Entenda como Quiser So Nao me Julgue
O AMOR COMO PRINCÍPIO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quando quero ou não que a Júlia faça algo, jamais aponto para os efeitos futuros de sua possível desobediência. Ela sabe que se não me "obedecer" não levará uma surra, não será destratada, castigada nem deixará de ganhar o presente ou passeio prometido. Sabe apenas que ficarei decepcionado, não como forma ou estratégia de represália, mas naturalmente. Sabe ainda, que a desobediência de um filho é algo muito grave, não importa o que acontecerá ou não depois. Tive a graça de bem cedo conseguir fazê-la entender a dimensão negativa desse ato, às vezes me usando como exemplo negativo. De positivo, apenas o drama de consciência que os erros me causaram, quando fui meu próprio acusador.
Faz bem pouco tempo conversei demoradamente com minha filha, para me redimir do erro de lhe ter permitido, em nome do sossego, o que muitos chamam de uma pequena mentira. Tive a chance de lhe dizer que a mentira nem sempre tem "pernas curtas". Muitas vezes ela tem asas e ninguém as alcança nem descobre, de forma que o mentiroso fica impune para sempre. No entanto, mentir é grave. É traição. Não devemos fazê-lo, porque com isso, fazemos os outros sofrerem. Desrespeitamos o próximo. É em nome do próximo, das pessoas que amamos e outras que nos rodeiam, que não devemos mentir, ofender, bater, roubar, matar. Nada de "Deus tá vendo"; "a polícia pega"; "o castigo vem". Sei muito bem em que mundo nós vivemos, e a Júlia já começou a entender que muitos mentirosos se dão bem, dentro do contexto negativo e vulgar de se dar bem. Os políticos são um exemplo clássico dessa verdade. Ela já percebe, de alguma forma, que muitos seres humanos roubam, matam, prejudicam, não pagam o que devem, praticam toda sorte de abusos e seguem livres, impunes, fisicamente saudáveis e queridos na sociedade. Sendo assim, não é por causa do "troco" presente ou futuro que ela deve ser uma pessoa direita e honesta, e sim, porque isso é certo, porque o ser humano deve ser assim para que o mundo seja melhor. Para que a felicidade seja possível.
Sempre de forma simples e leve para seu entendimento, também digo a minha filha que ela deve ser solidária, fazer o bem, perdoar, pedir perdão, mas nunca pensando em recompensa. Já a fiz entender que nem sempre ou quase nunca os outros serão solidários com ela. Nem sempre ou quase nunca ela terá o reconhecimento pelo que fez, proporcionou ou deu. Muitas vezes perdoará e será de novo magoada, como tantas vezes pedirá sinceramente perdão e não terá. Mesmo assim, esses preceitos devem ser seguidos e observados, não levando em conta o que virá do outro lado. Nossa parte há de ser feita sem nenhuma cobrança da outra parte. Aprender a ser uma "boa pessoa" para que o mundo seja bom com ela, é aprender a ser hipócrita. Dar com a mão direita de forma que a esquerda veja. Fazer filantropia para que a sociedade admire. Promover a paz para, quem sabe, ganhar o Prêmio Nobel, e não porque entende que a paz é essencial para a humanidade.
Quero que a Júlia seja melhor do que eu. Bem melhor. Tenha virtudes que nunca tive, mas hoje tento ensinar enquanto aprendo. Não quero contar de novo com a sorte que me coroou, de ver a Nathalia, minha primogênita se tornar a grande pessoa que é, sem grandes méritos meus. Mesmo não contando com a experiência, os conhecimentos e as visões de mundo e vida que ora tenho, adquiridos com grande sofrimento. E boa parte desse grande sofrimento é outro item dispensável na vida de qualquer pessoa, se houver quem possa orientá-la sobre como amadurecer feliz. Amadurecer no pé. Ser pessoa íntegra não por medo, opressão, hipocrisia, interesse, troca ou egoísmo, e sim, por amor. Amor ao próximo e a si mesmo como extensão do próximo, tendo sempre a consciência como promotora de acusação dos erros.
AMOR E SOCIEDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
É assim que te quero; como quem não quer;
numa reza sem fé; busca sem desempenho;
no silêncio da voz que transfiro pros olhos,
mesmo assim de fumê; de regato e não foz...
Eu te quero com filtros de não te perder,
muitos véus e desvelos ao ficar assim,
sem começo nem fim; meio termo eficaz
em não ter que acordar deste meu não dormir...
Um querer sem querer, mas por querer e pronto,
esse ponto sem nó pra poder desatar
quando a vida entender de cobrar transparência...
Não importa o contexto, é querer de verdade,
mesmo tendo a mentira como seu escudo,
para tudo ficar na moldura da lei...
AMOR E SOCIEDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
É assim que te quero; como quem não quer;
numa reza sem fé; busca sem desempenho;
no silêncio da voz que transfiro pros olhos,
mesmo assim de fumê; de regato e não foz...
Eu te quero com filtros de não te perder,
muitos véus e desvelos ao ficar assim,
sem começo nem fim; meio termo eficaz
em não ter que acordar deste meu não dormir...
Um querer sem querer, mas por querer e pronto,
esse ponto sem nó pra poder desatar
quando a vida entender de cobrar transparência...
Não importa o contexto, é querer de verdade,
mesmo tendo a mentira como seu escudo,
para tudo ficar na moldura da lei...
CONSCIÊNCIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não se anistie dizendo que todos fariam como você, na mesma emergência. Pode ser que alguns tenham mais piedade; bom senso; decência; ética.
MEU SEM QUERER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Como a quero não tem lugar pra culpa,
não há buscas, tocaias, tentativas,
minha lupa se mira na distância
e me faz entender o meu lugar...
Só a quero, não quero nada mais,
nenhum passo a caminho do fazer,
do prazer que não seja o de sonhar
ou tecer fantasias improváveis...
Quero a troca de olhares e silêncios
que não podem ser lidos nem pescados,
meus pecados etéreos pelos seus...
Quando muito, a serena interação
de algum gesto remoto, inconfessável,
sem ação no querer de quem não quer...
CHEGANDO À TERCEIRA IDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A velhice não é a melhor idade, como se convencionou, mas pode ser uma idade melhor. Isto, se nos dispusermos a aceitá-la e dar o melhor de nós, para vivermos com relativa qualidade. Se a nossa infância e a juventude foram marcadas pelo que teríamos, e ao mesmo tempo pelo que não sabíamos que tínhamos, a velhice pode ser vista como a coroação de um um estágio no qual fomos aprovados.
Uma vez aprovados, passamos a viver do que nos resta, face ao que tivemos, e a reciclar nas nostalgias o valor desse troco do que pagamos para ver, e do eterno passado, sempre aos olhos, em formas de retrovisores. Reciclar, neste caso, não é só reviver. É viver de novo, como se a vida fosse realmente outra, com as limitações bem vindas por quem já viveu. Por quem já foi. Quem recaminha, sabedor de que o recaminho é curto. Não é um período que se compare à trajetória já percorrida, mas vem como um bônus especial para quem se superou.
Envelhecer é se superar. E quem alcança essa fase da vida sem se dar conta disto, viveu à toa. Não cresceu. Só envelheceu. No fundo, não superou nada. Simplesmente murchou, sem produzir sementes. E não adianta se valer de besteiras como chavões do tipo espírito jovem, coração de criança, corpo "com tudo em cima", para fugir da própria caveira que se esqueceu de cair e se mantém sob a pele flácida semelhante a um mapa ilegível, sem qualquer indicação do tesouro.
Façamos da velhice uma idade melhor, sem fantasia de melhor idade. Um tempo de reflexão serena para o bom fechamento de nossos dias, ainda que sem cessarmos as atividades que nos mantêm vivos enquanto há vida. No mais, pior do que tentarmos ser quem não somos, é insistirmos em ser, por fora, o que já fomos e agora não dá mais. É necessário que o corpo, a mente, o espírito e o coração, em seu sentido afetivo, estejam em plena sintonia. Não é possível cada parte puxar para um lado.
Creio, depois de tudo, que o segredo seja tão apenas enxugarmos, de uma vez por todas, o nosso conceito pejorativo de velhice ou terceira idade, sem darmos tanta importância para nominatas. Palavra de quem logo, logo estará nesse patamar. Que bom. Parece que sou merecedor de chegar lá... ou logo ali.
TODO AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Odiei como pude, as paixões que não quis,
quando novos olhares cruzaram meus rumos;
fui feliz de pirraça, quando não contive
os impulsos de fuga da felicidade...
Qualquer paz que se perde se perdeu em mim,
cada fim que se tem recomeçou do nada,
pra mostrar que não tenho controle dos meios
nem os freios e jatos do mundo e do tempo...
Já travei qualquer guerra que viver declara,
tive calma e tensão que não quero de novo,
fui a clara, fui gema e fui muito batido...
Toda forma de sonho, esperança e verdade
me crivou de saudade, lembrança e cansaço;
todo amor que se tem já passou por meus dutos...
LIVRE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não quero ser como pipa,
pois a pipa voa,
mas não voa sozinha.
Carece de linha,
de vento e cabresto
e quem a empine.
Quero ser como águia,
que mergulha no céu
até que o céu não termine.
COMO TE QUERO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Que não sejas pra mim,
neste momento,
o que já não serás
bem lá no fim
do dia que morre...
no firmamento...
Só me chames ou venhas
ao meu chamado,
se daqui a mais anos,
entre perdas e danos...
ainda fores quem és,
quem sabe ao quadrado...
Já conheço essa fita
de primeira impressão
que seduz o mundo...
Não te quero fachada,
cartão de visita
nem pano de fundo.
PLATÔNICO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se não posso te amar como esperas de mim,
posso dar esse afeto que vai pro riacho;
há um sim marginal nos meus olhos pendentes
onde o tacho estendido pode se prover...
Não é falta de amor; é questão de província;
sou domínio, fronteira, marcação formal;
mal me furto aos pedaços para sonhos breves
à deriva dos nós em redor desse laço...
Correspondo à magia, mas me falta chão;
dar o pão do meu corpo é retirar bem mais
desse todo que o toldo já delimitou...
O que sobra do mar são correntes restritas
que se doam nos vãos do sermão social
das escritas das terras e das relações...
O SENTIDO E OBJETIVO DA EDUCAÇÃO COMO UM TODO
Demétrio Sena - Magé
Não é ingrato quem se desprendeu de minhas cordas ou teias e caiu no mundo sem me consultar. Quem abriu parêntesis no que aprendeu comigo e desenvolveu conhecimento próprio. Nenhuma ingratidão existe no meu protegido, que agora voa; na minha pretensa descoberta, que se redescobriu e recriou; no meu pupilo, que amadureceu e já vê a vida com olhos independentes.
Ingrato sou eu, se não ficar feliz porque meu ensinamento empoderou alguém; minha educação o levou à liberdade, a tal ponto que o livrou de mim... e minha verdade abriu o leque das múltiplas verdades que a vida proporciona. Ingratidão é me frustrar porque minha proteção deu asas; meu olhar sobre o outro ampliou seus horizontes... meu investimento em um ser humano fomentou sua inquietação e o fez descobrir sendas pessoais para investir por conta própria em seus sonhos, esperanças e visões independentes da sociedade... até para discordar de mim e chegar à conclusão de que meus conceitos petrificaram.
Amemos o próximo e não a nós mesmos no próximo. Quando fizermos algo por alguém, que seja mesmo por ele; não por nós. Fomentemos o pensamento crítico, nos dispondo à possível crítica futura desse pensamento. Fiquemos orgulhosos quando as pessoas a quem demos a mão estiverem seguras para soltá-la... quem um dia orientamos, resolver tomar caminhos diversos, até adversos, indo muito além do que fomos. São estes, o sentido e objetivo da educação verdadeira. Se havemos de conduzir um indivíduo por um tempo, que seja no seu tempo e a condução nunca seja repressora; mandona; coercitiva.
Seres humanos não são animais domésticos, que não podem ter vontade própria... nem plantinhas de apartamento, que jamais poderão escolher os próprios vasos... ou troféus, medalhas e certificados de honra ao mérito, que sempre vão circular entre nossas mãos, gavetas, estantes e paredes... muito menos objetos de nossa ostentação pública diária ou eterna vaidade pessoal.
AUTORRETRATO
Demétrio Sena - Magé
Não há como encontrar em mim a sensibilidade que os seus olhos leem no poeta que sou. Quem mora no poeta é alguém mais frio e sem coração do que as pessoas que nunca se camuflaram nos versos. Leia no romantismo dos meus poemas comoventes, algo escrito para convencer a mim mesmo. Veja nas minhas construções literárias que mais encantam pessoas, um desencanto pessoal. Uma incapacidade como indivíduo, para corresponder aos ideais.
Quem conhece profundamente a humanidade, a tal ponto que a interpreta, compreende ou conforta, não é uma pessoa física. É o imaginário em redor da pessoa incapaz de manter o encantamento; a confiança afetiva; o romantismo; a segurança emocional. O indivíduo que mora no poeta é frio; seco; apático; insensível... tenta, em vão, ser o poeta que é... repetir o poeta no sujeito e se apossar do seu predicado... vencer a si mesmo ao se matar como indivíduo, para sobressair-se como entidade... a entidade que se faz amar através das letras... da alma literária... alma de fora... armadura do corpo e da alma que se anulam, porque não podem corresponder aos sonhos que levam às essências longínquas.
Fique apenas com o poeta... com a doce mágica do seu próprio imaginário... e do meu lado impessoal. A pessoa que recheia o poeta é um indivíduo de corpo e vícios... que pelo quanto alimenta o poeta, já se tornou oco... é árido, escarpado e sem graça... é triste, rígido e deserto... é de fácil decepção e com certeza lhe magoaria, no futuro... talvez até o fizesse não muito tempo depois.
Se num futuro imprevisível... por algum descuido seu ou por uma tocaia inadvertida em minha solidão, você vier a me conhecer, antecipadamente me perdoe por eu não ser o poeta... o poeta que sou, mas que voa mundo afora e me deixa no abismo do apenas eu... tão vazio da poesia com que abasteço corações remotos.
... ... ...
#respeiteautorias Isso é lei.
BRINQUEDO QUEBRADO
Demétrio Sena - Magé
Por não ter existido pra você,
como agora me diz essa mudez,
quando minha nudez está extinta
nesses olhos que vestem outros tons...
Hoje fico assustado por meu susto
(fui alguém que se creu imunizado),
ao não ter tatuado nostalgia
sobre a pele da sua consistência...
De repente não tive seu regaço,
de surpresa não fui seu confidente
nem seu aço dental sorriu pra mim...
Porque vejo que fui um por enquanto,
um encanto fugaz da solidão
que lhe dava desejo de brincar...
...
Respeite autorias. É lei
FIM DE ANO DO RECOMEÇO
Demétrio Sena - Magé
Embora o Natal, como data, não tenha sentido para mim, tem sentido recordar que bem pouco tempo atrás o Brasil vivia um dos piores fins de ano de sua história. Um Natal que não fazia sentido para nenhum ser humano de boa fé e de boa vontade. Não apenas pela pandemia de Covid 19, mas também por uma praga em forma de gente, que até então governava; digo; desgovernava o país.
Neste momento em que vivo num país cuja democracia foi retomada... cujas leis contra preconceitos, especialmente o racismo, a homofobia e a misoginia voltaram a ser de fato... num país que voltou a ser bem visto pelo mundo civilizado e, surpreendentemente, começou a ter de novo a inflação controlada, o que eu nem esperava já para este ano, estou bem otimista.
Ver as artes reocupando seus lugares; a cultura como um todo "revalorizada" e a cidadania recuperando seu contexto, não tem preço. Como não tem preço ligar a tevê e não ver mais, todos os dias, notícias de um idiota empoderado pelas urnas promovendo insanidades.
Mesmo sem comungar com o sentido possível do Natal, este ano está fácil participar da ceia promovida pelos meus, que acreditam... e que sempre respeitei. Boas comemorações para todos. A reunião anual das famílias em torno de uma aura consentida pelo ser humano como uma espécie de trégua, cessar fogo ou pausa humanitária é um mérito verdadeiro desta data.
... ... ...
#respeiteautorias É lei
REFLEXÃO NATALINA
Demétrio Sena - Magé
Vocês não fazem ideia de como a fome é dura. Dói no estômago, no corpo, na auto estima e na alma. Não a fome de quem vai comer mais tarde. Quem tem a comida e aguarda seu preparo, que hoje demora mais um pouco. Falo da fome de quem a passa; quem tem a comida regular como algo distante; garimpo inalcançável.
Para mim, Natal é de remorsos. Hoje como bem e sou grato à vida por não ter me abortado antes de conhecer um conforto relativo e criar filhas com esse conforto. Mas os excessos do fim de ano doem na consciência, como dói a fome, pelo remorso de saber que sou, nestes dias, o extremo oposto abusivo dos que a sentem permanentemente... de comida, brinquedos, brincadeiras, a segurança de um lar, pessoas queridas e, fome de serem queridas por alguém.
Não tenho remorso diário de comer, beber, morar... conquistei a vida sem privações, com educação e trabalho. Faço jus e creio que muitos conseguirão o mesmo, tantos outros muito mais do que eu, que sou um acomodado incurável, pelo que deixei passarem tantas "oportunidades" na vida.
Fim de ano é melancólico. Lembro que fui plateia de farturas alheias... até de natais vizinhos não tão fartos, mas de portas cerradas, porque os nove meninos de Maria poderiam adentrar, desejando migalhas. Hoje me sinto com portas cerradas, para que meninas e meninos como nós "não estraguem a ceia".
Não punirei meus afetos com recolhimento, ausência e tristeza em razão das lembranças do passado. Minha esposa e filhas não têm culpa e, meus irmãos, que viveram comigo tais experiências, têm um poder maior de superação... merecemos o ajuntamento feliz. Sabemos o quanto choramos juntos. É tempo de sorrimos.
O que sinto é inevitável, porém sou feliz. Como não, depois de sobrevivermos a tanto, sem recorrermos às piores formas de sobrevivência? Felizes festas... mas não façamos aquela oração "em agradecimento pelo que temos, enquanto muitos não têm nada". Isso é requinte de crueldade.
... ... ...
#respeiteautorias É lei
TOME AS ASAS
Demétrio Sena - Magé
Deixo ir como o galho não impede a folha;
feito a lua que míngua, mas libera o sol;
a garrafa de Sidra deixa a rolha ir,
num estouro que marca todo fim de ano...
Só não vais porque ficas nessa indecisão;
porque tentas fazer a partida ser minha;
partes meu coração e não partes de vez,
para seres quem fica e meu pesar ser teu...
Sou quem ama e deseja uma vida contigo,
ao abrigo da mágoa que tento não ter,
para ter qualquer caco de felicidade...
Mas também não te prendo, se fores exata
no martelo da hora que derrube a farsa;
deixo ir como a Barsa deu lugar ao Google...
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#respeiteautorias É lei
ESCRAVO DE NÃO SER ESCRAVO
Demétrio Sena - Magé
Já tive a fome como a minha escolha,
quando meu cardápio era ter fome ou ser livre.
Quando ter comida e ter também liberdade
não caberiam na bolha do meu mundo...
Na verdade, optei por comer poesia,
por ter as artes como sobremesa,
se a mesa não podia ser variada;
era isto ou aquilo, na barriga ou n'alma...
Hoje como ensopado de cultura,
já tendo alimentado bem o corpo...
não cato mais tanajura pra ter "carne"...
poesia é meu emprego, as artes complemento.
Meu alimento é graças à teimosia
de querer me manter de ambas as formas.
Compro meu vestuário, embora modesto,
com o que "não dá camisa pra ninguém";
não disse amém à receita desumana
de suor e de sangue para ter comida;
da lida insana que os exploradores ditam.
Fui um bravo sem nome; sem escudo;
devo tudo a ter escolhido a fome,
quando a fome queria me tornar escravo.
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#respeiteautorias É lei
DECLARAÇÃO DE AMOR
Demétrio Sena - Magé
Se ainda não o fiz nem tenho mais como construir belas e reconfortantes lembranças afetivas, preciso magoar bastante quem ainda me ama... trocar em seus corações, antecipadamente, a longa dor da machucada saudade pelo breve alívio do rancor... e pela tristeza do vazio a deixar, o conforto bem resolvido e inexplicável da decepção e da mágoa. O longo ranger de dentes, farei trocar pela ira vingativa e doce de alguns dias. Ou ainda o sentimento inevitável de perda pela sensação de livramento. Será minha última declaração ou prova de amor a quem amo e por acaso também me ame: dar-lhes a última e grande chance de substituir o gosto amargo do adeus pelo impulso libertador e fugaz de "já vai tarde".
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Respeite autorias. É lei
COMO TODA FÉ PRESCREVE
Demétrio Sena - Magé
O ateísmo não é uma forma de crença. É uma não crença. Como não crença, não é uma certeza: não acreditar não é o mesmo que saber que não existe, não há ou não é. Seria uma forma torta de fé, ter a certeza de que Deus não existe. Ou aquela certeza inversa do invisível; do intocável; do impossível de provar, absurdamente, como inexistência. Como desmentir o que acreditam pela fé, sem nenhuma exigência científica ou de qualquer outra natureza? Como alguém poderia provar uma não existência?
Em meu ateísmo, sei apenas que não sei de nada, e vejam só: ainda plagio Sócrates, ao confessar meu não saber. Isso prova o quanto não tenho qualquer bagagem para desqualificar a fé no Possível Deus, em deuses, em sobrenaturais. Além de tudo, meu ateísmo não nasceu de uma grande agonia, uma busca incessante ou qualquer frustração de natureza espiritual. Nasceu e cresceu de uma tranquilidade pessoal; da falta estrutural de uma necessidade íntima dessa busca de apoio extra-terreno.
Nada comove ou converte quem é bem resolvido com as agonias e desventuras do ser humano. E para mim, seria injusto e cruel "descomover" e "desconverter" quem achou esse justo e confortável sentido de seguir. Pregar o ateísmo seria criar o caos absoluto, para convidar pessoas a perderem o sentido que um dia encontraram e saltarem nesse abismo sem a garantia fantástica da fé no sobrenatural. Ateísmo é construção intima e lenta, não induzida. Um ateu não é um pastor do caos.
Que haja respeito recíproco sincero a todos os de fé. Aos que vivem realmente a fé (qualquer fé, em quem ou quê), de boa fé... e haja paz entre as diferentes crenças que se respeitam entre si e também respeitam as não crenças, como toda fé prescreve... como todo livro sagrado manda ou orienta... como todos os dias deveria ser, pela construção e a permanência de um mundo realmente melhor... e o tal de mundo melhor deixe de ser apenas um bordão atado aos interesses de cada um.
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Respeite autorias. É lei
ASPAS
Demétrio Sena - Magé
Quem "não erra" me causa temores e cismas;
a razão como regra me faz pisar leve;
os excessos, sofismas, não importa como,
que definem alguém como senhor dos fatos...
Como sou tão incerto, mas às vezes tenho
minhas luzes menores de saber modesto,
chega o dia em que venho reclamar a vez
de ser quem está certo em alguma questão...
Quem "não erra", por isso nunca sai das aspas,
põe as caspas ocultas entre a cabeleira,
já me cansa do quanto está sempre no alto...
É assim que desisto, me rendo, me puxo
para o luxo da paz de ceder a razão,
mesmo quando a detenho de fato e direito...
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Respeite autorias. É lei
