Eu Vou mais eu Volto meu Amor
Sem a esperança de uma dor ainda maior, eu não poderia suportar esta de agora, mesmo que fosse infinita.
Eu odeio a classe média até o fim dos meus dias.
Para sobreviver a esse jogo, beber ajuda bastante, embora eu não recomende para muitos. A maior parte dos bêbados que conheço não são muito interessantes. Claro, a maior parte das pessoas sóbrias também não.
Eu prefiro certamente falar com um gari, um encanador ou um chapeiro a falar com um poeta. Eles sabem mais dos problemas comuns e das alegrias comuns de se estar vivo.
Meus dias, meus anos, minha vida viram altos e baixos, luz e trevas. Se eu escrevesse apenas e continuamente sobre a “luz” e nunca mencionasse o outro lado, então como artista eu seria um mentiroso.
Eu não quero criar regras, mas se existe uma, é essa: os únicos escritores que escrevem bem são aqueles que precisam escrever para não enlouquecer.
O "eu te amo" deveria continuar tendo algum risco. Carregar uma mínima vertigem. Não ser dito como hábito, ser dito com menos frequência e mais perigo.
Se algum ser ou deus magnânimo não gostasse do jeito ou da forma como eu vivo, seria ele, com sua onisciência e onipresença, a me dizer isso — não um ser imperfeito como você.
1400 dias dizendo "eu te amo", e me digas: para qual propósito?
Amamos alguém por um tempo,
desejando sonhos um ao outro,
para, no fim, carregar o peso, o fardo,
todos os nossos sonhos, sozinho.
Aqueles beijos,
seu cheiro,
aquele seu belo cabelo preto.
Não poderei mais tocá-lo.
Cartas de amor foram jogadas em seu jardim;
sobre as folhas ficaram.
Aquele dia,
apenas mais um dia hoje em dia.
Esforços,
lágrimas,
palavras,
tinta,
grafite,
todos jogados fora.
Rosas congeladas e murchas
no fim de um profundo trilho,
para um dia afogar meu bobo coração.
Seus olhares já não me pertencem,
pois não olham mais para mim.
1400 dias.
Cada dia que me foi passado ao seu lado,
agora,
lembranças de um simples passado.
Foi-se tão rápido.
Obrigado, Vininha!
Se eu te dissesse que te amei todo este tempo
E que agora me livrei desse sentimento sufocante...
Quando soube do casamento e da gravidez,
Veio-me um alívio: finalmente aquilo não acontecia comigo,
Como sempre fora nos meus sonhos.
Se eu dissesse que, nos meus sonhos, você estava presente —
Mas não você de agora, e sim a de outrora.
Você e todo o nosso espetáculo a dois, entrelaçados na alma e na cama.
Se eu dissesse o que realmente deveria ter dito,
Sei que agora já não faria sentido.
Senti aqueles dias ao longo de todos esses anos,
Dormindo ou acordado.
O universo era pequeno demais para o que vivemos;
Todo o resto não tinha importância.
Não é de todo mal, pois, apesar dos nossos erros e da incompatibilidade,
Finalmente entendo o Soneto de Fidelidade.
Creio que seja sobre isso: sobre esse sentimento que trouxe felicidade
E que, mesmo depois de terminado, perdurou,
Transformando a dor em devoção solitária.
DRAL
Sempre me encontro comigo mesmo nas coisas que eu já escrevi. Como pude ser tão velho e sábio anteriormente e, agora, tão jovem e curioso? Todos esses eus não dependem do tempo, estamos todos aqui.
Droga
A minha casa eu conheço há tempos. E ela sempre fica maior. Já sonhei sonhos de álcool, mas ao primeiro gole eu vi que não era nada disso, era algo deprimente até na alegria forçada. Como se eu fosse uma múmia química ganhando a consciência da minha pequenez e do enjoo misturado com a tontura. Parei por aí e deixei as drogas antes de começar a usá-las. A minha droga é a imaginação e a sensibilidade. Os sonhos que me vêm da massa de árvores verdes acinzentadas. Das manchas do teto e daquele facho de luz quando estou na cama e olho para cima e vejo que é Deus.
Sim, Deus vem toda a noite por sobre a minha cama e toma a forma de um triângulo de luz amarela, silencioso e imutável. É um raio de luz, e eu sei que é Deus. Poderia ser qualquer outra coisa, mas quando eu levanto os olhos ele se revela e fico a pensar e admirar a sua imperfeição. As noites de insônia são muito estimulantes. Eu viajo e mantenho contato telepático com a pessoa ao lado. Uma vez eu pensei que dormia ao lado de um demônio, e eu tinha razão. Que saudades do súcubo!
Agora
As pessoas vivem muito, embora só existam por um dia. Assim pensava eu, na poltrona, tentando descrever as sensações da tarde. Os ruídos da rebelião e do caos soavam lá fora e eu percebi que o ódio e a visão pessimista, que eram minhas, haviam se espalhado pelo mundo. Eu tinha medo pelo meu temperamento e aonde ele iria me levar, certamente longe daqui.
Temos apego à inércia e tememos o desconhecido. Quando a chuva fria chegou para acalmar os ânimos, parecia que Deus tinha se arrependido e procurava reverter a situação em que todos tinham perdido as estribeiras. Gritos, urros dos policiais contra a falta de dinheiro, o mundo havia deixado de ser familiar. Sentado aqui, eu examinava o funcionamento da vida. Parece que, a cada dia nascemos ao despertar e, no final, com o sono, morremos, para renascer no outro dia. Só que, ao nascer já éramos outros, melhorados. É uma bela ideia, mas, se formos humildes temos consciência da nossa ignorância. O que sabemos é que pela manhã acordamos com impressões vagas, fragmentos de sonhos, com um humor inexplicável que se manteve até agora. Temos muitos preconceitos para entender isso, e o preconceito errado: o de que eu posso antecipar e prever o que acontecerá até o fim do dia. Se nos basearmos em tudo o que sabemos, o que é muito, mas inútil, a vida começa pela manhã, transcorre pelo dia e termina quando dormimos. Isso é tudo. Mas, o que podemos saber, ao admitirmos a nossa completa ignorância? O que haverá daqui a um instante se a vida cabe num suspiro, como a gota que desgasta o rochedo?
