Falo o que Sinto
Eu quero um amor que não seja covarde. E não falo de guerras, heróis ou moinhos, falo do amor que não foge do cotidiano. O que lava a louça, compartilha o silêncio, segura a mão sem medo do tédio. O amor corajoso não é o que promete eternidade, mas o que se faz presente nas miudezas, nas falhas, nos dias em que o afeto parece coisa rara. É o amor que sabe ficar, mas também partir com dignidade, sem transformar distância em castigo. O que confia, mesmo quando não entende. O que não precisa vigiar para acreditar. Amar, afinal, é permitir que o outro seja casa — mesmo quando a vida muda o endereço.
Há um alívio secreto em se jogar sabendo que existe chão. Não falo de certezas — certezas são para quem teme a vida. Falo do chão que nasce dos próprios pés, esse solo íntimo que a gente aprende a cultivar depois de tantas quedas que já nem sabemos mais qual doeu primeiro.
É libertador sentar no meio-fio sem medo de parecer deselegante. Elegância, no fim, nunca esteve na pose, mas na coerência interna. Prefiro o cimento quente da rua me lembrando que continuo vivo do que qualquer palco que exija um personagem. Às vezes é no meio-fio que o coração finalmente se endireita.
Vestir-se de si exige propriedade afetiva. É colocar no corpo — e na vida — as camadas exatas do que se é, mesmo quando isso desagrada expectativas alheias. Sustentar as próprias escolhas é um tipo de musculatura moral: dói no começo, treme no meio, mas mantém a coluna da alma ereta.
E nas crises, é preciso gentileza. Respeitar-se como quem protege algo precioso. Gritar pra dentro, chorar pra fora, respirar onde der. Permitir-se ser humano sem desmerecer a força que existe no próprio caos.
Nas dores, ser colo. Nas alegrias, ser testemunha. Em ambas, gostar de si como quem aprende, depois de tantas tentativas, que o amor-próprio não é um estouro, mas um sussurro persistente que nos chama pelo nome quando o mundo tenta nos esquecer.
A verdade é simples e devastadora: a vida não fica mais leve, é a gente que fica mais inteiro. E quando finalmente sabemos que há sempre um chão — mesmo que seja o das escolhas que sustentamos com o peito aberto — o salto deixa de ser risco e vira rito.
Rito de fé.
Rito de coragem.
Rito de ser exatamente quem se é.
CHEGASTES ATÉ AQUI.
Tu já percorreste tantos caminhos. Não, não é da idade que falo. Falo das braçadas que deste contra as correntes revoltas do oceano da existência. Falo das tempestades que enfrentaste quando ninguém via. Das noites em que o coração parecia um campo devastado. Das manhãs em que te levantaste sem vontade, mas te levantaste mesmo assim.
E chegaste até aqui.
Parece simples dizer isso, mas não é.
Chegar até aqui é um feito silencioso.
Neste exato momento, enquanto teus olhos percorrem estas palavras, reflite: o que significa este instante?
Este momento é o ponto de encontro entre tudo o que viveste e tudo o que ainda viverás.
Aqui estão reunidas as tuas derrotas e as tuas vitórias.
Aqui estão as lágrimas que derramaste por dores que pareciam eternas e aquelas poucas, porém preciosas, lágrimas de alegria que a vida te concedeu como flores nascidas entre os escombros.
Aqui estão os sonhos que se realizaram e os que ficaram pelo caminho.
Aqui estão as despedidas que dilaceraram tua alma e os encontros que devolveram luz aos teus dias.
Tudo isso vive neste instante.
Tu vieste do ontem.
Um ontem que já não pode ser alterado.
Um ontem que te feriu algumas vezes, mas que também te ensinou.
Um ontem que te roubou pessoas, ilusões e certezas, mas que, em compensação, entregou-te experiência, sensibilidade e profundidade.
E agora estás aqui.
Respirando.
Pensando.
Sentindo.
Existindo.
Talvez não da maneira que imaginaste quando eras mais jovem. Talvez carregando cicatrizes que ninguém conhece. Talvez ainda procurando respostas para perguntas que a vida nunca respondeu.
Mas estás aqui.
E isso possui uma grandeza que muitas vezes esqueces de reconhecer.
Teu amanhã chegará.
E quando chegar, provavelmente encontrará os mesmos céus, os mesmos desafios, as mesmas responsabilidades e muitos dos mesmos valores que hoje orientam tua caminhada.
Contudo, haverá uma diferença inevitável:
Tu já não serás o mesmo.
Nenhum ser humano atravessa um único dia sem ser transformado.
Mudam-se as idades.
Mudam-se os pensamentos.
Mudam-se os sonhos.
Mudam-se as prioridades.
Mudam-se as dores.
Mudam-se até mesmo os amores.
Mas existe algo que permanece crescendo silenciosamente dentro de ti:
A vastidão que construíste através de cada escolha.
Cada renúncia.
Cada gesto de bondade.
Cada erro reconhecido.
Cada perdão concedido.
Cada vez que decidiste continuar quando desistir parecia mais fácil.
A verdadeira riqueza de uma existência não está naquilo que ela acumulou, mas naquilo que ela se tornou.
Por isso, não te diminuas.
Não te definas apenas pelos fracassos.
Não te condenes pelas quedas.
As montanhas não são feitas apenas dos seus cumes. São feitas também dos vales, das fendas, das pedras quebradas e dos precipícios que as compõem.
Assim também és tu.
Uma obra em construção.
Uma alma que ainda aprende.
Uma consciência que ainda floresce.
Um viajante que continua atravessando estradas visíveis e invisíveis.
Se hoje estás cansado, descansa.
Se estás ferido, permite que o tempo e a esperança trabalhem em teu favor.
Se estás desanimado, recorda quantas vezes acreditaste não conseguir prosseguir e, ainda assim, prosseguiste.
Olha para trás não para viver no passado, mas para contemplar a distância que já percorreste.
Olha para frente não com medo, mas com a serenidade de quem já sobreviveu a inúmeras tempestades.
E, acima de tudo, honra este instante.
Porque a vida acontece aqui.
Neste exato momento.
Neste respirar.
Neste pulsar.
Neste pequeno fragmento de eternidade chamado presente.
E enquanto houver um único sonho em teu coração, uma única semente de bondade em tua alma ou uma única centelha de esperança em teu espírito, tua jornada continuará possuindo sentido.
Portanto, segue.
Com lágrimas, se for necessário.
Com passos lentos, se assim precisares.
Mas segue.
Porque a história que te trouxe até aqui é prova de que existe em ti uma força muito maior do que imaginas.
E a vastidão que construíste ao longo da caminhada ainda não encontrou seus limites.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
O homem de ego frágil, no fundo se sente superior para não deixar a guarda do falo frágil, condená-lo, pelo tamanho mínimo do seu cérebro.
Minha voz ganhou tom de autoridade serena, falo o necessário, faço o suficiente, o mundo foi acostumando-se ao meu ritmo.
A persistência é a linguagem que mais domino, falo pouco, faço sempre, os resultados traduzem o meu discurso.
Falo com a minha sombra como se fosse confissão. Ela não responde com palavras, mas conhece meus segredos. Permanece quando todos os outros vão, como testemunha muda. Às vezes a abraço e sinto que as coisas podem voltar a ser. Outras, a empurro e desejo que se torne apenas um traço.
A honestidade comigo próprio é o gesto mais revolucionário. Não falo para impressionar, falo para ordenar a casa. Quando digo a verdade interna, coisas velhas deixam de controlar. É como abrir portas por dentro para que a luz entre. E então o mundo externo se rearranja em conformidade.
Minha alma cansou de avisos ignorados, hoje falo menos e observo mais, a verdade aparece sozinha, para quem sabe ver, eu sei.
Quando a dor parece ocupar toda a sala, eu falo com ela como a um parente. Pergunto seu nome, ofereço café, faço perguntas óbvias sobre seu humor. Às vezes ela responde com socos, outras, aceita sentar e dividir o jornal. Descubro que humanizar o sofrimento é um modo de domesticar o desespero.
Quando a noite se senta ao meu lado, não falo. Ouço-a dizer o que minhas palavras não alcançam. Ela traz histórias de quem caminhou antes de mim. E entre as histórias, encontro uma trilha de volta. Sigo os passos, mesmo sem saber o destino.
Não falo palavras bonitas como o Cazuza
Não sou tão bonito como o Leonardo Dicaprio
Falei algumas besteiras e tirei sua blusa
E te enlouqueci dentro do meu quarto...
Primeiro, eu escuto;
Segundo, eu entendo;
Terceiro, eu falo.
Se a ordem é ao contrário disso, ninguém se compreende.
Só para deixar claro e evitar expectativas ou ilusões:
O que eu falo é o que considero óbvio, é uma reflexão do que sinto no momento, algo que faz sentido para mim, que tem profundidade e sentimento, com base em experiências que vivi, percepções que tive e tenho. Porém, é apenas o que eu externalizo, são desabafos. Quem quiser tirar proveito disso, que tire, mas para mim, é apenas um alívio de algo que carrego dentro.
Agora, o que eu sou, minha personalidade, meu verdadeiro eu, é algo diferente. Não sou santo, mas também não sou cruel. Sou o que sou, sou aquilo que estou sendo no momento. Não sou uma única coisa para sempre, não me limito a ser apenas uma coisa, pois estou em constante mudança. Só quem realmente me conhece sabe disso.
