Fim

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Viver é colecionar adeuses discretos. Nem todo fim tem trombetas, muitos se vão por uma janela fechada. Eu faço inventário desses pequenos fins, para não esquecê-los. Cada adeus me ensina a salvar pedaços para recomeços. E, mais uma vez, o coração vira caixa de sobras transformáveis.

No fim, o que resta são rotinas que nos salvam do abismo. Rituais simples, um café, uma carta, um olhar, fazem ponte. Construo essas pontes com mãos gastas e coração atento. Elas não garantem paz eterna, mas oferecem travessia. E atravesso, sabendo que, por ora, já é suficiente.

Todo fim não é um vazio, mas um terreno aplainado para uma construção de propósito muito mais sólido. O ciclo de amantes que chegam e partem nos ensina que, acima de tudo, o único amor duradouro é aquele que se aprende a dedicar à própria reconstrução.

O tempo é o arauto gélido que apenas anuncia o inevitável fim dos ciclos, mas o bisturi da mudança está em suas mãos.
A decisão de cortar o passado é sua
e só sua.

A dor não é fim, é página espessa que engrossa a letra da coragem e nos obriga a reler a vida.

No fim das tardes, o mundo baixa a cabeça como se rezasse. As sombras alongam os desejos que não viraram atos. Eu caminho com a sensação de ter esquecido algo essencial. Por vezes o essencial é apenas o nome de alguém. E chamar esse nome é como abrir uma porta sem saber o que vem depois.

Fiz da ausência um hábito, depois um vício e, por fim, meu próprio nome. Já não sei quem eu seria se o vazio me deixasse.

Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.

Não ostento força, ostento permanência. Com tudo o que já me convidou ao fim, o fato de eu ainda estar aqui é meu maior feito.

No fim, sobrará apenas o vento soprando entre as ruínas do que tentamos ser, levando as cinzas dos nossos poemas e as memórias dos nossos pecados. O mundo seguirá seu curso, o sol nascerá para outros miseráveis, e o meu nome será apenas um sussurro de quem soube ler o abismo.

Há uma melodia nas coisas que se quebram, um som de fim de mundo que ecoa por dentro muito tempo depois do estrago físico. Eu coleciono esses estilhaços e tento montar um mosaico onde a beleza não venha da perfeição, mas da forma como a luz atravessa as rachaduras.

No fim, sobrará apenas esse amontoado de letras que eu deixei espalhadas pelo caminho, como migalhas de pão que não serviram para eu voltar para casa, mas que talvez alimentem a alma de algum outro pássaro ferido que passar por aqui. Se a minha dor serviu de consolo para a sua, então valeu a pena cada gota de tinta.


- Tiago Scheimann

Ser resiliente é continuar acreditando quando tudo ao seu redor já declarou o seu fim.

Eu permaneci não porque havia esperança, mas porque algo em mim se recusou a obedecer ao fim.

Eu não venci a dor eu aprendi a coexistir com ela sem permitir que ela decidisse o meu fim.

A busca por sentido é uma estrada sem fim onde as paradas são mais importantes que o destino, pois é nos momentos de pausa, contemplando a poeira da estrada, que percebemos que o caminho em si é a resposta que tanto procurávamos em mapas inexistentes.

A vida no Sul é feita de horizontes que parecem não ter fim e de um silêncio que não é vazio — é carregado de memória, de ausência e de tudo aquilo que o vento insiste em contar para quem aprende a escutar. Aqui, o tempo não corre; ele se assenta. Ele respeita quem finca raiz e não se dobra à pressa de um mundo que esqueceu de sentir.


Entre o frio cortante das manhãs e o calor denso de um chimarrão amargo, existe um ritual que sustenta a alma: o sorgo que gira na roda, a caninha boa que aquece o peito e as lembranças de um povo que aprendeu a resistir antes mesmo de aprender a sonhar. Não é só costume — é sobrevivência transformada em tradição.


Há pegadas de marujo marcadas no chão, há couro curtido pelo sal do litoral e uma identidade moldada entre o campo bruto e a água inquieta. Aqui, a gente aprende cedo que viver é manter o equilíbrio mesmo quando tudo balança — seja no lombo de um cavalo ou no balanço incerto de uma canoa. Aprende-se a ler o céu como quem lê o destino e a entender o silêncio das marés como se fosse linguagem.


Foi assim, olhando o velho pai, que vieram os primeiros ensinamentos — não em palavras, mas em gestos. Nos tiros de laço lançados contra o vento, na paciência quase sagrada da tarrafa aberta na lagoa, na firmeza de quem nunca precisou dizer muito para ensinar tudo. É nesse chão que se aprende que herança não é o que se recebe, é o que se honra.


E quando o olhar encontra o reflexo de uma lagoa verde e azul, não é só paisagem — é espelho de uma identidade inteira. É memória viva, é música que atravessa gerações sem pedir licença, é sentimento que não cabe em explicação. Ali, naquele instante, tudo faz sentido sem precisar de tradução.


Viver no Sul não é apenas existir em um lugar — é carregar um estado de espírito que mistura dureza e sensibilidade, silêncio e profundidade. É entender que a vida não precisa ser alta para ser intensa, nem rápida para ser verdadeira.


É um jeito de viver que não se explica — se sente.
Se carrega no peito como marca definitiva.
E se honra, todos os dias, como quem sabe exatamente de onde veio e por que permanece.


- Tiago Scheimann

Há dias em que caminho como quem atravessa um inverno sem fim. Dentro de mim, tudo parece frio, pesado, quase irreconhecível. Cada passo é menos coragem do que insistência em não cair. E sigo, não porque a dor diminuiu,
mas porque me recuso a deixar que ela escreva o fim da minha história.

No fim, quem atravessou a própria dor deixa de procurar o sentido da vida. Descobre, com uma melancolia irreversível, que o sentido nunca esteve na ausência do sofrimento, mas na estranha capacidade de continuar respirando depois que uma parte da alma já morreu.

Nem todo fim é uma tragédia, alguns são apenas o espaço necessário para a vida renascer.