Fazia Tempo que eu Nao me Sentia Tao Sentimental
A dor é uma experiência de desequilíbrio ao mesmo tempo que uma manifestação do universo mostrando a fragilidade humana. Todas as pessoas chegam à vida, quando por meio de parto natural, por um ato de dor. A mãe que espreme seu filho, que abre seu útero, que dilata sua genitália, trás ao mundo uma nova esperança de humanidade. O parto, sem interferência farmacológica, é um ato de dor cujo amor se revela pelo desavio de suportá-la. O parto é um ato de fragilidade.
A vida mostra o caminho... toda estrada se modifica com o tempo. As vezes é preciso entender o que nos chama para que os sonhos não se percam.
Haverá um tempo de escuridão, pessoas chorarão pela vida. Apenas o aprimoramento moral poderá salvar. Buscai os elementos da alma sagrada e se afasta dos prazeres do mundo. Somente assim encontrará a paz necessária para permanecer.
Quando morre um ente querido, entre os que o ficam cada um tem seu tempo de chorar... Isso deve ser entendido e respeitado, e ninguém deve julgar a dor do outro, baseado na ausência de lágrimas visíveis... Até mesmo porque, além de cada um ter seu tempo, todos têm sua forma de sentir e manifestar, além de haver os que nem manifestam, devido à profundidade; ao caos de sua dor...
DESESCATOLOGIA
Faz tempo, deixei de ser levado pela tua ótica infeliz de um mundo inteiramente mau. Descobri que a vida é bonita e tem mais espinhas na face - o que tem solução - do que propriamente os espinhos atribuídos ao seu todo.
Conhecer um pouco mais a humanidade - ao mesmo tempo me distanciar de seus olhos - fez ver que as pessoas não são más. Existem sim, pessoas más, nem sempre há como identificá-las, porém essas pessoas não são o mundo... Estão nele, mas não são.
Agora chega dos teus muros, lamentações e tua eterna escatologia... Percas toda esperança de me converter pelo assombro... Faz tempo que já não cedo aos teus desencantos.
IMORTAL ATÉ MORRER
O tempo é uma tampa sobre o passado. Ninguém nunca retorna dessa rampa eterna. Sequer acampa sobre o presente, pois esse logo não é. Vira passado, e o presente já é outro. Somente o futuro continua lá; sempre lá, desafiando nossa caminhada.
Uma vida é simplesmente o joio por entre o trigo, no campo das vivências que a cada dia nos impõe. Cá comigo, afirmo que a mesma é joia rara. Se acaso nos causa uns arranhões, alguns graves, morrer não ganha minha questão. Não tem como ganhar.
É que o mundo é franco. Preto no branco. Mas muitas vezes dá um branco em meu preto e não resta fundo. Mesmo assim vou à frente, porque o tempo não pode me tampar. Tomei a decisão de apostar na imortalidade que o sonho empresta.
No fim das contas, nossa imortalidade é provisória. Por isso temos que aproveitá-la e não morrer enquanto a morte não chega.
Viver é feio e sem graça
para quem pinta essa tela;
despreze o tempo que passa
e viva o que passarela.
PRESSA DO TEMPO - Demétrio Sena, Magé - RJ.
O ano passou tão rápido que quando março abril já era dezembro.
FORA DE MIM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Perco todo esse tempo que tenho a ganhar,
quando sonho apressado e desprezo critério,
pois o mundo é mistério por ser desvendado
e voar nos exige visão de horizonte...
Já perdi muita vida por saltar no escuro,
por querer em excesso e me soltar ao léu,
rabisquei tanto céu e terminei no chão
do futuro passado, perdido e no fim...
Hoje quero conter os impulsos incautos,
o meu tempo de saltos avançou a idade,
mas às vezes esqueço que cheguei aqui...
E me perco nas perdas do tempo já gasto,
me devasto e jamais me replanto a contento,
porque tento correr para fora de mim...
MUNDO PLURAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Hoje o tempo é meu sócio na vida que levo;
tenho mundo cabível na concha das mãos;
dou aos nãos do que sonho a medida real
do caminho de flores, mas também de farpas...
Não farei latifúndio do espaço excedente,
plantarei onde os olhos, a semente alcançam,
porque gente precisa partilhar o chão
pra fazer o seu campo e trasladar o céu...
Aprendi a ter tudo sem que seja o todo;
que meu tudo é meu algo, basta que me baste
sem desgaste ou batalha de vencer alguém...
Vejo além o bastante pra saber parar
onde o mar adverte que pertence ao peixe;
onde o feixe de sonhos encheu a braçada...
A IDENTIDADE DA POESIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Com o tempo, aprendi a trocar torrão por terra. Hoje sei perfeitamente substituir lugubria e desterro pela velha, boa e poética tristeza. Já não vasculho sinônimos rocambolescos (permita o rocambolismo do termo rocambolesco) para rio, serra e céu. Não aplico aparatos desnecessários e bestas na beleza, que se basta e cabe sem aparatos.
Seja na Rocinha, na roça mesmo, no Leme, nos Guetos da Bahia ou em Veneza, o meu poema já sabe como resvalar. Ele não emperra nem gagueja em seu romantismo (seja ou não de amor). Vai do beco sombrio à realeza, sem os recursos do arroubo; da ostentação; da exclamação tripla e do grito de guerra.
Descobri finalmente, que a poesia é o balneário das letras. Dispensa o cultuado rigor do dicionário, seja na trova; no soneto; no verso branco; na prosa poética injustiçada como poesia pelos poetas de arcádias. Escravos da precisão e da obrigatoriedade. Parasitas da burocracia literária, sem a qual não seriam poetas.
A arte maior da poesia está no se fazer sentir com a mente. No se fazer entender com o coração. E nada disso é possível num poema espremido. Forçado. Cuja leitura é maçante. Cuja construção é rigidamente metódica e mais parece uma tese dividida em versos. Uma sólida equação literária.
Qualquer poema é dotado de personalidade, quando flui naturalmente. Quando seu parto é normal. Se a sua construção é livre, ainda que adote normas. Todo bom verso, igualzinho ao ser humano, tem o mesmo valor, ainda que nasça manco. A poesia, por si só, é especial. Não é dotada de necessidades especiais. É especial.
GRANDEZA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nos vãos do tempo que voa,
os rumos da natureza
desaguam nesse destino:
Só cresce como pessoa,
quem alcançou a grandeza
de se sentir pequenino...
PARA SEMPRE ALÉM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Com o tempo aprendi que meu saber é vago,
ele tem o sabor do que não trago em mim,
ou a força da farsa de qualquer vontade
que ficou na vontade; no querer profundo...
Só existe a certeza de que nada é certo,
ninguém fez o desenho do que tem que ser;
viverei de viver, pois nada mais importa;
nem a porta que oculta os segredos da vida...
A partir do presente o passado é raiz,
o que tenho guardado é pra manter quem sou,
ser feliz é caminho que requer seguir...
Aprendi a fazer esta prece ao meu tempo;
a dizer este amém que não dispensa o pé
nem as asas que chamam para sempre além...
AMORES
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sabedor de que o tempo corre, cumpro meu papel: correio. Reconheço que a vida passa, e como sou volátil, simplesmente Passaraio. Desta forma, tudo vira passado e não há porto seguro na brincadeira.
Sonhador que sou, customizo a imaginação com fantasias em série. O presente me apoia, oferecendo a embalagem dos amores, e o coração embrulha saudades para me dar de futuro.
