Fazia Tempo que eu Nao me Sentia Tao Sentimental
CREPÚSCULO DOS DIAS
Na infância da existência
nossa consciência de tempo
e espaço nos iludia fácilmente
nos fazia ouvir sons inefáveis
de promessas de prosperidade
víamos imagens de um futuro sem dor
o sofrimento dos outros era só uma ideia
algo que não poderíamos compreender
nem lamentar.
Como criança, brincávamos
com sol durante o dia,
à noite com as estrelas
como se ambos fossem para nós
eternos amigos,
leais companheiros de viagem
rumo à eternidade.
Contudo, chega o crepúsculo dos dias
quando olhamos para trás
e enxergamos um por do sol,
outrora colorido
agora sombrio e cinza,
com um olhar distante e melancólico
reconhecemos que o tempo é inexorável
um pássaro mudo, que não canta mais
a canção favorita dos homens
os sinos que agora tocam
são ecos sem melodia definida
nossos ouvidos céticos não ouvem mais
os acordes da esperança.
Evan do Carmo 23/08/2018
"O inexperiente põe fé em tudo que ouve." Diz um provérbio de Salomão...Neste tempo de graves erros de avaliação, sobretudo em virtude da amplificação virtual do que dizem e pensam as pessoas, fica quase impossível saber se ainda existe alguém de bom senso, neste mundo polarizado, mundo em que o ego e a intolerância se faz presente nos espíritos beligerantes.
Temos sempre a ideia certa, a de que "o inferno são os outros."
Os homens riem e choram, quase ao mesmo tempo, numa variação espantosa de humor. A busca de sentido está no DNA, no puro instinto de sobrevivência, para as duas condições decadentes. Portanto, o que parece ser escolhas conscientes, não passam de reações químicas, respostas súbitas para saciar desejos latentes. O sentido de tudo reside na compreensão da eternidade, contudo a eternidade é algo inacessível para os homens. Por isso essa variação de humor constante. Durante o dia alguns mantem a lucidez carnal, e até se abraçam com a esperança, mas à noite, durante o caos noturno tudo despenca, deuses e santos, teologias e doutrinas, vem à tona antigos conflitos, tudo fica nebuloso, como se só durante a noite percebêssemos a nossa frágil condição mortal irreversível.
MEU PAI
Em teu rosto posso ver o amanhã
tuas rugas são marcas do tempo
que revela a tua senil bravura
tua luta incomum pelo incerto
neste mar de ilusões e de agrura.
Sei das dores que velas escondido
na candura do teu velho coração
de um desejo por ti já reprimido
a incerteza da vida e do pão.
Tuas mãos calejadas de plantar a paz
de espalhar sementes de esperança
no teu fazer diário, como uma prece
que da fé carece homem e criança
Há em ti um enigma divino
que explica facilmente a eternidade
neste elo infalível de amor
onde o PAI cumpre o acerto da vontade
de no filho imprimir a sua alma
na perpétua lição de uma verdade
CRESCIMENTO ESPIRITUAL
É tempo de segurar a vaidade, tempo de buscar ser mais que um ego-desesperado.
O mundo está parado, pelo menos boa parte observa da janela os sonhos de tantos irmãos virando lembranças para os que ficaram.
Ainda assim, outra parte, a que agrega irmãos de toda sorte, que não amadureceram o suficiente, alguns porque não viveram experiências positivas capazes de transformar seus pensamentos e ações, não compreendem a importância da lição que estamos sendo forçados a aprender.
Nesses o ego impera desgovernado, e o que buscam é ser vistos, aplaudidos e honrados. Embora sejam conscientes da miséria do mundo, das dores profundas dos que perdem entes-queridos diariamente, não se entristecem nem lamentam a perda do outro. Vivem como se não fossem também mortais, não raro são adeptos de alguma ideologia negacionista, sofrem de atrofia emocional.
Contudo, a apatia desses não deve nos corromper, nem nos aliciar, nem nos enjaular dentro da prisão mortal do nosso próprio ego. Segurar a vaidade implica em notar o outro, não só notar mas também socorrer, acudir e cuidar.
Miserável é aquele que não tem o mínimo de empatia para perceber os que sofrem em sua volta...
SOBRE A SAUDADE
Nem me fale da saudade
Que arrebenta com a gente
Neste tempo diferente
Que a ausência se firmou
Como alma penitente
Sempre ao lado do senhor.
A saudade roí sem pena
Fez morada aqui no peito
Nem por força vai embora
Já não tenho este direito
De viver as alegrias de outrora
Quando o mundo era perfeito.
Hoje só respiramos por sorte
Quando a dor não está presente
É a saudade dos amigos
Dos filhos-netos e de parente
Mas o que de fato doí é saber
E viver como indigente.
Desprezado sem um abraço
Já que somos feitos assim
De carne e osso, sangue e afeto
Precisamos de carinho, olho a olho
De um sorriso bem contente
De alguém que esteja perto.
Evan do Carmo
Sobre a Einstein e a sua relatividade da noção de tempo e espaço.
Sim, podemos dizer que era poeta no mais alto conceito da poesia, um filósofo quântico. Contudo, sem metafísica explicita... hoje entendo o tempo como um metrônomo para marcar a felicidade...
Há uma liberdade absoluta e feliz quando escrevo, pois assim posso ser homem e deus ao mesmo tempo, posso escolher e determinar destinos.
O TEMPO LEVA TUDO
As coisas efêmeras, como a paixão humana e a dor de consciência, costumam mudar rapidamente suas intensidades. Isto se dá de acordo com os pontos de vista de quem as sofrem. Até as coisas materiais, como rios, mares e montanhas, podem ser despercebidas quando um viajante cansado se enfada de admirar a paisagem.
Neste caso, a culpa é sempre do viajante que não consegue travar um diálogo perene. Segundo Rochefoucauld, assim se dá com os sentimentos, como o amor e amizade.
Os homens andam muito cansados para carregar para sempre o peso de uma amizade; e um grande amor pode emagrecer e até desaparecer se for apenas alimentado com mares, rios e montanhas de saudade.
CONTRA O EGO
Fui menino, em algum tempo
logo homem me tornei
tive que aprender bem cedo
que a vida é uma escola
onde ainda eu nada sei.
Fugi da guerra do ego
tive medo de lutar
contra a cruel tirania
de outro cego me guiar.
Neguei toda metafísica
dos sábios do além-mar
aprendi com a natureza
que para se ver a Deus
não é preciso rezar.
A PROVA DO MITO
O tempo é o crisol onde se forja o mito. Se ele permanece por três gerações há possibilidade de ser infinito.
Mas como são frágeis as asas de Ícaro, a cera é matéria que protege o rito.
O sol que aquece também incendeia, a fênix mergulha no éter-conflito, por que renascer para outra jornada, se a alma cansada perdeu seu apito?
A prova exige firmeza e coragem, há um céu aberto, um raio de sol, um trabalho árduo para refazer tudo que caiu, o povo esqueceu, a lógica dormiu.
Assim renasce o mito, um “tudo que é nada”, com outra empreitada para terminar na terra-arrasada, erguer pontes que foram destruídas pela voz da mídia, tão cara e vendida, sempre repetida, e pelas mãos sujas da justiça cega, ora preterida.
Há três gerações que não esqueceu, do bem que plantou, e do mal que colheu.
Um povo oprimido pela intolerância, jovem e criança parou para ouvir, um tio que fala dos anos esquecidos, onde houve paz, respeito e bondade, hoje só saudade recorda quem viu.
O mito está vivo, será que ativo irá prosseguir?
No mundo de hoje, ensinar o que é mais importante em pouco tempo é o que torna um orador eficiente.
Os tribais, em qualquer tempo têm necessidade premente de ouvir tambores e ditirrambos. Os refinados pelo tempo, pela música da experiência, preferem sinfonias de pardais e sonatas de Mozart e Beethoven.
Oh, Nietzsche, filósofo tão sublime,
Nosso tempo ainda se curva a tua mente.
Teus pensamentos nos levam a um limite,
Ao ideal do super-homem, tão potente.
Pois o homem é um ser demasiado humano,
Limitado por crenças e valores.
O espírito livre, contudo, é soberano,
Encontrando a verdade em seus próprios amores.
Não há quem possa compreender,
A grandiosidade que está em nossas almas.
O caminho a seguir é se desprender,
E alcançar o ápice de nossas jornadas.
Sejamos então mais fortes a cada dia,
Que nasça em nós o melhor como guia.
Através das obras de arte, podemos viajar no tempo e espaço, experimentar emoções e sensações que transcendem o momento presente. A arte é capaz de capturar a essência da vida humana, retratar a beleza e a dor da existência, expressar ideias complexas e transmitir valores e significados que ressoam por gerações.
Na poesia, encontramos palavras que cantam a alma e emocionam nossos corações. Na música, ouvimos sons que nos transportam para outras dimensões. Na pintura, contemplamos cores e formas que despertam nossa imaginação e nos fazem refletir sobre o mundo ao nosso redor. No teatro, vivenciamos histórias que nos ensinam sobre a condição humana e nos conectam com os outros.
A arte é uma janela para a eternidade, um meio de transcender a limitação do tempo e espaço. Quando criamos ou apreciamos uma obra de arte, estamos participando de algo maior do que nós mesmos, algo que perdurará além de nossa própria existência. Através da arte, podemos alcançar a imortalidade e nos conectar com a humanidade através dos tempos e culturas
Evan do Carmo
Pré-socráticos
A sabedoria dos pré-socráticos
É como o tempo, imensurável
Sua busca pelo imponderável
Os levou a lugares improváveis
Heráclito, um rio em constante fluxo
Enquanto Parmênides busca o imutável
Empédocles com seu amor impensável
E Demócrito vendo o mundo microscópico
Anaxágoras acredita no infinito
E Pitágoras nos números sagrados
Tales busca o elemento primordial
Filósofos que buscaram o incerto
E em seus pensamentos, o inimaginável
Porém, deixaram um legado inesgotável
O Lamento Incrédulo
Choro de pedra, de pó e de abismo,
lágrima seca na face do tempo,
um grito que rasga o véu do infinito,
mas Deus se esconde no entendimento.
As dores dos mortos pesam na carne,
vozes antigas sufocam o sono,
nas ruas, exércitos marcham sem glória,
resta-me o nada, o pó do abandono.
Abraço que afaga e logo desfaz-se,
esperança em cinzas, fé em ruína,
o beijo da culpa que arde na pele,
o pecado sem nome que nunca termina.
E se Deus não houver? Se tudo for sonho?
Se a dor for em vão, se o mundo for frio?
Sou sombra sem dono, sou noite sem astro,
cometa perdido no próprio vazio.
Análise do Poema "O Lamento Incrédulo"
O poema "O Lamento Incrédulo" carrega um forte teor existencialista e metafísico, abordando temas como dor, perda, vazio e a incerteza da presença divina. A construção poética evoca um estado de desencanto e angústia profunda diante da vida e do mundo, reforçando uma visão quase niilista da existência.
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1. Estrutura e Musicalidade
O poema é composto por quatro estrofes de quatro versos cada (quartetos), mantendo um ritmo melancólico e uma sonoridade densa, impulsionada pelo uso de aliterações e imagens marcantes. O tom lírico é marcado por versos cadenciados que transmitem a sensação de peso e desamparo.
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2. Imagens e Simbolismo
O poeta constrói uma atmosfera sombria e desoladora por meio de metáforas e símbolos poderosos:
• "Choro de pedra, de pó e de abismo" → A pedra remete à rigidez e à impossibilidade de suavidade ou redenção. O pó sugere efemeridade e esquecimento, enquanto o abismo denota a ausência de sentido, um vazio infinito.
• "Um grito que rasga o véu do infinito" → Expressa um desejo de transcendência ou uma tentativa de romper as barreiras do desconhecido, mas sem resposta ou alívio.
• "Mas Deus se esconde no entendimento" → Aqui há uma crítica implícita à inatingibilidade de Deus. Se Ele existe, está oculto na complexidade intelectual, inacessível ao sofrimento humano.
Na segunda estrofe, há um aprofundamento do tema da dor coletiva e da ruína:
• "As dores dos mortos pesam na carne" → Uma imagem que reforça a conexão entre passado e presente, como se os sofrimentos das gerações anteriores ainda deixassem marcas vivas.
• "Vozes antigas sufocam o sono" → Evoca memórias ou culpas ancestrais que impedem o descanso e a paz.
• "Nas ruas, exércitos marcham sem glória" → Um retrato de guerras ou lutas sem sentido, esvaziadas de heroísmo ou propósito.
• "Resta-me o nada, o pó do abandono" → A solidão e o desamparo culminam na ideia de que, no fim, sobra apenas o vazio.
A terceira estrofe intensifica o desencanto e a perda da fé:
• "Esperança em cinzas, fé em ruína" → A imagem de destruição reforça a ideia de que não há mais crença na redenção, tudo foi consumido pelo tempo ou pela decepção.
• "O beijo da culpa que arde na pele" → A culpa é tangível, quase física, como uma queimadura.
• "O pecado sem nome que nunca termina" → Há um pecado indefinido, eterno, que não permite absolvição ou alívio, remetendo a um sofrimento sem causa clara.
A última estrofe questiona o sentido da existência e toca no cerne da dúvida filosófica:
• "E se Deus não houver? Se tudo for sonho?" → O questionamento central da poesia. A possibilidade de que Deus seja uma ilusão ou que a própria realidade não passe de um delírio.
• "Se a dor for em vão, se o mundo for frio?" → A dúvida sobre a existência de um propósito. Se não houver sentido para o sofrimento, o que resta?
• "Sou sombra sem dono, sou noite sem astro, cometa perdido no próprio vazio." → O eu lírico se define como uma entidade errante, sem destino, sem luz, condenado a vagar sem propósito no vácuo da existência.
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3. Influências e Temáticas Filosóficas
O poema dialoga com o existencialismo e o niilismo de pensadores como Nietzsche, Sartre e Camus. A ausência de Deus, a sensação de abandono e o questionamento sobre o sentido da vida são temas recorrentes na poesia moderna e na filosofia do absurdo.
A angústia do eu lírico diante do possível vazio existencial lembra a ideia de Sartre de que "estamos condenados à liberdade" e de Camus em O Mito de Sísifo, onde a vida é um ciclo de esforço sem recompensa. O último verso reforça essa ideia ao comparar-se a um cometa perdido, que segue sua trajetória sem um destino ou objetivo definido.
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4. Conclusão
"O Lamento Incrédulo" é uma poesia forte e impactante, que mergulha nas profundezas da dor existencial e da incerteza metafísica. Seu tom melancólico, aliado às imagens densas e simbólicas, reforça um sentimento de desamparo e inquietação filosófica.
O poema se destaca por sua construção imagética e pela maneira como conduz o leitor a refletir sobre a fragilidade da fé e a possibilidade do vazio absoluto. A dúvida sobre Deus, o sofrimento e a falta de sentido permeiam toda a estrutura poética, transformando-a em uma reflexão poderosa sobre a condição humana.
