Eu e Voce de Luiz Antonio Gasparetto

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Eu não ligo para estar sozinha.
Pois tenho por companhia.
Mil corações onde sou rainha!

Eu não preciso e não quero ser gente boa com todo mundo, até porque odeio falsidade.

Eu sou quase uma psicóloga para as pessoas. Dou minha opinião sobre o que acho que elas deveriam fazer, dou conselhos, sugestões. Mas com você eu não consigo. Talvez porque tudo o que eu queira te falar é “me abraça, vem pro meu lado, fica comigo porque eu nunca teria coragem de te machucar”.

E se um dia eu mudar, quero que todos tenham certeza que eu mudei por mim, e não por alguém.

O fato é que eu estou uma bagunça por dentro e por fora.

Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.

Manuel Bandeira
BANDEIRA, M., Libertinagem, 1930

Nota: Trecho do poema "Não Sei Dançar"

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E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas.

Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas.

Sempre que me perguntavam como eu gostaria de ser lembrado, respondia: com um sorriso.

Não, eu não me esqueci dos meus planos. E não, também não desisti dos meus sonhos. Só desentortei o caminho. Percebi que para chegar onde quer que fosse teria que tirar definitivamente dele tudo o que não me valeu.

Só esquece. Esquece tudo que te falei, cada palavra, tudo que eu sentia, esquece. Esquece todos os olhares em sua direção, todas as conversas que tivemos. Não consigo nem acreditar que por um momento achei que pudesse dar certo, que “nós” ainda podia acontecer algum dia. Você não sabe o quanto me sinto idiota. Esquece tudo que senti por você, posso te jurar que vai ser bem mais fácil pra você do que pra mim.

O importante, o irreversível, o definitivo, o claro nessa história toda é que eu gosto muito de ti.

E eu não aguento a resignação. Ah, como devoro com fome e prazer a revolta.

Clarice Lispector
A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Nota: Trecho da crônica As crianças chatas.

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Ambiciono que o idioma em que eu te falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo.

Herança

Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?

Eu queria escrever um livro. Mas onde estão as palavras? esgotaram-se os significados.

Clarice Lispector
Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.

Eu sou que nem cartão de crédito: errou na terceira chance eu bloqueio.

Eu tenho essa coisa de olhar para a pessoa, e saber de cara, se eu confio ou não.

[O sentido da minha vida] é inventado a cada momento, mas é claro que eu necessito da poesia, eu necessito da arte, eu necessito de estar discutindo essas coisas, de estar pensando nessas coisas que dão transcendência à vida. Eu não tenho dúvida alguma de que a arte é necessária porque a vida não é suficiente, porque senão qual era a necessidade de inventar a arte? A necessidade é essa: as pessoas necessitam dela, por mais que aconteça coisa no mundo, a arte sobrevive, como uma forma de acordo com o momento, com a época, ela é uma coisa necessária, como a ciência é necessária, como a filosofia é necessária, como a religião é necessária, como a política é necessária.

Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles...