Fabio de Melo Acaso Deus Felicidade
É como um útero cinza que habito:
ar, água, vias de sangue
circulam entre mim e sonhos.
Ruas se entrecruzam
com alguma surpresa:
trompas.
Na esquina, pode estar
qualquer forma de claustro, desespero,
antes mesmo do fim:
ovário.
A indiferença se disfarça de beleza, proximidade:
religiões, bares, barracas
de comida urbana disputam convivas.
O tempo não nos absolve
dessa correria encardida.
Dias nos fazem deixar um pouco do que somos
para trás:
placenta em lixo hospitalar.
Relicário
Animado com a nova compra,
abre a caixa branca,
geométrica,
como relicário:
retira plástico, papel, película
que recobre o produto, manual,
tomada, fone e tela de vidro.
Ligado em 127 volts, é o primeiro
olá que recebe hoje.
ÁLGEBRA
A vida se mede com alguns cálculos:
anos em dezenas;
propriedades em metros;
dinheiro em milhares;
amores em bodas,
mas a medida vaga do sorriso
se perde entre alaridos.
Desde tempos distantes
gostamos de juntar comida,
pilhas, roupas, vinho;
nosso cérebro vestiu essa fantasia.
Acreditamos que ao juntar,
medir, sistematizar;
marcaremos um tempo
para além do que nos foi entregue
em frágil vidro.
Esquecemos, entretanto, que ele
já veio trincado..
Sós
Olhar perdido
dizendo:
a vida é assim mesmo.
Entre vazamento de tubulação na via,
lixo incendiado na calçada,
calor, som de carro
no lava a jato,
me explica o menino,
de talvez
dez anos.
Rosto
De espelho em mãos,
observa cada detalhe.
Traços esquecidos e ainda vindouros
carregam igual geometria:
bolsa sob os olhos,
pêlos ressaltados,
boca diminuta.
Segmentos de aurora e ébano
se igualam:
tantas faces habitam um rosto.
Realidades comuns nos nossos dias, em que as pessoas se tornam incapazes de romper com as forças que as destroem. Perdem o amor próprio, deixam de olhar o que amam; desamparam-se aos poucos até perder o senso de direção.
So o amor pode nos socorrer de nossas miserias.So ele pode nos alcançar no fosso de nossas vergonhas o que me redime e o amor que amo porque nele Deus me encontra com seu poder de complementos.
O melhor jeito de encaminhar uma criança para a maturidade, é você deixá-la brincar com jogos que tenham regras.
Se te escondes em tuas ilusões
E te ocultas naquilo que não és
Perderás a vida e não verás
A beleza de ser o que tu és
Príncipe encantado tem unhas encravadas! Pede pra ele tirar as botinhas dele pra você ver! Tem suvaqueira de vez em quando, mal hálito quando acorda.
A paixão é a supressão temporária de 98% dos recursos da inteligência.
Durante a fase aguda da paixão a pessoa perde totalmente o senso de realidade, passando a ser guiada pela imaginação.
Quando utilizamos a religião para justificar nossos ódios e preconceitos, privamo-nos de encontrar no outro a verdadeira face de Deus.
Amamos melhor quando nos livramos da pretensão de comandar a vida alheia. Exigir que o outro corresponda ao que esperamos, ainda que isto o negue em sua identidade, é a prova de que somos comandados pelo egoísmo.
Deixar partir também é ato de amor.
Amor que não se submete ao crivo da razão pode se tornar servidão. A doação ao outro nunca pode supor a supressão do amor próprio.
Só no exercício da liberdade amamos verdadeiramente.
Ao dizer o que sentimos aceitamos o risco de que o sagrado do sentimento seja banalizado. Convém o silêncio. Nem tudo a palavra sabe dizer.
