Eu sou o q sou Mesmo Caindo me Levanto Sempre
Sempre que a igreja se deitar com o Estado e seu braço armado, há que se esperar qualquer coisa, inclusive o trisal parir uma aberração.
Sempre que a saudade desiste de fingir costume e me abraça um pouco mais apertado, o que me consola é a gratidão e a certeza do azar de ter tido tanta sorte.
Sempre houve, há, e infelizmente sempre haverá pessoas inidôneas em todas as searas profissionais.
Especialmente nas que são intrínsecas às nossas necessidades mais básicas.
Quer seja na Saúde, na Educação, na Segurança…
Ou até na seara Religiosa.
Esta última, infelizmente, é a que abriga os mais apaixonados.
Nela, se não fossem os inidôneos, talvez o próprio Cristo não tivesse experimentadoa mais medonha sinergia das fúrias humanas: perseguição, entreguismo e crucificação.
E para sustentar a premissa de que o crime jamais se sustentaria sem a coparticipação de parte do Estado — e de uma esmagadora parcela do povo —, há a retroalimentação do fanatismo.
Apaixonados que passam pano para desvios de conduta das suas paixões.
Ninguém do povo, com ao menos dois dos oitenta e seis bilhões de neurônios ativos,
deveria acreditar cegamente
que líderes religiosos e profissionais da segurança
são sinônimos de idoneidade.
Isso é mau-caratismo, capricho, fanatismo — ou ambos.
Foi-se o tempo das vocações…
Elas ainda existem, é verdade!
Mas os verdadeiros vocacionados são muito raros.
Nos bons e velhos tempos, poucos se vendiam.
Líderes religiosos eram quase sinônimo de santidade,
e policiais — de honestidade.
Infelizmente, a vocação levou uma rasteira da vaidade —
e muita coisa mudou.
E, infelizmente, para pior.
Hoje, o que se vê
é quase pura vaidade pela carreira, pelo status quo.
Só temo pela molecada…
E, pasmem, chamá-la de Nutella é bem mais fácil que ao menos tentar ser exemplo!
Ela segue cada vez mais sem norte,sem ter no que — e em quem — se espelhar.
Nos bons e velhos tempos em que muitos Moleques queriam ser Homens, não havia tantos homens fazendo papel de moleques.
Sempre que as certezas se atreverem a flertar com a nossa Liberdade de Pensar, que a dúvida nos abrace! Amém!
Porque é no abraço da dúvida que o pensamento, livre, leve e solto, respira — livre do jugo das respostas prontas, longe do conforto das verdades fabricadas.
A dúvida não é inimiga da fé nem do saber; é o ventilador da consciência, o sopro que impede que o pensamento apodreça no mofo das convicções.
As certezas constroem muros, a dúvida, pontes.
A certeza se alimenta da repetição, a dúvida, da curiosidade.
A convicção grita, a dúvida escuta.
E se o mundo parece girar ao som das certezas, é apenas porque poucos ainda têm coragem de dançar ao ritmo incerto da dúvida.
Que nós nunca nos acostumemos com o conforto das respostas — e que a nossa liberdade de pensar por conta própria seja sempre maior do que a vontade de estar certo!
Amém — mas com o coração movimentado e aquecido pela dúvida.
Espero que em meio de tanta (Cão) fusão, onde — quase sempre — a Arrogância, a Prepotência e o Autoritarismo se confundem com Bravura, a Vingança com Justiça e o Discurso de Ódio com Liberdade de Expressão — a Desumanização não se confunda com Demonização.
A Janela do Discurso sempre se moveu pelas Mãos Invisíveis das Narrativas.
Se reinventar já era mais do que esperado…
Mas nada foi tão Medonho quanto a vê-la se valer da “Idoneidade Policial” e da “Fé Religiosa”.
A Janela de Overton — esse mecanismo silencioso e traiçoeiro que define os limites do que é socialmente aceitável — sempre se moveu pelas mãos invisíveis das narrativas.
Ideias outrora impensáveis se tornam plausíveis, discutíveis, desejáveis… e até aceitáveis.
Nada disso é novo.
Mas há deslocamentos que ultrapassam o jogo das ideias: eles tocam em pilares que, uma vez manipulados, comprometem a própria estrutura da convivência civilizada.
Nada foi tão medonho quanto assistir a essa janela se valer da “Idoneidade Policial” e da “Fé Religiosa”.
Ambas, por natureza, deveriam inspirar confiança — não manipulação.
Quando começam a ser usadas como régua para definir quem merece voz, respeito ou até mesmo existência, o que está em jogo não é mais apenas a opinião pública: é a própria noção de justiça e espiritualidade.
A confiança na justiça perde o chão quando o discurso sobre “idoneidade” é moldado para blindar abusos e silenciar denúncias.
E a fé, que deveria acolher, se torna instrumento de controle quando usada para validar narrativas de exclusão, discurso de ódio, intolerância ou superioridade moral.
Quando a Janela do Discurso se move por esses vetores, não estamos apenas assistindo a uma mudança de ideias.
Estamos permitindo que conceitos sagrados e instituições essenciais sejam descaradamente arrastados para a seara da manipulação.
Toda e qualquer forma de manipulação é ruim, mas valer-se das autoridades presumidas para inviabilizar o debate e a crítica é de uma sordidez sem precedentes.
E isso, sim, é digno de temor.
Tenho medo…
Sempre que
oTempo Trabalhado estende o tapete paraa Arrogância desfilar, erros são Ignorados —Minimizados ou Romantizados.
Quando o “tempo de serviço” passa a ser usado como 'Currículo Moral', algo se perde à beira do caminho.
A experiência, que deveria ensinar humildade, acaba estendendo um tapete vermelho para a Arrogância desfilar a fantasia de mérito.
E, nesse espetáculo, os erros deixam de ser mestres severos para se tornarem figurantes das conveniências.
O que antes exigia revisão, agora se justifica pela “bagagem”.
O que cobrava correção é minimizado pelo “histórico”.
E o que deveria causar constrangimento acaba sendo romantizado como traço de personalidade ou preço do sucesso.
Assim sendo, o tempo deixa de lapidar e passa a blindar.
Mas tempo não absolve falhas, só as revela com mais nitidez.
Quanto mais longa a caminhada, maior deveria ser a capacidade de reconhecer tropeços e aprender com eles.
Quando isso não acontece, o problema já não é o erro em si, mas a vaidade que lhe empresta as sandálias medonhas para desfilar.
Porque Experiência sem Autocrítica não é Sabedoria — é apenas a repetição confortável dos mesmos equívocos, agora amparados pelo tic-tac do relógio.
Não é sobre ter 10, 20 ou 30…
É sobre ter plena consciência de que errar é um risco inerente aos que se entregam, aos que fazem, aos que vivem.
E corrigir erros é permitir-se muito mais humano!
“Moleques meninos”
mal alimentados por muitos sim, quase sempre viram esses
homens moleques.
Os furiosos que rejeitam todos e quaisquer nãos.
Com tanto sim, atravessado goela abaixo — sim, ao ego, sim, à impunidade, sim, à ideia de que o desejo masculino é prioridade — muitos “moleques meninos” cresceram mal alimentados do essencial: frustração, limite e escuta.
Não aprenderam cedo que o não jamais é afronta, mas fronteira, limite…
Não é humilhação, é linguagem.
Não é convite à fúria, é exercício de humanidade.
Criados à base de concessões e silêncios forçados, confundiram afeto com posse, insistência com direito e desejo com autorização.
E quando o mundo — especialmente as mulheres — ousa lhes negar algo, reagem como quem teve o prato retirado, não como quem foi chamado à maturidade.
O homem moleque não rejeita só o não: rejeita o espelho que ele oferece.
Porque todo não bem colocado revela o que falta — e encarar a própria falta exige mais coragem do que gritar, ameaçar ou ferir.
Não, nem é só não, como dizem os muitos que fingem preocupação com as mulheres do nosso país…
Talvez uma das maiores e principais urgências do nosso tempo não seja ensinar mulheres a dizer não, mas ensinar homens a sobreviver a ele.
Porque o não, quando respeitado, educa.
Quando ouvido, humaniza.
E, quando aceito, transforma moleques famintos em homens capazes de conviver — e não de dominar.
Enquanto isso não acontece, o “Não” seguirá sendo resistência.
E a reflexão, uma necessidade inadiável.
Não é humano a aceitação medonha de que mulheres continuem sendo desumanizadas — no Brasil e no mundo — por causa de um “Não”.
Os que confundem alegria com euforia e comemoração com rojão, quase sempre ignoram qualquer coisa…
Inclusive os gemidos dos corredores de um hospital.
Há quem acredite que a alegria só se prova no estrondo, que a celebração precisa ferir o silêncio ensurdecedor do outro para existir.
Confundem euforia com plenitude, barulho com sentido, rojão com gratidão.
E, nessa mesma confusão ruidosa, seguem cegos para quase tudo — inclusive para os gemidos baixos que ecoam nos corredores de um hospital.
Ali, onde o tempo anda quase sempre mais devagar e a esperança aprende a respirar em doses mínimas — quase a conta-gotas — não se pede festa, mas introspecção e respeito.
O problema não é atravessar o réveillon entre leitos, soros e orações sussurradas.
O que dói é saber que, do lado de fora, há quem precise assustar para se sentir vivo, incomodar para acreditar que está celebrando, ignorar para não ter de sentir.
Enquanto alguns estouram fogos, outros lutam para não estourar por dentro.
Enquanto uns anseiam pelo ano novo, outros tentam apenas continuar no ano que ainda não acabou.
E talvez a maior das misérias não seja a ausência de festa, mas a ausência de sensibilidade.
Porque a alegria que precisa ferir o outro para existir, já nasceu vazia.
E toda comemoração que não cabe no silêncio respeitoso diante da dor alheia não passa de barulho — alto, breve e profundamente oco.
Aos que respeitam o outro — especialmente os enfermos, autistas, bebês, idosos e os animais — Feliz Ano Novo!
No santuário do silêncio, o barulho quase sempre fica por conta das lágrimas — contidas ou derramadas.
Lá não há necessidade de palavras bem escolhidas nem de explicações convincentes.
Ali, o que fala é o que transborda — ou o que dói ainda mais para não transbordar.
O barulho fica por conta das lágrimas, contidas ou derramadas.
Porque até o silêncio tem um idioma próprio, e ele quase sempre é aprendido na dor.
Há lágrimas que escorrem sem pedir licença, e há outras que permanecem presas, não por falta de sentimento, mas por excesso dele.
Ambas fazem ruído suficiente para quem sabe escutar com a alma.
Não é fraqueza chorar em silêncio; é coragem permitir-se sentir sem a plateia, sem o espetáculo, sem a pressa de parecer forte.
No santuário do silêncio, Deus não se assusta com o som ensurdecedor das lágrimas.
Ele entende o que a boca não consegue formular e recolhe cada soluço invisível como oração.
Porque, quando tudo se cala ao derredor, o coração encontra espaço para falar — e o céu, para escutar e até responder.
Felizes os que choram, porque serão consolados!
Quase sempre que as Provocações calçam as sandálias da sutileza, o Escândalo só engorda a conta das Reações.
A sutileza não grita, não arromba portas, nem pede licença para existir; ela apenas se insinua no pensamento de quem está disposto a enxergar além do ruído.
Mas é justamente por não berrar que ela incomoda.
Num mundo acostumado a reagir antes de compreender, o silêncio inteligente de uma provocação sutil costuma ser interpretado como afronta.
A sutileza tem o estranho poder de revelar mais sobre quem reage do que sobre quem provoca.
Ela funciona como um espelho discreto: não obriga ninguém a se olhar, mas oferece o reflexo.
E muitos, ao se reconhecerem ali, preferem quebrar o espelho em forma de escândalo do que lidar com aquilo que ele mostra.
É nesse momento que a provocação deixa de ser apenas uma ideia e passa a ser um fenômeno social.
As reações se multiplicam, os indignados se organizam, os intérpretes apressados produzem versões, e a sutileza inicial vai sendo soterrada por camadas de barulho.
No fim, pouco se discute o que foi dito — discute-se apenas o tamanho da indignação que aquilo gerou.
Talvez porque a sutileza exija algo cada vez mais raro: pausa.
Ela pede reflexão antes da reação, interpretação antes do julgamento.
Só que a lógica dominante prefere o contrário — reagir rápido, opinar alto e pensar depois, se ainda restar algum interesse.
Assim, muitas vezes, a provocação sutil não fracassa; ela apenas revela o ambiente em que caiu.
E quando o terreno é fértil em impulsos e pobre em reflexão, o escândalo floresce com mais facilidade.
Não porque a provocação foi grande demais, mas porque a capacidade de escuta ficou pequena demais para a delicadeza das ideias.
Onde parece mais fácil culpar a vítima, quase sempre se romantiza a separação, mas nunca se normaliza o direito da mulher viver depois dela.
Há uma curiosa habilidade social em transformar rupturas em narrativas poéticas quando elas não nos ameaçam.
Fala-se da separação como um recomeço bonito, como um gesto de coragem, como um capítulo necessário da vida.
Mas essa romantização costuma durar apenas até o momento em que a mulher decide, de fato, viver depois dela.
Viver com autonomia, viver sem pedir licença, sem aceitar voltar para o lugar onde a violência, o controle ou o desprezo estavam naturalizados.
Nesse ponto, a poesia desaparece e começa o tribunal informal das culpabilidades.
Perguntam o que ela fez, o que deixou de fazer, o que provocou…
O que poderia ter suportado mais um pouco.
A mesma sociedade que aplaude discursos sobre liberdade, passa a exigir dela uma espécie de penitência silenciosa por ter rompido.
Porque, no fundo, há uma conveniência histórica em romantizar a separação — desde que ela não desorganize as estruturas em que sempre esperaram que as mulheres permanecessem.
Romantizar a separação é confortável.
Normalizar que uma mulher tenha o direito de continuar viva, inteira e livre depois dela é profundamente desconfortável para quem sempre precisou que ela permanecesse dependente, culpada ou quebrada.
Por isso, em muitos casos, não se discute a violência que antecedeu a ruptura, mas o comportamento da mulher que decidiu não morrer — nem física, espiritual ou emocionalmente.
E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro problema: ainda há quem tolere a ideia da separação, mas não suporte a ideia da sobrevivência feminina que vem depois dela.
Porque uma mulher que continua viva, consciente e livre depois de sair de uma relação, deixa de ser personagem de tragédia… e passa a ser autora da própria história.
As Algemas não seriam só um Detalhe para acariciar o Ego de uma Sociedade quase sempre Algemada?
Talvez o fascínio pelas algemas não esteja no aço frio que restringe os pulsos, mas no calor simbólico que conforta consciências inquietas.
Há algo de profundamente revelador na forma como celebramos o ato de prender — como se, ao assistir alguém ser contido, experimentássemos uma ilusória sensação de ordem, de justiça cumprida, de mundo corrigido.
Mas, e se essas Algemas, tão aplaudidas quando estão nos outros, forem apenas o reflexo de correntes mais sutis que carregamos sem perceber?
Vivemos cercados por Prisões que não fazem barulho: crenças que não ousamos questionar, narrativas que adotamos como verdades absolutas, paixões políticas que sequestram a razão.
Algemas invisíveis, porém muito mais eficazes — porque não nos provocam incômodo suficiente para desejar liberdade.
Nesse cenário, o Espetáculo da Punição cumpre um papel curioso: ele distrai.
Ao focarmos no “culpado” da vez, deixamos de encarar os mecanismos que nos aprisionam coletivamente.
A indignação seletiva vira entretenimento.
E o rigor, quando conveniente, vira virtude.
Talvez por isso as algemas — no outro — seduzam tanto.
Elas oferecem a confortável ilusão de que a liberdade é uma condição natural — e que só alguns poucos, os “outros”, precisam ser contidos.
Mas uma sociedade que se acostuma a aplaudir correntes deveria, antes de tudo, desconfiar da leveza com que movimenta as próprias mãos.
Porque o verdadeiro cárcere não é aquele que limita o corpo, mas o que Anestesia o Pensamento — e esse, quase sempre, dispensa Algemas Visíveis para cumprir seu papel.
No Universo Polarizado, há sempre mais que meia verdade: a verdade da Esquerda, a da Direita — e a Verdade.
O problema é que, na pressa de pertencer, muitos já não buscam a Verdade — escolhem apenas o lado onde ela parece mais confortável.
E assim, a verdade deixa de ser um ponto de encontro para se tornar uma arma de afirmação.
Cada grupo a molda, a recorta, a edita, até que ela caiba perfeitamente em suas convicções — ainda que para isso precise amputar fatos, contextos e nuances.
A verdade da Esquerda, muitas vezes, carrega a urgência das causas sociais, o clamor por justiça e igualdade.
Mas, quando absolutizada, pode cegar-se até para suas próprias contradições.
A da Direita, por sua vez, frequentemente se ancora em valores de ordem, liberdade individual e tradição, mas também corre o risco de ignorar as complexidades humanas que não cabem em suas premissas.
E então há a Verdade — essa entidade incômoda, indomável, que não se curva a ideologias nem se adapta a narrativas convenientes.
Ela exige desconforto.
Exige dúvida.
Exige a coragem de admitir que, às vezes, o outro lado pode ter razão em algo — e que nós também podemos estar errados.
Mas em tempos de certezas barulhentas, a dúvida virou fraqueza, e a escuta, quase uma traição.
Assim, seguimos acumulando versões da verdade, enquanto nos afastamos cada vez mais dela.
Talvez o maior ato de coragem hoje não seja defender um lado, mas sustentar a inquietação de quem ainda está disposto a procurar a verdadeira verdade.
Porque a Verdade — a de fato — não grita, não milita e nem se atreve a se impor.
Ela se revela, lentamente, àqueles que ainda têm humildade intelectual suficiente para não possuí-la por completo.
Sempre que mulheres feminilizam pejorativamente um homem, mais monstruoso o machismo se torna, e elas nem percebem.
Há, nessa contradição silenciosa, uma das faces mais complexas e difíceis de enfrentar dentro das estruturas sociais: o machismo não é apenas um comportamento externo, imposto de maneira evidente por figuras tradicionalmente associadas ao poder, mas também um padrão internalizado, reproduzido muitas vezes — consciente ou inconscientemente — por aqueles que, em teoria, deveriam combatê-lo.
Quando características associadas ao feminino são utilizadas como insulto — seja para diminuir, ridicularizar ou desqualificar um homem — o que está sendo reafirmado, no fundo, é a velha hierarquia que coloca o feminino como inferior.
Não se trata apenas de um ataque ao homem em questão, mas de uma reafirmação simbólica de que tudo aquilo que se aproxima do feminino é digno de desprezo.
E, nesse gesto aparentemente banal, perpetua-se a lógica que o próprio feminismo busca desconstruir.
O mais inquietante é que esse tipo de comportamento muito raramente é percebido como problemático.
Ele se esconde no cotidiano, nas piadas, nas expressões corriqueiras, nos comentários feitos sem reflexão.
E justamente por isso se torna tão poderoso: porque não encontra resistência.
Ao contrário, encontra eco, risos, validação — e assim se fortalece.
Combater o machismo, portanto, exige mais do que identificar seus agentes mais evidentes.
Exige um exercício constante de autocrítica, de revisão de linguagem, de questionamento de hábitos profundamente enraizados.
Exige reconhecer que ninguém está completamente fora dessa estrutura, e que todos, em maior ou menor grau, podem reproduzi-la.
Não se trata de apontar culpados, mas de ampliar a consciência.
De entender que a transformação social passa, inevitavelmente, pela transformação individual.
E que desconstruir o machismo estrutural não é apenas enfrentar o outro — é também confrontar a si mesmo, nas pequenas atitudes, nas palavras escolhidas, nas ideias que repetimos sem perceber.
Porque, no fim, o machismo não se sustenta apenas pela força de quem o impõe, mas também pela repetição de quem, mesmo sem intenção, continua a alimentá-lo.
Nem Sempre é a Verdade que dói…
Às vezes o que dói é a Verdade diferir daquilo que desejamos.
Há uma espécie de conforto bastante silencioso nas narrativas que criamos para nós mesmos.
Pequenas versões da realidade sempre moldadas com muito cuidado, onde as coisas fazem mais sentido, onde somos mais compreendidos, mais justificados, mais certos.
Não necessariamente Mentiras — mas adaptações gentis do mundo para que ele caiba melhor dentro de nós, das nossas vontades.
O problema não está na Verdade em si.
A Verdade, muitas vezes, é apenas o que é — nuą e crua, neutra, indiferente aos nossos desejos.
O que realmente fere é o desencontro entre aquilo que esperamos e aquilo que se revela.
É o abismo entre o que gostaríamos que fosse e o que, de fato, é.
Dói perceber que nem sempre somos aquilo que imaginamos.
Ter que aceitar que certas pessoas não nos veem como gostaríamos é muito doloroso.
Dói entender que alguns caminhos não levam ao destino que sonhamos, por mais que tenhamos caminhado com fé.
Não é a Verdade que machuca — é o luto das ilusões que ela desfaz.
Mas há, nesse incômodo, uma oportunidade muito rara.
Porque toda vez que a Verdade nos desorganiza, ela também nos oferece a Grandiosa chance de Reconstrução — mais honesta, mais consciente, mais real.
E, embora essa reconstrução seja menos confortável, ela costuma ser mais sólida.
Talvez Amadurecer seja exatamente isso: aprender a lidar com a Verdade sem precisar Distorcê-la para que ela nos agrade.
É aceitar que nem tudo precisa fazer sentido imediato, nem tudo precisa ser justo e aceitável aos nossos olhos, nem tudo precisa corresponder ao que sonhamos.
No fim, não é sobre evitar a dor, mas sobre entender sua honesta origem.
Porque quando percebemos que o que dói não é a Verdade, mas o rompimento com aquilo que desejávamos, passamos a enxergar com mais clareza — e, quem sabe, com mais coragem — o mundo como ele realmente é.
E isso, ainda que extremamente desconfortável, nos aproxima muito mais de quem realmente somos ou deveríamos ser.
A Verdade — diferir daquilo que queríamos — realmente dói.
Busque sempre fazer o seu melhor.
Viva intensamente.
Sorria e abrace os que estão ao seu lado.
Essa pode ser a sua última oportunidade.
Rótulos.
Desde que me reconheço como ser humano, fui rotulada por pessoas que sempre quiseram me pressionar a me calar, a me deixar em um lugar que nunca foi e nem será meu. Recebi o rótulo de complicada demais, de difícil de lidar; daquela que fala mais do que deveria e que se cala quando poderia falar.
Hoje, sou grata por todas as vezes que me rotularam, que tentaram me fazer desistir da minha autenticidade humana. Só o fizeram porque temiam a mulher que sei que sou! Aprendi a respeitar todo mundo, mas não aceito o desrespeito de ninguém; este é o motivo de tantos rótulos pairando sobre mim.
Jardim de Pragas Antigas
Era uma quinta feira normal, fui pra escola como sempre, sentei-me em minha carteira e esperei a aula começar. Tudo estava ocorrendo normal como todos os dias, conversas sem pausa, professores pedindo por respeito e alunos que não fechavam a boca por nada. Até que chegou a aula de sociologia, a professora estava lecionando sobre cultura, e entre uma palavra e outra trouxe o exemplo do carnaval, uma cultura muito forte no Brasil. Quando que do nada percebi os diversos comentários horríveis: ‘O povo que vai pro carnaval deve ir pro inferno’, ‘esse povo da Bahia, que cultua a macumba, é do demônio’. Isso e muito mais foi o que alguns meninos falaram. O clima ficou pesado, senti como se tivesse caído uma tempestade em cima de mim, a umbanda faz parte de mim, e escutar aquilo colocou-me no tão temido inferno que eles acreditam.
Fiquei pensando naqueles meninos, esses atos não são de agora, remetem ao passado, são como ervas daninhas em um jardim florido, mas que apesar de destruir todos os diferentes à sua volta, tem raízes profundas, tão fundas que remetem ao descobrimento das terras que conhecemos hoje. São plantas tão bem estruturadas que não são mortas com qualquer veneno, a cada novo ser que nasce nesse jardim, ele é brutalmente infectado, fazendo-o proferir a mesma praga de seus antecessores. Aqueles que não são contaminados, sofrem com essa praga, combatem-na com toda a sua força, são pessoas que ainda acreditam na salvação desse canteiro. Esses novos seres que nascem, são os únicos que podem acabar com o padrão de contaminação, já que estas plantas jovens têm seus caules mais puros e se olhassem para outro lado, poderiam se agarrar em vegetações firmes, assim seriam livres dessas ervas daninhas.
O silêncio ecoava pelos corredores, era uma quietude que doía e ao mesmo tempo ardia na alma, tudo aquilo estava sem controle, nenhuma palavra vinha para acalmar aquela tempestade, e nem se quer uma tentativa de segurar aquelas pragas. Tudo estava já danificado, eu teria de ser forte, já que ninguém estava lá para arrancar as ervas daninhas. Mas mesmo que calassem-nas, não adiantava mais, raízes profundas não morrem com o corte do caule, devem ser tratadas em essência.
Quando bateu o sinal para finalmente ir para casa, fechei a mochila e fui caminhando para casa. O peso da mochila era gigante, o silêncio amedrontador da escola misturado com todas aquelas ervas daninhas ao meu redor, e aquela tempestade imensa em cima da minha cabeça. Refleti o caminho todo, não sou como eles, pensei, e é isso que importa. Enquanto mergulham em águas turbulentas, eu vivo a minha fé, e caminho por jardins límpidos. Claro, tenho muita vontade de curar suas pragas, mas não sou capaz, só eles próprios podem acabar com um padrão imposto em seu interior. Só sei de uma coisa, algum dia a própria terra em que estão plantadas, cobrará o preço, o inverno chega e só fica quem é verdadeiro e saudável por dentro.
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