Disputar uma Pessoa
Em minha defesa, eu nunca escondi o que sou nem o que desejo.
Há em mim uma mulher inteira, mas também uma menina que ainda acredita no cuidado, no gesto que acolhe, no olhar que sustenta. E é por ela que eu escolho.
Não quero ser a mulher de um menino que ainda ensaia responsabilidades, que se perde nas próprias indecisões e chama isso de liberdade. Não quero ser abrigo provisório de imaturidades, nem colo para quem ainda não aprendeu a permanecer.
Eu quero ser leve… mas leve de verdade.
Leve porque posso descansar, porque não preciso endurecer para dar conta de dois, porque não preciso ensinar o básico a quem já deveria saber amar com presença.
Quero ser a menina de um homem.
De um homem que entende que cuidado não diminui, que presença não sufoca, que escolha não se adia. Um homem que não se assusta com a profundidade, mas mergulha. Que não foge quando percebe que é real.
Porque em mim, tudo é real.
O sentir, o ficar, o construir.
E se isso assusta quem ainda é raso, então que assuste.
Eu não fui feita para caber no medo de ninguém.
Em minha defesa, eu só estou sendo fiel ao que em mim nunca foi ausência
essa vontade bonita de ser bem escolhida… e, finalmente, poder ser leve sem precisar deixar de ser inteira.
No caldeirão do sucesso, a virtude é a poção mágica; mas o milagre não se completa sem uma boa pitada de esforço.
Quando nasci, recebi uma vírgula; hoje tenho uma biblioteca, mas ainda posso viver bem apenas com a vírgula.
Dentro de cada um de nós existe uma força extrema para ferir; a complexidade humana está em saber que essa mesma força também pode curar.
Sempre que acordar, lembre-se de que a vida lhe oferece uma nova chance de repensar, recomeçar e descobrir. Uma dádiva restauradora está mais uma vez ao seu alcance.
A equipe pode parecer uma locomotiva em movimento, mas seu líder muitas vezes é o trilho que a mantém no rumo.
Toda omissão diante do erro é uma compra parcelada, com juros, lançada na conta da humanidade. O vencimento vem para todos.
Entre aquilo que vejo, ouço, tateio, provo e respiro e o real, há uma distância que não sei medir; mas o desconhecido logo me revela a pequenez do que sei.
Uns criam bolhas mentais; outros passam a viver dentro delas. Uma bolha pode até oferecer conforto momentâneo, mas a paz está em assumir a própria vida com as próprias forças.
Em sua caminhada, ele chega a uma bifurcação. Para decidir, não reflete muito; apenas olha ao redor. Como a paisagem lhe parece a mesma, conclui que qualquer rota serviria e segue adiante sem fazer o desvio.
Mais à frente, encontra um transeunte e pergunta:
— Aonde me leva este caminho?
O homem responde:
— Este caminho leva a um abismo profundo. E o desvio já ficou para trás.
Assim é a vida: muitas escolhas parecem irrelevantes porque, no início, a paisagem quase não muda. Mas é justamente nelas que o destino se inclina.
