi cantarolando "Always" do Erasure e pensando nele e querendo, desejando estar com ele e beijá-lo até perder o fôlego. Fiquei aflita com isso, confusa, estranha...Porque meu corpo queima de dentro para fora quando penso nele e parece ser quase impossível conter esse incêndio dentro de mim. Então eu já nem quero fugir e quero é sair correndo para os braços dele e me sinto tão idiota por isso!
Ele beijava minha boca, meu corpo e entardecia lá fora. O sol beijava o mar, eu não conseguia tirar minhas mãos dele e pensei em como não havia outro lugar no mundo onde eu quisesse estar. Naquele momento não havia concursos, processos urgentes, telefones tocando, dramas familiares ou ansiedade. Só havia nós. O mundo todas desaparecia enquanto eu o abraçava e eu pensava que não queria soltá-lo nunca mais.
Eu não quero mais entender por que certas coisas precisaram doer tanto.
Só quero que alguma coisa, enfim, mude de direção.
Que aquilo que hoje parece peso encontre um lugar para descansar.
Que o que não aconteceu deixe de ocupar tanto espaço.
Que eu consiga olhar para a frente sem precisar carregar tudo o que ficou para trás.
Não peço uma vida perfeita.
Peço uma vida que não me faça desejar fugir dela.
E, se eu já não souber pedir direito, que Deus entenda mesmo assim.
Algumas verdades não nos libertam imediatamente. Primeiro elas nos desorganizam, desmontam nossas certezas e nos deixam sem chão. Só depois entendemos que aquilo que parecia perda era, na verdade, o início de uma consciência mais honesta.
Às vezes a maior transformação de uma pessoa não acontece quando ela muda de caminho, mas quando finalmente percebe que o caminho que estava seguindo nunca foi realmente dela.
O perigo das certezas absolutas não está apenas no erro que elas podem carregar, mas na tranquilidade que oferecem — porque a tranquilidade muitas vezes é o que nos impede de continuar pensando.
Pensar profundamente não significa encontrar respostas mais rápidas, mas suportar por mais tempo a presença de perguntas que desmontam aquilo que antes parecia óbvio.
Sinto saudade de um passado que já não consigo lembrar direito; é como sentir falta de uma casa que talvez nem exista mais, mas cuja ausência ainda mora em mim. Não lembro dos detalhes, das vozes ou dos dias que ficaram para trás, mas existe uma parte de mim que, mesmo sem saber exatamente para onde, ainda deseja voltar.
Há algo doloroso em crescer enquanto, diante do espelho, ainda enxergo a criança que o tempo não conseguiu levar de mim. O mundo me chama de adulta, coloca responsabilidades sobre meus ombros e espera que eu saiba caminhar sozinha, mas, por dentro, ainda procuro a mão que um dia segurava a minha. Talvez crescer seja essa contradição silenciosa: o corpo aprende a envelhecer enquanto a alma permanece sentada em algum lugar do passado, tentando entender em que momento os dias correram tão depressa e por que ninguém avisou que, um dia, eu teria que dizer adeus à infância sem jamais estar pronta para deixá-la partir.
Sinto saudade dos corredores da escola, das amizades que pareciam eternas e das conversas que não precisavam chegar a lugar nenhum. Saudade das risadas que nasciam por coisas bobas, das manhãs que pareciam longas e da leveza de não carregar o mundo sobre os ombros. Talvez eu não sinta falta apenas da escola, mas da época em que a felicidade cabia em uma conversa tranquila, uma gargalhada inesperada e algumas horas ao lado de quem fazia tudo parecer mais simples.
Às vezes, falar sozinha parece mais fácil do que falar com os outros. Comigo, não preciso medir palavras, ensaiar sentimentos ou temer ser interrompida. Talvez seja estranho conversar comigo mesma, mas é mais confortável do que falar e sentir que ninguém realmente me escuta.
Às vezes, já não sei quem sou nem para onde deveria ir. Procuro um propósito, mas continuo parada no mesmo lugar, como se todos estivessem caminhando enquanto eu apenas observo o tempo passar, tentando descobrir quem deveria me tornar e por que ainda não consegui sair de onde estou.
Olho para o espelho e não me reconheço. Tento falar, mas o medo me cala… porque, no fundo, não tenho medo de alguém responder. Tenho medo de descobrir que quem está do outro lado nunca fui eu.
Nós somos livres, se quisermos adquirir a fazer, não somos escravos de desejo, mas sim encanta o poder
O futuro não se constrói apenas com aquilo que desejamos, mas com aquilo que pensamos, escolhemos e fazemos todos os dias.
