Eu e Voce de Luiz Antonio Gasparetto

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[19/3 15:15] Alinny de Mello: Agora, depois da segunda vez, é necessário rompimento.
[19/3 15:15] Alinny de Mello: Independente dos sentimentos
[19/3 15:15] Alinny de Mello: Eu gosto de escrever
[19/3 15:15] Alinny de Mello: Então serviria para as minhas inspirações melancólicas

Na vida, a gente não tem certeza de nada, só da partida, que ainda é incerta, porque não sabemos o dia, nem a hora.




Jesus falou isso, e todo mundo acha que se trata da volta dele, quando na verdade a metáfora se trata da morte.

[19/3 15:09] Alinny de Mello: Se a gente não tiver em paz e não for feliz por nós mesmos, ninguém vai conseguir fazer isso acontecer.
[19/3 15:10] Alinny de Mello: Eu já sou feliz.
[19/3 15:10] Alinny de Mello: Independente de tudo

[19/3 15:07] Alinny de Mello: Aprendi que ninguém precisa de ninguém para ser feliz.


O outro precisa nos encontrar feliz, para ser apenas o complemento.
[19/3 15:07] Alinny de Mello: Não devemos colocar todas as nossas cartas, nas mãos de outro humano
[19/3 15:07] Alinny de Mello: Todos somos errantes
[19/3 15:09] Alinny de Mello: Eu demorei muito para entender isso. Mas, quem ainda não sabe o que é felicidade, acha que precisa de outra pessoa, para fazer ela feliz. Quando na verdade, nós podemos já ser felizes com todas as nossas nuances.

Tô aqui com dor, mas logo se Deus permitir tudo vai ficar bem.

Leiam sempre o dicionário, e verifique a palavra certa no Google, para não passar vergonha na Internet.

Colecionar memórias é a forma mais bonita de viver. A vida é boa demais para passar despercebida, então eu escolho guardar momentos: risadas simples, conversas inesperadas, pequenos instantes que aquecem o coração. No fim, são essas lembranças que contam a verdadeira história de quem somos e do caminho que percorremos.

Ter um porto seguro muda tudo. É saber que, depois de qualquer tempestade, existe um lugar onde a gente pode respirar fundo, descansar o coração e recuperar as forças. Não precisa ser perfeito nem grandioso; basta ser verdadeiro. Um porto seguro é presença, é cuidado, é aquele espaço onde a gente se reconhece e entende que, apesar de tudo, nunca está sozinha.

Minha mãe, tinha uma vida difícil, filha de pais alcoólatras, casou com meu pai que sempre foi violento com ela, ela nunca estudou.
Na escola ela disse que chegou a ir, mas como precisava cuidar dos irmãos menores e ir para a roça trabalhar, ela parou, porque ela disse também que as mãos dela todos os dias voltavam vermelhas, porque era época da palmatória, e ela disse que doía muito, já era judiada pela vida e não ia para a escola mais, que ao invés de aprender, estava sendo espancada e torturada pela professora dela, na época. Então, hoje ela tem 55 anos. Perdeu todos os resguardos dos 5 filhos que teve, inclusive o pai dela obrigou ela a casar com meu pai aos 16 anos de idade. Então, ela na cabeça dela sempre sofreu dizendo que o casamento é para a vida toda, mesmo sendo torturada dia e noite.
Ela, é como uma criança.

A primeira filha dela nasceu morta, porque meu pai deu um chute na barriga dela, já estava com 3 dias em decomposição. Tempo de parteira. A parteira já falecida D. Jesus, salvou a vida dela.


Ela nunca se saiu dele, por obediência ao pai. Como eu disse, ela é igual uma criança.


Em todos os nascimentos dos outros filhos, ela se escondia dele para não ser morta.
Pulava cercas altas, após ser torturada com abusos psicológicos e agressões físicas, á noite inteira. Fugia, mas sempre teve medo de tudo e do mundo!! Porque nunca soube ler, nunca soube lidar com a insegurança dela. Muito ingênua.


Então, ela sempre retornava.

Ela teve muitos distúrbios psicológicos ao longo de mais de 40 anos, com meu pai.

Minha tia, irmã dele pagou a passagem do meu irmão, porque o dinheiro não dava para todos.


19 de fevereiro de 2009!!


Sexta feira de carnaval!!


Chegamos em Teresina Piauí!!


Sem dinheiro, sem rumo, sem nada.


4 da manhã!! Esperamos o dia amanhecer na rodoviária.


Ás 6, saímos!!


Eu tinha 10,00 todinho. Comprei de lanche para meus 3 irmãos e dividi entre eles. Eu e minha mãe, ficamos com fome.


Éramos mais fortes na fome.

A meta era chegar na assistência social, que ficava no centro.


Mas, não tínhamos nenhum dinheiro.


E, era torcer para não estar fechada.


Retornamos, ao outro lado da avenida, pedimos carona no ônibus até certa distância.
Um motorista muito legal, entendeu a situação e pediu para que a gente entrasse.


Entramos, ele deixou a gente há pelo menos umas 2 horas de onde queríamos estar.


Mas, ao dar meio dia, perguntando todos que apareciam pela frente onde ficava o local, conseguimos chegar...


Avistei o segurança...

Mas, antes disso, passamos um dia inteiro e a noite em Timon, em outro abrigo. Onde conheci histórias de crianças violentadas sexualmente.


Havia um garotinho que havia acabado de ser operado do ân*s, porque havia sido violentado por um vizinho. Ele tinha uns 2 aninhos de idade!!


Eu conheci esse lado do mundo, que até então, não fazia ideia que existia. Então, foi quando senti medo de seguir sozinha.


Então, o ônibus chegou e nos pegou ás 6 da manhã do dia seguinte.


Chegamos na nossa cidade, meio-dia!!


Eu desci do ônibus, e não olhei para trás!!


Eu não queria ver os olhos dos meus irmãos, tomados por dor e angústia.


Porque aqueles 28 dias, foram os dias mais felizes das nossas vidas.

A Bíblia não se oferece como um livro morto. Ela se comporta como um organismo simbólico. Suas histórias parecem simples à primeira vista, mas operam em camadas. Narrativas de pastores, reis, guerras, quedas, promessas, traições e redenções. Mas por trás da superfície histórica existe uma arquitetura psicológica e espiritual que continua se repetindo dentro de você e dentro de mim. Porque o jogo humano não mudou tanto quanto você gosta de imaginar. Mudaram as roupas, as ferramentas, os nomes. A estrutura interna permanece.


Quando você lê sobre o deserto, você não está lendo apenas sobre areia e calor. Você está lendo sobre períodos de escassez interna, sobre travessias sem garantias, sobre caminhar sem saber exatamente onde vai chegar. Quando você lê sobre o dilúvio, não é apenas água. É excesso. É saturação. É o colapso de um sistema interno que não se sustenta mais. Quando você lê sobre a cruz, não é só dor física. É confronto com limites, com escolhas irreversíveis, com o custo real de sustentar uma verdade até o fim.


E é aqui que o enigma começa a se aprofundar. Duas pessoas leem o mesmo trecho. Uma sente consolo. A outra sente confronto. Uma encontra esperança. A outra encontra acusação. Isso não acontece porque o texto é confuso no sentido vulgar da palavra. Acontece porque o texto funciona como um campo simbólico que ativa conteúdos internos diferentes em cada leitor e leitora. Ele não entrega respostas prontas. Ele provoca perguntas certas. E perguntas certas quase sempre incomodam mais do que respostas fáceis.

O erro comum é tratar a Bíblia como um livro que fala apenas sobre Deus. Ela fala também sobre você. Sobre seus mecanismos internos. Sobre seus padrões de fuga, de orgulho, de medo, de negação. Os personagens não são apenas figuras históricas. Eles são arquétipos psicológicos. O traidor vive em você. O justo vive em você. O covarde vive em você. O fiel vive em você. E o conflito entre eles é diário.


Quando alguém afirma que sua interpretação é a única correta, essa pessoa revela mais sobre sua necessidade de controle do que sobre o texto em si. A Bíblia não se submete ao ego humano. Ela o atravessa. Ela o expõe. Ela o relativiza. Não existe leitura neutra. Toda leitura passa pelo filtro da história pessoal, das feridas, das crenças, das defesas. Por isso, duas consciências diante do mesmo versículo jamais estarão no mesmo ponto.


Isso não significa que tudo é relativo ao ponto de não haver verdade. Significa que a verdade é grande demais para ser capturada de uma vez só. Você acessa fragmentos conforme sua capacidade de sustentar aquilo que vê. O arquiteto do universo não errou ao fazer assim. A perfeição não está na rigidez. Está na adaptabilidade simbólica. Um texto que ainda conversa com você milhares de anos depois não sobreviveu por acaso.

A Bíblia funciona como um jogo de camadas. Na superfície, histórias. Logo abaixo, princípios. Mais fundo, estruturas da psique humana. Ainda mais fundo, algo que escapa à linguagem comum. Você pode chamar de espírito, consciência, logos, sopro, presença. O nome pouco importa. O efeito importa. Algo ali reorganiza quem se dispõe a ler com atenção real, não com pressa religiosa ou curiosidade rasa.


Você não lê a Bíblia apenas com os olhos. Você lê com o estado interno em que se encontra. Se você está defensivo ou defensiva, o texto parece acusador. Se você está aberto ou aberta, o texto parece orientador. Se você está em negação, ele parece confuso. Se você está disposto ou disposta a atravessar seus próprios enganos, ele se torna claro de uma forma quase desconcertante.


Por isso ela nunca se esgota. Por isso ela nunca é totalmente decorada. Decorar seria reduzi-la a um objeto de posse. E esse livro não aceita ser possuído. Ele exige relacionamento. Exige retorno constante. Exige silêncio entre uma leitura e outra para que algo se assente. Exige humildade para admitir que você entendeu menos do que imaginava.


O maior enigma do jogo humano talvez não seja decifrar a Bíblia, mas perceber que ela foi construída para acompanhar o desenvolvimento da consciência humana. Ela cresce com você. Ela se torna mais exigente conforme você amadurece. Ela deixa de ser conforto infantil e passa a ser confronto adulto. Não porque muda, mas porque você muda.


Quando você entende isso, para de buscar a interpretação perfeita e começa a buscar a leitura honesta. Para de usar o texto como arma e começa a usá-lo como espelho. Um espelho que não elogia nem acusa. Apenas mostra. E mostrar, para quem realmente olha, já é transformação suficiente.


O arquiteto do universo é perfeito não porque deu respostas fechadas, mas porque criou um sistema simbólico capaz de atravessar eras, culturas, idiomas e níveis de consciência sem perder sua força essencial. Um livro que não envelhece porque fala do que permanece. O humano. Seus dilemas. Suas escolhas. Sua liberdade. Seu medo de usá-la.


Você não precisa concordar com tudo. Você não precisa entender tudo. Precisa apenas ler com responsabilidade. Sabendo que aquilo que salta aos seus olhos diz tanto sobre o texto quanto sobre você. E talvez mais sobre você do que gostaria de admitir.


No fim, o maior enigma não é a Bíblia. É o leitor e a leitora diante dela. É o que você faz com o que leu. É o que você escolhe ignorar. É o que você decide viver. O livro permanece. O jogo continua. E a consciência é o único movimento que realmente importa.

Até hoje, pouquíssimos foram imortalizados. Pouquíssimos atravessaram séculos sendo lembrados, estudados, discutidos. Reis, filósofos, conquistadores, líderes espirituais. E mesmo esses são lembrados de forma fragmentada, distorcida, reinterpretada. A imortalidade histórica não preserva a pessoa, preserva um símbolo. Um recorte. Uma narrativa útil para algum tempo posterior.




Dentro desse cenário, Jesus Cristo se destaca de forma desconfortável. Não porque tenha sido o único a influenciar milhões, mas porque sua influência não dependeu de poder político, força militar ou herança genética. Ele não deixou filhos biológicos, não escreveu livros, não fundou exércitos. Ainda assim, seu nome atravessou dois milênios sem perder centralidade. Não existe outro ser humano que ocupe esse lugar simbólico com tamanha persistência.




Ele é apresentado como perfeito. Sem defeitos. Não no sentido ingênuo de alguém sem conflitos, mas no sentido de alguém que viveu alinhado entre discurso e ação. E mesmo assim, teve um final. Um final público, doloroso, definitivo do ponto de vista do corpo. Isso por si só já desmonta uma fantasia comum. A de que viver corretamente garante imunidade contra o sofrimento ou contra a morte. Não garante. Nunca garantiu.




A fé cristã afirma que ele vive. Não como corpo, mas como espírito. Afirma que ele é Deus. Que Deus criou a Terra. E que a Terra não é um teste improvisado, mas um jogo com regras. Um jogo duro, desigual, cheio de ruído, mas ainda assim um jogo estruturado. Se você aceita essa premissa, então nada aqui é aleatório. Nem o nascer, nem o morrer.

Deus teria deixado um manual. A Bíblia. Não como um livro de frases motivacionais ou promessas fáceis, mas como um mapa de funcionamento da condição humana. Um texto que expõe padrões, consequências, limites. Um manual que muita gente carrega sem ler e muita gente lê sem aplicar. E, segundo essa lógica, Deus ainda teria feito algo mais radical. Entrou no próprio jogo. Vestiu um corpo humano. Experimentou fome, cansaço, rejeição, medo. E jogou diante de todos. Esse humano foi Jesus.


Isso muda a leitura da existência. Porque se o próprio criador entrou no jogo e também teve um fim, então o fim não é falha do sistema. É parte dele. O problema não é morrer. O problema é viver como se não fosse morrer. O problema é adiar decisões essenciais achando que haverá tempo. O problema é gastar energia tentando construir uma imagem eterna dentro de um corpo provisório.


Você, homem ou mulher, não escapa dessa matemática. Não importa o quanto produza, o quanto acumule, o quanto seja amado ou odiado. O seu tempo aqui é finito. E isso não deveria gerar desespero, mas foco. A clareza de que cada dia é uma página que não volta a ficar em branco. Você escreve com ação ou com ausência. Ambos contam.


Quando você entende que ninguém além de um círculo muito restrito lembrará de você, algo interessante acontece. A necessidade de provar valor para o mundo começa a perder força. A pergunta muda. Deixa de ser como serei lembrado e passa a ser como estou vivendo agora. Não para aplauso futuro, mas para coerência presente.


Jesus não construiu legado no sentido comum. Ele não trabalhou para ser lembrado. Ele viveu aquilo que acreditava ser verdadeiro, mesmo sabendo que isso o levaria ao fim. E talvez seja aí que esteja o ponto mais desconfortável da história. A ideia de que o sentido não está em durar, mas em alinhar. Não está em permanecer, mas em atravessar com integridade.


Você vive em uma época obcecada por visibilidade. Likes, registros, arquivos, perfis. Tudo precisa ser documentado, compartilhado, validado. Como se o esquecimento fosse a maior tragédia possível. Mas o esquecimento é o destino padrão. O esforço para ser lembrado muitas vezes serve apenas para evitar a pergunta mais incômoda. Estou vivendo de acordo com aquilo que digo acreditar?


O fim chega para todos. Para o anônimo e para o reverenciado. Para o justo e para o injusto. Para quem construiu impérios e para quem mal conseguiu sobreviver. A diferença não está no fim, mas no percurso. E não no percurso externo, mas no interno. No modo como você lida com o tempo que recebeu.


Se Deus criou o jogo, o manual não promete vitória fácil. Promete sentido. Promete direção. Promete que viver com consciência custa, mas viver sem ela custa mais. Jesus não escapou do fim. Ele atravessou o fim. E isso redefine o valor da sua própria travessia.


Você não controla quanto tempo tem. Controla apenas como ocupa o tempo que passa. E isso não exige heroísmo histórico. Exige lucidez cotidiana. Exige parar de viver como se tudo fosse ensaio. Não é. É ato único. Sem replay.


Quando você entende que até o perfeito teve um final, você para de exigir eternidade de si mesmo. Para de adiar vida em nome de uma promessa futura que talvez nunca chegue. Começa a viver com mais presença, menos ilusão, menos teatro.


O fim chega para todos. E justamente por isso, cada escolha importa mais do que parece.

A POBREZA HEREDITÁRIA QUE MOLDA A SUA VIDA

Existe um peso silencioso que muitas pessoas carregam sem nomear. A pobreza. Não como uma fase pontual, mas como uma herança. Algo que atravessa gerações, molda escolhas, limita horizontes e ainda assim é tratada como falha individual. Você, homem ou mulher, em algum momento já sentiu essa culpa disfarçada de responsabilidade excessiva. Como se bastasse querer mais, trabalhar mais, tentar mais, para sair de um lugar estruturalmente desigual.
A pobreza não é um fracasso pessoal. Ela é um fenômeno histórico, social e familiar que se repete porque cria ambientes onde as opções são reduzidas desde cedo. Você não começa do zero. Começa do menos. E isso muda tudo. Muda o tempo que você leva para aprender, as oportunidades que aparecem, a margem de erro que você pode ter sem ser destruído ou destruída.
Quando alguém diz que basta esforço, ignora o custo invisível de crescer sem rede de apoio. Ignora o cansaço acumulado de quem precisa resolver o presente antes de pensar no futuro. Ignora que errar para quem tem pouco custa muito mais. Um erro financeiro, uma escolha profissional mal informada, uma doença, uma crise familiar podem empurrar você anos para trás.
A narrativa do mérito absoluto é confortável para quem recebeu reforços. Educação estável, apoio emocional, referências, tempo para errar, incentivo para tentar de novo. Quando esses elementos não existem, o esforço sozinho vira uma corda curta. Você puxa, mas não alcança o outro lado com facilidade.
Isso não significa que sair da pobreza seja impossível. Significa que é raro. E quando acontece, costuma envolver algo além da força de vontade. Um encontro, uma oportunidade específica, um acesso inesperado, alguém que estendeu a mão, uma política pública, uma mudança estrutural. Reconhecer isso não tira o mérito de quem consegue. Tira a culpa de quem ainda não conseguiu.
A pobreza também molda a mente. Cria urgência constante. Você aprende a resolver o agora, não a planejar o depois. Aprende a sobreviver, não a expandir. Isso não é falta de visão. É adaptação. O problema surge quando essa adaptação é julgada como limitação moral.
Você não escolheu nascer onde nasceu. Não escolheu o nível de instrução da família, o bairro, a escola, as referências. Essas condições iniciais influenciam diretamente o quanto de energia sobra para sonhar, arriscar e persistir. Dizer que tudo depende apenas de esforço é ignorar a realidade concreta da vida.
A pobreza atravessa gerações porque se reproduz no cotidiano. Na necessidade de trabalhar cedo. Na interrupção de estudos. Na normalização do cansaço extremo. Na falta de tempo para errar com segurança. Cada geração herda não apenas menos recursos, mas mais responsabilidades.
E ainda assim, você é cobrado e cobrada como se tivesse recebido o mesmo ponto de partida que todos. Essa cobrança cria vergonha, e a vergonha paralisa. Ela faz você acreditar que não merece querer mais, que sonhar é ingenuidade, que tentar é perda de tempo. Esse é um dos danos mais profundos da pobreza. Não é só material. É simbólico.
Reconhecer isso não é se vitimizar. É se localizar. É entender o terreno em que você pisa antes de se culpar por não correr mais rápido. Quando você entende o contexto, pode buscar estratégias mais realistas. Pode valorizar pequenos avanços. Pode procurar reforços externos sem sentir que está trapaceando.
Esforço importa. Mas ele não opera no vazio. Ele precisa de estrutura, de tempo, de margem para erro. Sem isso, o esforço vira exaustão crônica. E exaustão não liberta ninguém.
Você não é menos capaz por ainda estar onde está. Você está operando dentro de um sistema que exige mais de você para entregar menos. Isso não define seu valor. Define a dificuldade do caminho.
Sair de uma hereditariedade de pobreza exige mais do que vontade. Exige acesso. Exige suporte. Exige rupturas que nem sempre estão sob controle individual. Entender isso devolve dignidade. E dignidade é o primeiro passo para qualquer transformação real.
Você não precisa carregar a culpa de um sistema inteiro nas costas. Pode carregar apenas a responsabilidade possível, aquela que cabe dentro da sua realidade atual. O resto não é fracasso. É contexto.
E quando você para de se tratar como defeituoso ou defeituosa por não ter vencido uma corrida desigual, algo muda. Você passa a se mover com mais consciência e menos vergonha. E isso, embora não resolva tudo, já rompe um ciclo silencioso.
A pobreza não define quem você é. Ela explica parte do que você enfrenta. E entender essa diferença é um ato profundo de lucidez e respeito consigo mesmo e consigo mesma.