Fiz de Mim o que Nao Soube

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Eu não temo o silêncio; temo a vida sem profundidade, pois ela é a verdadeira forma de abandono.

E depois de tantas dúvidas, tantas idas e vindas, tantas reviravoltas, ela não poderia começar o ano novo sem a presença de quem lhe ocupara o coração há algum tempo atrás. Sem o corpo daquele que tomou todos os seus espaços vazios, espaço que ela pensara ser não mais possível preencher, que ela pensara estar ainda travado, trancado, inacessível. Espaço que ele, sem cerimônia, invadiu, sem sequer obedecer a qualquer uma das regras que o amor realmente é incapaz de respeitar!
E foi assim seu primeiro dia do ano! Sem tempo para as regras, sem tempo para as convenções!
Foi ali, à luz da lua, que sem qualquer arrependimento, não fora apreciada! Afinal, ela tinha ali, na primeira noite do ano, o homem que deixara para trás todos os outros! E também a lua!
Ali, assim, nua, na rua, à luz da lua!

Completamente nua...

Às vezes eu faço o que eu não quero, mas o que eu quero eu faço sempre! Mais cedo ou mais tarde, eu faço.

Quem nunca faz nada para se libertar das correntes que lhe aprisionam não é digno sequer das migalhas que recebe para tão somente sobreviver!

Muito tarde para me prometer um mundo que não me importa mais!

Não que eu seja vingativa, mas todo pagamento atrasado requer juros!

Se ele (a) ao te escolher não se esqueceu das outras "escolhas" que tinha, seja esperta (o) o suficiente para não fechar o SEU leque de opções!

A vingança não é um prato que se come frio.
É um prato negado quando se está com fome.
E ambos os lados continuam famintos.

Foi só uma questão de importância, de prioridade.
É que o lugar no qual você me colocou não é muito confortável.
E eu só decidi deixá-lo vago para quem se conforma em assistir ao jogo na arquibancada.

Palavras não mudam as pessoas. O que as transformam são os fatos, que muitas vezes são impactantes. Não gaste seu tempo tentando ensinar, quem não quer enxergar o óbvio.

Nara Nubia Alencar Queiroz

A Sala Que Não Existe


Ninguém se lembra de quando o Professor Cálculo começou a lecionar na escola. Alguns dizem que ele já estava lá antes do prédio ser construído — e que foi ele quem escolheu o terreno.


Seus olhos eram cinzentos como giz velho, e ele nunca piscava enquanto escrevia na lousa, como se algo o observasse através dela.


Toda sexta-feira, às 23h13, os corredores da escola rangiam sozinhos, e uma porta surgia no fim do corredor — a Sala 13, que de dia simplesmente não estava lá.


Os alunos que entravam nessa sala nunca mais eram os mesmos. Voltavam pálidos, com os olhos vazios, murmurando números que não faziam sentido, como se algo tivesse arrancado pedaços de suas mentes.


Dizem que o professor não ensinava mais ninguém — ele colecionava. Cada aluno que falhava seu teste desaparecia da chamada, e no dia seguinte havia uma cadeira nova, empoeirada, como se estivesse ali há décadas.


Uma noite, uma aluna ficou até tarde e viu o que ninguém deveria ver: o Professor Cálculo, sem rosto, escrevendo o nome dela na lousa com as próprias unhas.


Ela correu, mas quando olhou para trás, a escola inteira havia sumido — e ela nunca mais encontrou o caminho de volta para casa.

O homem imagina possuir uma identidade, quando quase tudo o que chama de "eu" não passa da soma dos medos aos quais decidiu nunca desobedecer.

Há olhares que não dizem nada. Ainda assim, há quem passe uma vida inteira tentando entendê-los.

Quem ama de verdade faz por vontade, não porque o outro precisou pedir.

A Demora
O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

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Só por hoje não estou... empoderado!
Só por hoje não tenho nenhum... pertencimento!
Só por hoje continuo não acreditando em governos!
Só por hoje, e desde sempre, eu não acredito em salvadores de pátrias e almas- são embusteiros!
Só por hoje não acredito em absolutismos- científicos, religiosos ou ideológicos!
Só por hoje continuo acreditando que só o questionamento e a dúvida são a base do saber e da liberdade!
Só por hoje tenho a certeza que o único estado que conduz à liberdade é o de homens cujo estado de espírito é livre e contestador!

Pensamento anarquista do Barão:

Manda quem pode, eu desobedeço porque não tenho juízo.

Eu sou apenas quem deveria ser
Se eu já sei que sou
Então como posso ser alguém
Que ainda não sei quem é

O fato de não se compreender ou explicar uma coisa não acaba com ela. Nada sei das estrelas, mas as vejo no céu, são a beleza da noite.

Jorge Amado
Gabriela, cravo e canela. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

O amor não se prova, nem se mede. (...) Existe, isso basta.

Jorge Amado
Gabriela, cravo e canela. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.