Eu e Voce de Luiz Antonio Gasparetto
Tem gente por aí que fala em felicidade ser um direito, um dever ou uma escolha. Felicidade é, na maioria das vezes, puro acaso.
Idiotas com pós-graduação dirão que o progresso que vivemos nos últimos anos é a prova de que podemos nos libertar da mecânica do destino.
Lixo
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom-dia.
- Bom-dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É...
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu o quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?
FLORES DO SERTÃO
Quantas belas mulheres fortes
Brotaram da terra vermelha,
Dos espinhos do cacto mandacaru
Trazendo vida, alegria e flores
Esperança, que no lajedo habitas,
E um sorriso cativo perseverante,
Que a seca faz da fé abundante
Tornar-se a fonte de seus cuidados.
Singeleza, como era muito linda
A beleza pálida da bisa Maria
Mulher submissa porém cálida
No amor, no aconchego e no zelo
E que seus olhos viram Maria Bonita,
Flor zelosa como uma mãe cabrita.
Mulher que não saía do fogão
Vinha comida à lenha e à carvão.
A flor do sertão nunca envelhece
És a rosa do deserto que não morre
A água em ti demora, mas escorre
Do céu onde a esperança rejuvenesce.
Mulheres sofridas, mas amorosas
Não tem frescura co'as mãos nas roças.
Sem temerem a escaveirada morte
É de Deus o sopro da vida e da sorte.
O amor cura feridas, evita guerras trágicas
Desbarata mágoas e ilusões mágicas,
Haverá menos perseguição e traição
Se todos viverem em união e comunhão.
ALMA VIVENTE
Meiga, alma gêmea, minha cara-metade
Vives em mim firme de dentro para fora
Co'os lábios cor de vinho como aurora
Não morrerei de amor, és tu fidelidade.
És tu crucial para o meu afago do agora
Espelho da vida itinerária, preciosidade
Do semblante reencarnado da Antiguidade
Onde viveste a filosofia clássica sem hora.
Alma que pesa em si raios de anos-luz
Primazia feita de grinalda, tulipa e lírios,
Margaridas e flores de laranjeira, reluz
Um trajeto de pétalas, desvio de delírios,
Incredulidade com sermão que conduz
A multidão confiante nos grandes círios.
Ferrada de vespa
Abelha, caba, ou vespa, seja lá oque for, ferrou a minha mão, como se fosse uma pontada de triturador no coração.
Picou uma criança na mão
-Ah que dor
-Minha mão inchou, com uma ferrada, no meu dedo indicador
Cuidado tagarela,
Ela pode te ferrar na língua, como ferrou Narizinho no inesquecível Sítio do Picapau Amarelo.
Não mexam curiosos meninos, no ninho que está quieto, elas não são malvadas, apenas produzem o mel em sua casa.
ALBATROZ
Morava no Porto de Santa Catarina
De manhã costumava tomar café e comer pão com margarina,
Logo depois entrava dentro dele,
Me vestia com casacos quentes contra o frio.
Retirava a âncora da costa e tocava a sineta
Com meu leme rumo à Antártica
Fazendo da minha vida um passe de mágica.
O meu companheiro de longas viagens pelos mares quentes e gelados, o Albatroz.
Partia para um lugar onde era território dos albatrozes, um lugar sem presidente, nem bandeira.
Só habitado por seres fantásticos
Principalmente a baleia da Antártica.
A noite, eu estava na proa do Albatroz.
Olhando aqueles fenômenos bonitos no céu
Que só há no céu da Antártica.
Era acostumado a girar o leme desviando o navio de enormes icebergs na frente tão alvoscomo ursos polares.
Mas tudo aquilo, era só um passaporte de magia,
Tudo construído na minha mente infantil imaginária,
Um dia construí o Albatroz na minha mente de criança inocente
Para poder realizar meus sonhos fantásticos e até mesmo impossíveis.
FELICIDADE CONTENTA
A felicidade com certeza não está onde nós procuramos, no dinheiro ou na busca dela com desespero.
A felicidade realmente é aquela onde somos felizes pelo que temos, felizes por nossas escolhas, forma de viver e onde você está sem se surpreender com a conquista dos outros. É está focado na sua que é mais equivalente e valiosa do que uma caravana de camelos.
A sua felicidade nasceu pra ser dividida com quem está sempre do seu lado, quem te compreende e te interpreta lhe ajudando nas horas mais difíceis da sua vida.
Devemos analisar e observar com quem realmente devemos dividir esse mérito, se você não tem pessoas motivacionais nem positivas por perto, comemore sozinho, pois não há momentos alegres melhor com você mesmo feliz por si saltando de alegria.
ŘØMĀŊŤİŠMØ
Quem não ama, morre,
Quem não sabe o que é
O amar, deve-se ficar porre
O amor, vida saudável é.
Quem não ama o amar
Nem a si ou alguém
Para terra da solidão
Cedo, mui breve irá voltar.
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