Fazia Tempo que eu Nao me Sentia Tao Sentimental
Estou desabando
Desisti de criar algo novo
- Pleonasmo, eu sei!
Estou descambando
Desisti de pensar em soluções
Estou enterrando
Todas as possibilidades
Todas as intenções
Todas as vias
Todas as cercas
Todas as ilusões
Estou me envolvendo
Com gente
De verdade
Na cara e no coração
Estou refazendo
Todos os passos
E, com eles,
Todos os tropeços
E, com eles,
Todos os abraços
Na vida ou no chão
Eu estou num lugar estranho
No limbo
Na vez
Na coragem
Da solidão.
Eu ando
Um passo por vez
Eu ando
Um segundo por vez
Eu ando
Uma existência por vez
Eu ando
Uma paisagem por vez
Eu ando
Uma vida por vez
Minha alma acompanha meus pés
Eu sou os meus passos
Eu sou meu espaço
Eu sou o que toco
Eu sou o que vejo
Eu sou o que sinto
Eu sou a viagem
Eu sou o pouso
Eu sou a virtude
Eu sou a imagem
E semelhança
De quem me criou
Para ser...
Livre!
Meus passos correm em busca de mim
Em busca de quem eu sou
Em busca de onde estou
Em busca do meu lugar no mundo
Do meu propósito
Da minha missão
Do meu ser
Do meu mais profundo
Pega-se o bonde quase andando
- Ninguém usa mais esta expressão!
Provavelmente eu seja cringe
Ou vão me chamar de “sem noção”
Nonsense fui lá no passado
Agora pescaram uma nova alusão
E eu vou boiando nesse arado
Sem tempo, sem pressa, sem razão!
Eu sou o grilhão que prende a liberdade
Sou a pátria enfurecida
A vaidade!
Sou o pesadelo dos que dormem assombrados
Sou o estômago revolto
Revirado!
Eu sou o inverso do início
Sou o fim do começo do precipício
Sou a incerteza da minha razão
Sou o céu azul da escuridão.
Eu sou a intensidade da monotonia
Sou o cansaço da alegria
Sou a temperança da própria raiva
Sou a paixão lasciva e viva.
A última gota
Eu estou aqui ainda
O que posso eu fazer
enquanto vivo?
Eu estou aqui ainda
Posso ser juiz
ou ser juízo!
Eu estou aqui ainda
Posso lamentar
ou saltar o abismo.
Eu estou aqui ainda
Posso enfurecer
ou tornar-me aprisco.
Eu estou aqui ainda
O que posso eu fazer
enquanto a vida pulsa
em meu peito
em minha face
em minhas mãos?
há decisões que – ainda -
podem ser tomadas
e escolhas que prescindem dos nãos!
Eu queria ter sonhos maiores
Queria ter sonhos melhores
Pular de muros infindos
Abrir caminhos desconhecidos
Rezar a deuses antigos
Ser apenas um entre os inícios
Cada vez que olho nos olhos do céu
Eu vejo que ainda estou aqui
Uma parte de mim ainda resiste
Ainda existe
Ainda é
Eu sinto o cálido torpor do vendaval
Levando meus braços para longe
De alguma ação
De algum chão
De mim...
É bom ser criança
E ser amada
E, antes de dormir,
Ouvir um Eu te amo
Enquanto se derrama num abraço
Cheio de aconchego e abrigo.
Ah, como é bom ser criança!
Desse jeito assim...
(escapatória)
eu andava perdida na vida
até me descobrir artista
e entregar-me de vez...
a-tra-vés
ou-tra-vez
ouço-me em silêncio
Ah, os meus passos correm
como eu corro
como minha alma corre
como minha vida corre
como meu tempo corre
- E se escorre!
Mas eu não me abandono
Eu nunca me abandonarei
- Não mais!
Vou contigo pra Pasárgada
Meu caro Manuelito
Quem sabe lá eu encontre
Dos Anjos, os versos íntimos!
Pensando bem, eu irei
Para o mundo de Drummond
Tão vasto quanto ele mesmo
Mais vasto do que o som!
Jorge e sua Fulô
Bem me acompanhariam
As estrelas de Bilac
Mais forte lá brilhariam
De Campos e todo o LUXO
A vida seria perfeita
Como os versos de Vinícius
Na morte, vida refeita!
Citando Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Carlos Drummond, Jorge de Lima, Olavo Bilac, Augusto de Campos e Vinícius de Moraes.
Para as alegrias da infância
É que eu almejo voltar
O céu na Terra bailando
A delicadeza do ar
Um baile na primavera
Lindo verão a surgir
Ah, quão doce era
Sua presença em mim!
Para as alegrias da infância
Eu sempre volto a sonhar
Canções no pé da estrada
Cantigas que fazem ninar
Um vento e uma caldeira
Imagens podem cingir
Tão vasta de brincadeiras
De novo volto a sorrir!
Eu aprendi a ver seu olhar
Eu comecei a enxergar seus olhos
No inexato instante do agora
Foi por causa da máscara, eu sei
A máscara que colocou pra fora
A máscara que tomou parte de sua face
A máscara que escondeu seu sorriso
Foi ela que me fez encarar
Seus olhos
Tão preciosos, belos
Tão firmes, cheios de sonhos
De estranhezas, de esmero!
Foi ela quem levantou meus olhos
E fê-los encontrarem os seus
Olhos
De todas as cores
De todas as vidas
De todas as tentações
Seus olhos saltando aos meus
Meus olhos tão perto dos seus
Eu aprendi a ver seu olhar...
E, neste exato instante, não posso
Não amar!
eu sou amante da vida
ainda vou morrer por causa disso
mas como morrerei - de qualquer jeito
será lindo morrer de amor!
