Entenda como Quiser So Nao me Julgue
Como antenas que captam os rumores do mundo, penso que percebemos o que passa pelo imaginário coletivo e transformamos esta enorme quantidade de informação em arte.
O moralismo é a moralidade massificada como propaganda pessoal, e neste campo, se há propaganda é porque a virtude virou mercadoria... Logo, moralidade mercadológica não é nada confiável.
O JAPÃO CONSEGUIRÁ SE REERGUER
O mesmo Japão que jamais se esquecerá da “rosa”, como Vinícius classificou a poeira atômica, mas conseguiu vencer seu trauma e crescer, tornar-se uma superpotência, certamente se reerguerá mais uma vez. É uma grande nação, na pobreza ou na riqueza. Tem um povo admirável. Cabe àquele povo esse bordão criado para o brasileiro, de que não desiste nunca. É o japonês que não desiste nunca. Persiste sempre, e chega lá.
Não há povo mais trabalhador e humilde; mais pacífico e organizado; mais educado e longânimo. Trata-se de uma nação que ama a paz por conhecer os efeitos da guerra. Que se apegou ao trabalho, por conhecê-lo como a única forma de progredir. Que não ambiciona o domínio de outras nações, porque se reconhece autossuficiente. O Japão é uma realidade que, ao cair, já se configura uma promessa de soerguimento. Promessa mesmo. Jamais uma ameaça de revanche ou forra, cobrando de outros países os preços de seus infortúnios naturais ou decorrentes de algum passo mal sucedido.
Um terremoto, ainda que gigantesco, não será o fim do Super Japão. Nem mesmo a nova grande ameaça radioativa que se afigura e ganha corpo. Estou convicto de que os japoneses reagirão. Renascerão do ponto em que houverem desfalecido e surpreenderão mais uma vez as nações do mundo inteiro, com sua dignidade, força e fé na vida.
Se qualquer outro país tivesse passado pelo que o Japão ora passa, e pelo que passou há quase setenta anos, dificilmente conseguiria despontar de novo como grande nação. Muito menos duas vezes. Seria grande o esmorecimento popular, e no meio político, neste caso posso citar o Brasil, haveria grande movimentação, sim, mas cada um por si. Todos querendo salvar a própria pele; em segundo plano suas famílias, em último a população. Seria o caos completo e ninguém falaria a mesma língua. O Brasil se tornaria uma torre de Babel da contemporaneidade, como já não é muito diferente.
Mas ainda podemos aprender com os japoneses. Com a sua solidariedade, sua organização, seu tino para reagir, e, sobretudo, com a suprema educação pessoal. As boas maneiras que não os deixam tentar se sobrepor aos compatriotas. Como todo o mundo, os japoneses querem se dar bem, mas não a qualquer preço. Não há qualquer “jeitinho japonês” semelhante ao famoso jeitinho brasileiro para cada situação.
Que o admirável povo japonês se reerga logo. Sem maiores sofrimentos. E continue a nos dar lições de vida, com as suas virtudes cotidianas de um povo, acima de tudo, patriota.
EDUCAÇÃO & REFLEXO
Demétrio Sena
Apesar dos que falam como quem vomita,
como quem acredita que o falar sem freio
atropela o silêncio dos que vão além;
sabem antes do meio o que virá no fim...
Sob todas as chuvas de palavras vãs
que abarrotam plenários, tribunas e salas,
ganham fãs e lacaios carentes de senso
e de falas vazias treinadas pra isso...
Mesmo tendo que ouvir falastrões burocratas,
sabichões de bravatas que a prática nega,
sei que a velha verdade continua nova:
Será sempre matriz a vivência real;
a palavra é capaz de transformar o mundo,
mas terá que fluir de quem vive o que diz...
Ter um marido ocioso é como criar um filho sem educá-lo para o mundo; a sociedade. É mimá-lo ao extremo; não exigir limites; fazê-lo sentir-se o centro do mundo - sem ideia de mundo real - e superior às pessoas que precisam fazer jus à sobrevivência. Em suma, um ser incapaz de compreender os valores éticos, legais e humanos dos quais um cidadão verdadeiro deve ser composto.
FÔRMA DE SER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Essa gente que sabe como a banda toca
ou de quanta madeira se faz a canoa;
põe os pingos nos "is" ou as cartas na mesa;
tem a velha certeza de seu dois mais dois...
Uma gente que nada conforme a maré,
tem o pé mais no chão do que adubo e raiz;
é pão-pão, queijo-queijo, diz coisa com coisa
e se dá por feliz por ser feliz assim...
Gente cheia de si; já não cabe ninguém;
diz amém pra si mesma e pra sua razão,
seu sim-sim; seu não-não; sua fôrma de ser...
Pobre gente que prova por seu A mais B,
sempre tem a dizer e com todas as letras,
as verdades das quais imagina ser dona...
FEITO CÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Aquela família me tratou como se eu fosse um cão miserável; fétido; imundo; sarnento. Elevou minha autoestima, deu-me água e colônia, cuidou de minhas feridas... deu-me amor. Amor verdadeiro. Todo amor que um cão espera do humano.
A MENINA E O MUNDO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A menina oprimida e tratada como santa cresceu. Quando a família perdeu o direito enviesado de separá-la das propaladas "imundícies do mundo", ela quis conferir. Ver se o mundo é tão imundo quanto aprendeu. Se todas as pessoas de fora da sua bolha são de fato perversas, mentirosas e podres.
Viu que o homem que fuma tem o pulmão comprometido, mas o coração, em sua natureza humana, é generoso. Conheceu finalmente a mulher de cabelos vermelhos e tatuagens no corpo, e constatou que a bondade não tem aparência. Que a decência não escolhe a cor dos cabelos nem da pele. Descobriu que a vaidade condenável não estampa ou cobre o corpo. Ela se oculta no coração e se manifesta em atos como preconceito, julgamento e certeza da perdição das almas de quem não comunga o mesmo credo; a mesma visão de mundo e vida; o mesmo caldeirão de filosofias distorcidas e dogmas calcificados. Ao mesmo tempo, descobriu a malícia e a hipocrisia; o rancor e a má fé impregnados em grande parte dos mais contritos, severos e santarrões da elite religiosa que a mantinha no cabresto... ou no redil.
Então a menina já não menina chorou. Estava no mundo e só foi preparada para estar no céu. Teve que travar a grande luta interna para vencer a si mesma e aprender a tratar o próximo como semelhante, apesar das diferenças. Viu, de uma vez por todas, que não estava cercada por demônios. Que as virtudes não são exclusivas da religião, nem os defeitos são inerentes aos não religiosos ou aos que professam outras crenças. Percebeu que o bem e o mal não escolhem grupos e ambientes; estão em toda parte, e seja onde for, somos nós que nos livramos das tentações, por força de caráter, natureza e criação.
Mas a maior tristeza da ex-menina foi constatar o rancor, a intolerância, o preconceito e o julgamento dos seus, desde o momento em que resolveu enxergar com os próprios olhos. Caminhar com os próprios pés. Pensar por conta própria. Correr seus riscos e descobrir que o mundo é bom. As pessoas do bem são muito mais numerosas que as do mal, e nenhuma delas tem uma inscrição na testa ou na palma da mão. Muito menos é conhecida em sua real profundidade, pelos discursos que faz ou o grupo a que pertence.
Mesmo assim, a já não menina e já não oprimida tem esperança de reconquistar a família e os antigos irmãos de fé, sem ter que voltar a ser como antes. Sua esperança na família, é a mesma que aprendeu a ter no mundo, após conhecê-lo pessoalmente, sem as influências do sensacionalismo denominacional.
A MENINA E O MUNDO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A menina oprimida e tratada como santa cresceu. Quando a família perdeu o direito enviesado de separá-la das propaladas "imundícies do mundo", ela quis conferir. Ver se o mundo é tão imundo quanto aprendeu. Se todas as pessoas de fora da sua bolha são de fato perversas, mentirosas e podres.
Viu que o homem que fuma tem o pulmão comprometido, mas o coração, em sua natureza humana, é generoso. Conheceu finalmente a mulher de cabelos vermelhos e tatuagens no corpo, e constatou que a bondade não tem aparência. Que a decência não escolhe a cor dos cabelos nem da pele. Descobriu que a vaidade condenável não estampa ou cobre o corpo. Ela se oculta no coração e se manifesta em atos como preconceito, julgamento e certeza da perdição das almas de quem não comunga o mesmo credo; a mesma visão de mundo e vida; o mesmo caldeirão de filosofias distorcidas e dogmas calcificados. Ao mesmo tempo, descobriu a malícia e a hipocrisia; o rancor e a má fé impregnados em grande parte dos mais contritos, severos e santarrões da elite religiosa que a mantinha no cabresto... ou no redil.
Então a menina já não menina chorou. Estava no mundo e só foi preparada para estar no céu. Teve que travar a grande luta interna para vencer a si mesma e aprender a tratar o próximo como semelhante, apesar das diferenças. Viu, de uma vez por todas, que não estava cercada por demônios. Que as virtudes não são exclusivas da religião, nem os defeitos são inerentes aos não religiosos ou aos que professam outras crenças. Percebeu que o bem e o mal não escolhem grupos e ambientes; estão em toda parte, e seja onde for, somos nós que nos livramos das tentações, por força de caráter, natureza e criação.
Mas a maior tristeza da ex-menina foi constatar o rancor, a intolerância, o preconceito e o julgamento dos seus, desde o momento em que resolveu enxergar com os próprios olhos. Caminhar com os próprios pés. Pensar por conta própria. Correr seus riscos e descobrir que o mundo é bom. As pessoas do bem são muito mais numerosas que as do mal, e nenhuma delas tem uma inscrição na testa ou na palma da mão. Muito menos é conhecida em sua real profundidade, pelos discursos que faz ou o grupo a que pertence.
Mesmo assim, a já não menina e já não oprimida tem esperança de reconquistar a família e os antigos irmãos de fé, sem ter que voltar a ser como antes. Sua esperança na família, é a mesma que aprendeu a ter no mundo, após conhecê-lo pessoalmente, sem as influências do sensacionalismo denominacional.
SAUDADE PRECOCE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Bastará seu silêncio como despedida;
vestirei esse flanco perfeito pra mim;
seu olhar delineia o começo do fim,
mas não posso entendê-lo como fim da vida...
Se terá que ser não, responderei que sim;
já me parte a certeza de sua partida;
caio nesta saudade que não tem saída,
numa dor de quem quebra uma rocha no rim...
Calarei o que sinto e seguirei sem drama;
ruminar as vivências em tristes lembranças
é a sina indelével daquele que ama...
Solidão é meu mundo sem teto nem chão;
velhas asas me chamam pra outras andanças
onde os pés buscam sonho de nova paixão...
DESCARINHO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ia sempre sondar se estavas bem,
como foram as horas dos teus dias,
se ninguém te feriu nem com palavras
ou descuidos de alguma natureza...
Era bom esquiar no teu semblante,
passear na ilusão de que me vias,
ler na folha do instante o meu poema;
meu diário das gotas do teu ser...
Pouco a pouco senti a solidão
do carinho, dos olhos, das palavras,
do meu chão e dos passos de costume...
Recolhi estes pés que me levavam
ao encontro contínuo do deserto;
cada dia mais perto da distância...
REDIL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Como tinha livre arbítrio,
arbitrou ser servo; cervo; ovelha....
e perder o livre arbítrio.
INTERVENÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O mundo precisa como nunca, das pedras que clamam. Dos forasteiros. Dos cães. Dos filhos pródigos. De todos os marginalizados e suas possibilidades de surpreender nestes tempos em que os pseudo-escolhidos decepcionam cada vez mais.
CRONIQUINHA GASTRONÔMICA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Como tantas vezes me ocorre, hoje acordei desejoso de comer umas porcarias. Antigas porcarias que marcaram a minha infância pela junção de magreza, barriga estufada, olhar dilatado e pele amarela.
Creio que não estou sozinho nessas esquisitices pontuais da vontade humana de comer. Gente come por fome, gulodice ou mania, e por motivos mais fundos, como saudosismo; nostalgia; memória.
A PARTIR DO CORAÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Biotipos me agradam, como a todos que podem discernir. No entanto, meus gostos têm as curvas perfeitas para meus olhos. Meus olhos têm os rostos que brilham para meu rosto, e ninguém os dita para mim. Por moda nem por mídia.
Tenho amor com nuances infantis: acho bonito na medida em que amo. Em outras palavras, o amor vem primeiro. Não existe magia, se não for assim. Quebro a tábua de qualquer lei social, quando meu coração escolhe. Desprezo fôrmas de formas e gritos de modernidade, se o meu lume sobre alguém define a sua beleza, sem saber o que dizem os especialistas oficiais ou livres... populares.
Sempre tive padrões completamente alienados, que discordam das vistas de consumo. De plásticas ou fachadas mutantes, ao sabor das épocas, ou ditadas pelos mercados que precisam vender conceitos. Lucrar com preconceitos. Nunca tive o amor como produto que se oferta pelo rótulo; pela propaganda; pelas promessas de faixa ou de vitrine.
Meu amor é tão livre, tão sem bula, que burla toda e qualquer cópia. Faz os próprios desenhos, rascunhados na essência. Quebra todos os engenhos de fazer gostar ou não. Gosta ou não, a partir de critérios próprios do gostar, para só depois achar bonito ou feio.
HUMANO CONFESSO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenho me revelado como jamais fiz, às pessoas de minhas relações mais estreitas, duradouras e alicerçadas. Faz tempo que sinto esse desejo incontido de me desembrulhar completamente, para ser lido em cada linha; cada entrelinha; cada letra miúda. Nunca fui tão previsível nos enunciados do meu comportamento. Jamais me deixei ficar tão exposto a tudo e todos. Tão sem segredos ou véus. Tão livre quanto agora. Descarada e defeituosamente humano.
Cheguei a pensar que seria fácil... como não cheguei a pensar que sofreria perdas tão importantes, ao deixar de corresponder às expectativas de tanta gente sem mácula; sem defeitos... tão acima de qualquer dúvida ou suspeita, e que até então me via como mais um dos santos de sua facção celestial na terra. Pensei que todos ao meu redor tivessem lá seus defeitos; seus segredos não louváveis; manias menos ortodoxas. Esquisitices e pensamentos inconfessáveis até alguém se confessar, para todos terem coragem de fazer o mesmo e promover o carnaval das fantasias rasgadas.
Apesar dessa grande representação do reino dos céus na terra, com tanta gente que julguei ser como eu, tive a surpresa de conhecer algumas pessoas que são de fato como eu, mas me pareciam acima do bem e do mal. Poucas; bem poucas pessoas, mas bastantes para não me deixarem sentir uma solidão absoluta, sem paredes nem fundo. Como se vê, sigo em busca de minha espécie perdida. Meu grupo réu confesso. Minhas almas gêmeas deterioradas pelas vicissitudes humanas.
CONSTATAÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Durante muitos anos, ela o aceitou exatamente como ele dizia ou confessava ser, sem qualquer disfarce ou rodeio. Só passou a rejeitá-lo, com todas as forças do seu íntimo, quando constatou que, de fato, ele era exatamente como dizia ou confessava ser.
A CURA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Vencerei seus efeitos como quem se rende
aos ataques constantes de sua má fé,
tenho fé no meu sonho de voltar pra mim
pra voltar a viver e te matar por dentro...
Quero dar aos meus olhos um novo amanhã;
desenhar nova linha pro meu horizonte;
coroar outra deusa pra reger meu mundo;
ser a fonte perene dos versos mais meus...
Calarei o que dói nas lembranças que trago
ao curar seus estragos em minhas entranhas,
costurar os retalhos rasgados na alma...
Lá no fim deste amor que parece não ter,
sei que mora o caminho pra sair do escuro
e romper esse muro que fecha meu céu..
