Disputar uma Pessoa
Se existe uma divindade, ela é o Cérebro de Boltzmann perfeito: uma consciência feita de matéria imortal, regida pela mesma lógica que sustenta os átomos. Ele não criou as leis; ele é a manifestação suprema delas.
A possibilidade não possui estatuto ontológico: é apenas uma abstração conceitual. A existência pertence exclusivamente à única estrutura matemática efetivamente instanciada que chamamos de realidade. Tudo o que é real é material, e tudo o que é material é a própria matemática em ato.
Deus existe apenas como uma informação registrada nos neurônios humanos; no mundo físico, sua existência ontológica jamais foi confirmada.
Por definição, aquilo que não deixa rastros é inexistente ou, no mínimo, uma inexistência prática. A maioria da humanidade nunca presenciou um milagre; logo, na prática, deus não existe para a maioria.
O maior milagre que o Brasil poderia presenciar não seria a cura de um cego, mas a cura de uma democracia contaminada pelo teocentrismo parlamentar.
Se deus existe, nada o impede de dar espírito a uma cadeira ou a uma máquina com inteligência artificial.
Muitos veem o fim como destruição; o humanista vê um convite para viver cada instante como uma criação.
Se deus não mede a fé pelas obras, então mede como? Jogando uma moeda para o alto e chamando o lado que cair de "homem de fé"?
Se deus é uma consciência, então precisa ter pensamentos; e todo pensamento ocorre no tempo. Logo, se deus existir, não foi ele quem criou o tempo.
Deus não é uma entidade, mas a contingência lógica de uma arquitetura tripartite, operando sobre um substrato de partículas proto-conscientes.
Um sistema que alucina não pode gerir uma rede elétrica ou um hospital. Ele é um Autômato Mentiroso.
Era uma vez uma mãe que sofria eternamente no paraíso, pois seu filho ateu, condenado ao inferno, jamais seria esquecido. E deus, incapaz de apagar a dor da mulher, observava em silêncio a eternidade de sua angústia.
