Estava um Pouquinho Ocupado Desculpe me
O OLHAR DE DEUS
Dentro de um universo há milhões de universos
e nada é tão claro, nada tão complexo,
Caetano nos diria num sorriso: se não fosse tão explicito...
num olhar de uma criança,
a anta bebendo no rio
ante a ameaça de um crocodilo...
tudo é desafio nesse poema de morte,
algo que comporte a vida
e se a vida é uma estrofe
e cada um de nós somos um universo,
o que seria a poesia
o rio mata a sede da anta, a anta alimenta o rio,
e ante todos os desafios o olhar da criança
é o olhar de Deus harmonizando o universo
Meu sonho
É só um sonho
Eu sonho só
E e o sonho é só meu
E por sonhar sozinho
Eu me avizinho ao sonho
Me descomponho
O sonho sonha eu
Meio embaçada pelo tempo, Sílvia sorrir depois de um gol e das comemorações com as amigas; tenho a impressão de que ela me pisca ligeiramente, é uma ilusão boba que ficou anuviada pelo tempo, mas ainda brinca no meu subconsciente; não sei se é isso que chamamos de amor platônico, mas confesso que tenho medo de encontrá-la novamente depois de quatro décadas; aquele jeito sensual de andar, de mexer nos cabelos castanhos, aquele sorriso encantador... essas abstrações me povoam e demarcaram território no quintal que constitui as minhas lembranças, mas o tempo é devastador e seria insuportável vê-la diferente. Nunca lhe falei desse encanto, mas supunha que ela percebera pois notara alguns olhados, sorrisos maliciosos... mas como, alguém tímido, sonhador e solitário com uma baixa estima incomparável apesar de tirar as melhores notas do colégio, chegaria a uma diva em um grupo blindado e limitado. guardei essa paixão como uma relíquia, afinal, a realidade decompõe qualquer beleza, qualquer fantasia. No comecinho da noite eu sentava no muro do chalé acanhado como o seu inquilino e ficava olhando as copas das tamarineiras cintilando com os vagalumes e algumas estrelas; algumas crianças brincavam de ciranda, outras corriam barulhentas e desastradas esbarrando nos idosos e seus cuidadores; as crianças nem pensavam na vida, os cuidadores só pensavam em ganhá-la e os idosos se perguntavam quando Cristo voltaria, quando esse mundo acabaria, afinal havia a eminência de uma terceira guerra mundial, pois o mundo estava sempre em conflito, e os astrônomos descobriam sempre algum meteoro que vinha na direção do nosso planeta; desculpa pra morrer não faltava, afinal o nosso planeta parecia estar com o prazo de validade vencido. Eu não queria pensar nisso, aliás o fim do mundo, as guerras, os meteoros, tudo me apavorava, mas tínhamos o Clark Kent e o Bruce Wayne, e se eles falhassem, eu me declararia a Sílvia e fugiríamos para Aiuaba, onde certamente as noites são bem longas, existem mais estrelas, tamarineiras e vagalumes, e ali, o fim do mundo jamais nos alcançaria
tenho um sorriso que ilumina o espelho
e o orgulho de já ter sido feliz,
mas então ante tua presença se curvam meus joelhos,
e a vergonha de ter feito o que não fiz...
os poetas não morrem, eu já sei,
mas não sei se os poetas sabem disso...
Cecília, entre os tons quentes do rosiclér
morria nos finais dos crepúsculos com todo capricho
deveríamos ser felizes se inventamos o amor
se fizemos o mundo
mas não somos felizes na busca desse amor profundo
quem terá entendimento pra felicidade...
diante de tantos deslizes
não somos, jamais seremos felizes
somos apenas deuses, temos apenas a eternidade...
ELZA SOARES
Um Mané romântico de dribles insolentes
apareceu pra enfeitar seu canto e seu sorriso
a voz se fez mais forte e ecoou no mundo
como arte e como arma a todo preconceito...
quando a dor batia ela cantava os ossos que roía
ela ruía os obstáculos que se erguia
e tinha esperança de ter esperança um dia
não sabes o que é o mundo
onde termina o horizonte começa a ansiedade
e a cidade é um monstro consumindo tua presença
não sei o que quero , mas tua ausência só me diz:
não sabes o que é o mundo...
e eu sei, pelo menos até saber-te perto
então transito, assim como se fosse tudo tão bonito
mas a brisa só deixa teu perfume a me dizer
não sabes o que é o mundo...
eu não sei
você é tão linda,
espero que um dia você perceba
essa beleza que vai muito além do reflexo do espelho,
e que as dificuldades da vida
não te façam uma escrava de si mesma
O domingo termina silencioso, como se tudo fosse um segredo e a noite lenta e enigmática me conduz às emoções mais profundas, as mais remotas, as densidades de todo sentimento e ressentimentos; chega um momento que tudo começa a se esvaziar e um buraco negro parece que ocupa todo o nosso universo interior, mas tudo deve ter um sentido; 'tudo tem um sentido'' grita um astronauta perdido nestas profundezas. é só um domingo que passa; isso pra quem não tem sensibilidade, pra quem percebe a violência se avolumando, o caos denuncia um apocalipse onde a humanidade é algoz de si mesma. descasquei uma banana, escrevi alguma coisa, mas os diálogos são sempre reticentes; o que pensam de mim não devia me perturbar tanto, mas não bloqueio essa inconveniência, nem disfarço a perturbação. algum dia vais compreender toda essa introspecção que me faz sorrir sozinho e todo o efeito desse silencio de alguns palmos e poucos minutos de espera... ah, eu não devia sonhar tanto, mas é isso que me mantém vivo, apesar de aumentar-me os pecados. "as manhãs ensolaradas têm menos brilho que a tua presença" Cecília talvez tenha algum poema com frase semelhante, mas essa é a marca legítima de um poeta romântico e anônimo; as paixões, os sonhos, os ideais me encantam; então imagino o sol caindo lentamente no horizonte, dourando nuvens esparsas num outono qualquer, alguém confidencia: "eu te amo". Deve ter acontecido muitas vezes, e muitas vezes ainda acontecerão; mas a mais bela das confissões fica presa num silencio obtuso, impressa num olhar piegas e insistente; pode parecer paradoxal, mas num mundo de zumbis também existiam anjos; e, a partir das quatro da tarde todos que passam em direção à praia, vão à cracolândia; era o que se passava na minha cabeça, e desde então o número de pedintes aumentava consideravelmente. A senhora com a camisa do mais querido do Brasil foi chegando, falando com as pessoas coisas que eu não ouvia com exatidão, mas já imaginava, era mais uma entre os pedintes que apareciam naquele horário; não tinha aspectos assustadores, mas só o fato de pedir já assustava, principalmente naquele horário. Falei-lhe em espanhol na tentativa de não ser compreendido para me livrar daquela inconveniência; ela respondeu e continuou falando em espanhol; me disse que era professora de história, e geografia, mas que tinha se contaminado com as drogas e então vivia daquele jeito. Falei-lhe de Deus, da Bíblia, dos preceitos cristãos; mas aquilo só detonava o que eu pudesse ter de esperança na humanidade; se as girafas que eu via na Quinta da Boa vista tivessem um pouco de sensibilidade, provavelmente elas se enforcariam, mas onde encontrar cordas e árvores resistentes para suportar o peso de uma girafa; e os ele
fantes... os elefantes jogar-se-iam do cristo redentor. Jocasta na varanda do nono andar, certamente contemplaria os moinhos de vento em Amsterdam, nem sei se seu nome é Jocasta, assim a chamo, porque de Jó ela nada tem, e casta ela não é; e como alguém de um condomínio em Belford Roxo contemplaria as flores de Amsterdã, só alguém muito distante, Jocasta; isso se ela não estivesse pensando em... meu Deus, melhor nem conjecturar essa hipótese. O "Dia" se encarregou da manchete: "jovem de 19 anos voa pra morte".
A segunda-feira chega lenta, consigo um poema e ainda sonho. Vejo a professora de história na escola onde o meu netinho leciona; parece que nem tudo está perdido, nem tudo está perdido; mas temos muito o que se procurar, temos muito o que se procurar dentro do que temos noção do que se tem de fazer e do que ainda não temos noção do que se deve ser feito. mas entre os folhetins, entre uma e outra viagem espacial, entre novelas que vão e vem, e renovam amores e remexem as saudades, descobertas, epidemias, pandemias; aparece esse feeling que ainda não tem rótulo, mas nos deixa alados e sonhamos, sonhamos, sonhamos... até que chega a nave... percebo a libélula, um alien assustador... eu tenho medo.
Não quero entender a noite, nem as mulheres ou a primavera...
as coisas que eu amo têm um lugar seguro nesta minha fragilidade e a minha fragilidade ocupa o mundo.
Se a leitura de um livro foi capaz de mudar completamente sua vida, é bem possível que um espirro faça o mesmo. Não porque não haja, no livro, qualquer mérito; mas sim porque palpita, em você, uma inconstância fora do comum, quiçá oriunda da sua natureza volúvel e impressionável.
"O ego acredita que dribla a sorte, mas o universo é um estrategista silencioso: ele não interrompe o nosso erro, apenas redesenha o horizonte."
"No esforço para entender a realidade, somos um homem que tenta compreender o mecanismo de um relógio fechado. Ele vê o mostrador e os ponteiros, escuta o tique-taque, mas não tem como abrir a caixa. Sendo habilidoso pode, pode observar o mecanismo responsável pelo que ele observa, mas nunca estará seguro de que sua explicação é a unica possível."
Nós sabemos que estamos ligados e que somos um com todas as coisas do céu e da terra... a estrela da manhã e a aurora que vem com ela, a Lua da noite e as estrelas do céu... apenas o ignorante... Vê muitos onde realmente só há um.
Relato de um sobrevivente:
Parece que o mundo está em obras. Menos eu, que também preciso de reforma, mas não agora. Gostaria de fugir daqui, mas estou sem disposição para sair. Gostaria de chegar a um lugar tranquilo, mas sem ter de ir. Estou sem coragem até mesmo para respirar.
Ao viver em sociedade, não busque com ansiedade o êxito; não cometer erros já um mérito.
Ao tratar os outros com humanismo, não espere gratidão em troca; se eles não virarem seus inimigos, isso já é gratidão.
Vladimir Putin descortinou: máximo cuidado com os simpáticos e diplomatas, incapazes de cometer uma indelicadeza, mas perfeitamente capazes de suprimir uma verdade ululante em prol da "harmonia das relações".
Aos que buscam bons conselhos: cerquem-se de gente capaz de atingir os mais altos níveis de sinceridade sem qualquer resquício de hesitação.
Aos sinceros: aprendam a trair o que fala ao coração e a mente em prol da "harmonia das relações". O traço dos senhores rabisca um caminho que não vale a pena ser percorrido.
Insatisfeitos com a baixa procura de luvas, um grupo de empresários decidiu contratar artistas para que, de agora em diante, só andassem de quatro apoios.
Os primeiros a aderir foram os adolescentes e todos passaram também a andar de quatro apoios. Depois, gradativamente a medida que a prática ganhava volume e bom apelo da crítica, foi a vez dos homens e mulheres muito copiosos dos outros e perdidos de si.
Preocupados em garantir que os demais fizessem o mesmo, os empresários trataram de procurar especialistas. Estes afirmaram: "os adolescentes enfim têm razão! Andar de quatro apoios não só previne problemas circulatórios como reduz o desgaste ósseo dos membros inferiores e, vejam vocês, auxilia na cognição graças ao maior aporte sanguíneo para o cérebro". A única precaução a ser tomada diz respeito ao imprescindível uso de luvas para proteger as mãos.
Não satisfeitos, os empresários foram também falar ao prefeito que a época já ensaiava o novo andar e, diziam, que também mugia em segredo. Em pouco tempo as crianças aprendiam a andar de quatro apoios nas escolas e nos Egrégios Tribunais era indecoroso caminhar de outra forma.
Aos poucos, os bípedes que restaram eram cabeceados às cadeias e hospícios.
Viveram assim até o dia em que a cidade foi varrida no mesmo evento geológico que apagou Macondo. Não obstante, ainda hoje se encontram quadrúpedes nas ruas.
Madrugada de 30 de dezembro, 2022
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